“Decorria um Inverno suave, com manhãs de rara bruma, e os peixes vinham desovar mais cedo nas águas tépidas daquele rio que tinha a mesma mancha fluida e ponderada do D. E justamente C. teve que lembrar outra vez aqueles dias provençais, as caminhadas à tarde na aldeia, sob cujos plátanos o pó adormecera; ouviam-se os gritos dum grupo de jovens estudantes americanos, e com eles vinha L., com a sua saudável compleição sedimentada numa infância com geleia de amoras e flocos de aveia, uma rapariga doce e tranquila que lhe dizia sempre «Deve ser um homem extraordinário, Mr. C., se já aos vinte anos se aborrecia.» Ela gostava de tudo, de estudar a gramática francesa, de passear no campo e de atravessar a pé a pontezinha de tábuas, pois os passageiros dos veículos pesados apeavam-se antes e tinham de caminhar no pequeno tabuleiro que tremia e rangia. Possuía o que se chama, na província do D., para designar a frescura e o entusiasmo dos verdes anos, «a novidade»”.
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Solução (1 Set/2.40h): Agustina Bessa-Luís – “As Relações Humanas”. Para fechar com chave de ouro, esta 10ª prova cega vem dar largos pontos à minha teoria de que pode ser muito difícil distinguir a escrita feminina da masculina, quando o(a) escritor(a) assim o quiser. Bem sei que escolhi uma escritora bastante difícl desta vez, além de um texto que remete para clássicos aparentemente demodés. Mas… guerra é guerra! Para mim, sem o prazer de deitar-me a adivinhar, o desafio foi entreter-me a reparar nos argumentos de homens e mulheres para justificar opiniões sobre um mesmo texto. Essa argumentação, sim, foi nitidamente sexuada. O que retira pontos à minha teoria, vendo bem. Enfim, apesar da “guerra”, o que se pretendia não era contar espingardas mas reflectir e brincar um pouco com assuntos tão sérios como a literatura e o sexo. Obrigada a todos (e a todas, como parece que se diz agora) que aceitaram jogar este passatempo. Foi divertido, não foi? Um dia destes repito a graça com outro tema.


O sexo não sei, mas é mauzote.
Bem, não me parece que essa opinião seja muito consensual, VSC… 🙂
Não devia ter elidido «do Autor».
É inacreditável como agora, já sabendo de quem é, me parece afinal inteligente o que me pareceu mauzinho! Sim, isto é uma confissão, a admissão de algo que me é desfavorável.
Como consolação, o ter-me parecido escrito por uma mulher. Aquela dita sobre o aborrecimento aos 20 anos.
O que só prova como nos deixamos influenciar pelos outros nas nossas avaliações. Não tem mal nenhum considerar mauzinho um texto da Agustina, ora essa. Não temos de gostar todos do mesmo e ela é de leitura reconhecidamente difícil. Eu gosto muito de lê-la, mas confesso que me cansa a atenção extra que ela me exige. Os livros da Agustina são monumentos pesados.
Muito obrigado pelo seu apoio. É neste momentos que uma alma caridosa faz toda a diferença.
Aquela do «Deve ser um homem extraordinário, Mr. C., se já aos vinte anos se aborrecia.» (é muito feminina e sardónica: as escritoras e senhoras, em geral, adoram pôr jovens adolescentes a fazerem notar a homens feitos como eles são tolos e desfrutáveis), aquela, dizia, devia ter-me alertado, uma afirmação mazinha que afastava impiedosamente a possibilidade de se tratar de um «autor de meios de transporte» (de aeroporto a estações de metro). E podia ter-me mesmo posto na boa pista.
O problema, aliás, não está tanto na dificuldade de Agustina – sou um «common reader» com algum tirocínio – mas na facilidade com que lemos a partir de lugares comuns, de pontos de observação: agora que sei que é Agustina, «leio Agustina» e, embora não(?) muito característico, seria impossível parecer-me que fosse outro A. que não ela…
Obrigado pela simpatia. Não podia ser mais encantadora e humilhante 🙂
Humilhante? VSC, por favor não dê mais importância a este passatempo do que aquela que ele tem. Se o consola (e não veja nisto nova “humilhação encantadora”) eu teria errado a maioria dos palpites, o que só prova a minha teoria. E é claro que todos nós interpretamos a partir de lugares comuns.
