
Esta primeira visita de Estado de José Eduardo dos Santos a Portugal poderá levantar muitas dúvidas e não há-de faltar quem lhe ponha todos os defeitos, desde a situação de um país em que o Presidente se eterniza no poder até ao afastamento entre Luanda e Lisboa que caracterizou muito tempo as relações bilaterais, passando ainda pelos poucos ou nenhuns privilégios ao investimento português em Angola (ao contrário do que acontece com a maioria dos Estados-membros da CPLP).
Um ponto, porém, deve merecer reflexão aos críticos: o Chefe de Estado angolano vem a Portugal em visita amistosa e, ao que tudo indica, apresenta-se aberto ao diálogo. Se assim for, é preciso que nos lembremos de que Angola é, cada vez mais, um destino preferencial dos portugueses que partem empurrados pela crise internacional e pelo desemprego. E, pelo crescimento potencial de Angola, é também alvo apetecido dos investimentos nacionais.
Perder estes dois aspectos de vista é ignorar os nossos próprios interesses. Porque, se o mundo inteiro entrar em recessão, ninguém ficará espantado se viermos a verificar que Angola será o último país a senti-la e o primeiro a sair dos indicadores negativos. Mesmo assim, nada disso em Angola é inteiramente presumível: só se.

É conhecida a hostilidade do angolano ao português em Angola, mas é uma hostilidade que se dissipa à primeira oportunidade de contacto interpessoal. Infiro do que escreves que todos os reparos à ‘democracia’ angolana devem ser modalizados em função da enorme tábua de salvação que vai constituindo para muitos que hoje a escolhem como destino de trabalho. Hoje, não português que não suspire por lá. Nova Terra da Promissão, porta de muitos sonhos nossos. -Seja.
É difícil aceitar o passado recente, mas José Eduardo dos Santos foi ao Parlamento explicar o futuro próximo: revisão constitucional em curso e eleições presidencias nos termos constitucionaos.
Seja qual for o ponto de vista, com Angola a investir em sectores estratégicos em Portugal, alguma coisa deve impedir-nos de olhar pelos nossos próprios interesses?
Nada. O caminho é partir, cooperar, fazer parte da aventura angolana zelando cada qual pelo seu sonho, progresso e realização de vida. Lamento é o recuo democrático português recente, a usurpação partidária da plena expressão democrática das pessoas, o desfasamento entre a democracia representativa e a realidade directa dos portugueses e que há meios mais directos de aferir e traduzir quer na legislação quer nas opções do poder político que voga em deriva oligárquica. Um regime assim pervertido porque oligarquizado não tem moral para fazer reparos à cleptocracia que muitos presumem em Angola.
Pode sempre dizer-se que aqueles que vão também têm o papel paralelo de colaborar na democratização através das palavras e dos actos, não é?…
Sim, afinal democracia é cultura e linguagem, por isso mesmo, também é exemplo! Muito bem observado.
o caminho faz-se caminhando e a política de terra queimada que se fez durante muitos anos nas relações entre os dois países não aproveitou a ninguém, angolanos ou portugueses. claro que a democratização do regime, a assumpção dos direitos humanos, são questões importantes e que devem ser priorizadas… mas sem imposições idiotas nem moralismos paternalistas. um passo de cada vez.
Exactamente. O meu comentário acima acho que se encaixa aqui também.
«…poucos ou nenhuns privilégios ao investimento português em Angola…»
Em bom rigor, não será bem assim. A menos que considere que falar a mesma língua e, talvez até mais do que isso, possuir o mesmo mindset e trabalhar no revivalismo do edifício administrativo-jurídico-comercial do Portugal de há trinta anos atrás não seja, efectivamente, um privilégio…
Não falei de herança cultural. Falei de investimento, negócio, indústria, serviços. Angola tem investido em sectores estratégicos da sua maior conveniência em Portugal.
A propósito: há 30 anos é sempre atrás…
Pois eu, João, mesmo reconhecendo a inevitável importância de Angola no nosso futuro próximo (mas apenas “se”, como diz muito bem, José Eduardo dos Santos assim o quiser), engulo com bastante dificuldade o beija-mão e a bajulação de todos perante uma personagem destas. Escusavam de elogiá-lo tanto e de tecer-lhe loas com tanta ansiedade, pelo menos.
Este assunto é um campo minado, eu sei. Basta ver as pinças com que é tratado por todo o lado…
Sim, requer uma diplomacia delicada. Mas repudio o beija-mão, a bajulação, o elogio, as loas. Muitos o farão, sem dúvida, e serão sempre os piores exemplos. São excessos escusados.
Trata-se apenas de recebê-lo como um Chefe de Estado convidado, Presidente de um país da CPLP. Tudo se quer na medida certa – nem mais, nem menos.