Volte sempre.
🙂
Homem.
Duvido que uma mulher usasse ‘imagens’ como estas:
… rara bruma
… gritos de jovens
… compleição sedimentada
Mas esta não é uma mulher qualquer, mfm… 🙂
Eu sabia que ias pôr um bem difícil na final.
Bem. Mulher.
Há aqui algum distanciamento descritivo perante a carnalidade da personagem feminina: “com a sua saudável compleição”; “Possuía o que se chamava … para designar a frescura…”
Não sei, acho que é mão de mulher. Mão forte, mas de mulher.
“Mão forte, mas de mulher”. Em cheio, Ivone. Parabéns mais uma vez.
Uma pergunta antes de dar a minha opinião final.
Foi traduzido?
Não foi traduzido, Ana. Se fosse, estava lá essa indicação. 🙂
– Decorria um Inverno suave
– ouviam-se os gritos dum grupo de jovens estudantes americanos
– sua saudável compleição sedimentada numa infância com geleia de amoras e flocos de aveia
– atravessar a pé a pontezinha de tábuas
– tinham de caminhar no pequeno tabuleiro que tremia e rangia.
Diria que é um imitador feminino, um livro escrito por um homem, quem sabe, para jovens.
Tantos diminutivos parecem-me um exagero, mas posso estar redondamente enganada.
É, de facto, péssimo.
Péssimo, péssimo? Ups.
Não, Ana, não é um imitador feminino. E não é qualquer jovem que a lê… 😉
Gostei de participar nesta sua série e de ficar mais informada. Nesta última Prova, pensei que a Ana iria escolher um/a autor/a muito difícil de decifrar e de difícil encaixe. Assim fez e muito bem. Mais do que divertido, foi um desafio, um verdadeiro enigma neste último caso.
Parabéns a todos os que acertaram.
«Toda a qualidade criativa duma pessoa depende da sua energia em abandonar a cumplicidade com os demais, o que equivale a sacrificar uma parte honesta do seu próprio ser e que corresponde à paz com o mundo.»
Agustina Bessa-Luís, As Relações Humanas I – Os Quatro Rios, Guimarães, pp. 83/84.
Bj
Ainda bem que gostou do presente. 😉
Não sei se deixei o meu nome no comentário. Desculpe, é da hora.:-)
Para terminar o mês de Agosto em beleza, enquanto aguardo que o post vá para o topo da página com o resultado final, deixo um link porque me lembrei de si e do seu amor de “paixão”, Ana Vidal. 😉
http://www.chicobastidores.com.br/
Espero que goste.
“Eu não me lembro direito de tudo, faz um mês que eu não toco”… diz o Chico. Só ele mesmo. 🙂
Obrigada, Ana! Só agora lhe agradeço o presente de luxo, sorry.
Eu acho que o pormenor dos peixes é de homem, eles é que costumam pescar e reparar nessas coisas. E essa coisa de se encantar com uma jovem despreocupada… Acho mais de homem, um homem mais velho, que admira a frescura da juventude.
Não é, mas podia ser, Cristina. Todos esses argumentos fazem sentido.
Neste, espalhei-me ao comprido. O que prova que realmente podemos errar, se nos limitarmos aos clichés (ou que há autores/as que lhes dão a volta).
Eu acho que foi muito divertido e fico à espera de novas brincadeiras deste género 😉
Mulher, julgo eu…
E julga bem, Carla.
Penso que este excerto tenha um assinamento masculino. Pequenos detalhes como a forma minuciosa que o autor/a descreve a jovem menina me faz querer que apenas um homem observador consegue descrever de forma tão genuína uma jovem.
Devo também admitir que desde a prmeira vez que li o texto, a sensação com que fiquei foi exactamente a mesma que imponho agora. No entanto este excerto possui uma leitura , não digo complicada, mas trabalhosa, que me obrigou a passar-lhe os olhos mais do que uma simples vez. (:
É uma autora que exige leitura atenta, nisso tem toda a razão. Mas… a minúcia não é um atributo feminino?
Penso que é de um homem. Será?
Não é, Sofia. Desta vez errou.
Homem. Pelas descrições da natureza e o encanto quase paternalista por uma rapariguinha (aparentemente) tão tranquila que “gostava de tudo, de estudar a gramática francesa, de passear no campo e de atravessar a pé a pontezinha de tábuas (…)”
Acho que eu responderia o mesmo, Leonor, e por essas mesmas razões. A descrição da rapariga é, de facto, bastante paternalista.
‘para designar a frescura e o entusiasmo dos verdes anos, «a novidade»
a primeira vez pareceu-me um homem a escrever, a segunda vez uma mulher.
diria que é escrito por um homem que suspira.
Decorria um Inverno suave – suspiro
as caminhadas à tarde – suspiro
ouviam-se os gritos – suspiro
doce e tranquila – suspiro
etc…
( já para não falar da última frase fatal )
a frescura e o entusiasmo dos verdes anos, «a novidade»” – último suspiro
ah ah ah
A segunda é que estava certa, Rita. Suspiro… 🙂
Julgo ser homem. Pelo recurso ao verbo ‘desovar’. É muito mais provável que este verbo seja escrito por um homem.
Yupi! Um erro teu vale ouro neste campeonato! 🙂
Não é fácil. À primeira pareceu-me homem, à segunda mulher. Pelos adjectivos, diminutivos e “a novidade” fico-me por uma mulher. Já agora, também não gosto nada do texto…
Boa, Paula. O texto pertence a um livro superior, mas assim tirado do contexto admito que não tem grande graça.
Digo que é uma mulher. “
Saudável compleição sedimentada numa infância com geleia de amoras e flocos de aveia” – acho que a um homem não ocorria fazer a associação entre aparência saudável e infância bem nutrida, muito menos mencionando alimentos como… geleia de amoras.
E dizes muito bem, Teresa.
Olá,Ana
Desta vez estou mesmo mais inclinada para uma escrita feminina. Sobretudo devido à primeira frase: “um inverno suave, com manhãs de rara bruma…”
Beijinhos
Fernanda
E fechou com chave de ouro, Fernanda.
Um beijo.
Palpitou-me que era ela. Admiro-a muito, mas comecei a apreciar a sua obra tarde. É fria, racional, seca por isso muitos dos seus textos podem parecer saídos de punho masculino.
Quanto a esta série ajudar a provar que a tua tese está certa, esquece 🙂 O facto de teres andado com uma cana a pescar os textos que mais nos podiam confundir é que prova, minha linda, que há escrita feminina e escrita masculina. Eheheh!
Temos um empate técnico, então, porque eu também não me rendo! eheheheh
(ora, o que me dizes à enorme variedade de autores que vos confundiram, hein? 🙂
Não vale andar a pescar textos dúbios para nos confundir. Isso é BATOTA!
Nah, nah, não fiz nenhuma batota.
Todos os textos existem e são de autores tão variados em idade, nacionalidade e estilo, que a vossa teoria fica tremida… 😉
Vitor Gaspar…
Já que todos lhe batem…por môr dos cortes… corte-se llhe o sexo…
Ou será demais?
É uma pena que já tenha acabado. Não tive oportunidade de opinar em todos (pensei que tinha opinado neste, mas afinal não). Era muito difícil justificar a nossa opinião, quando as bases dessa argumentação eram nada mais do que fruto de muitos estereótipos do género. Aprendi muitas coisas, mas mantenho a posição inicial. 🙂
Além do objectivo das provas, deu também excelentes dicas de leitura. Fico à espera do próximo desafio.
E eu conto consigo para o próximo desafio, Helena. Volte sempre.