O respeitinho é muito bonito


Pedro Correia,

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“Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol.”

“A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances.”

“O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo.”

“Há jogos com outra intensidade competitiva.”

“Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário.”

“A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem.”

“Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair.”

“Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa.”

“As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos.”

“O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida.”

“Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido.”

“São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa.”

“O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores.”

“Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo.”

“O futebol é uma lógica de conjunturas.”

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos “níveis exibicionais”, do “esqueleto táctico” e da “intensidade competitiva” mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa “filosofia colectiva”, “zona de bloqueio”, “jogadores verticais” e “marcação subida”?

O respeitinho é muito bonito.

36 comentários em “O respeitinho é muito bonito”

  1. “…em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem….”
    Que grande constatação !!!
    Ou como o outro que chuta com o pé que tem mais à mão.

      1. Atiras com regras que te apetece, e não te aguentas com um encostãozinho.
        Nem a tua mamâ tem paciência para aturar a tuas sarrafadas trauliteiras.

  2. Nem mais. O jargão profissional também serve como “social currency” — garante estatuto, entrada num grupo, coesão do grupo e, obviamente, garante empregos.

    Na linguagem normal, sobre nulidades absolutas como o futebol, não se consegue dizer muito. “foi bom” ou “está a ser giro”. Numa linguagem blindada o código é feito pelo orador e quem estabelece o interesse e domina o assunto é ele.

  3. ouvido algures
    ‘no começo da época entreguem os trofeus todos ao FC pinto da costa e depois joguem futebol’

      1. Com mais ou menos figuras de estilo, quem está ligado ao futebol e gosta de futebol acaba sempre por andar aos pontapés à gramática.

      1. Não perdeu nada. Foram os candeeiros de rua que no sorteio da liga reclamaram que os árbitros ou passam a apitar direitinho ou em próximos eventos não aceitam prémios da liga como o do FairPlay ou melhor jovem jogador, com que foram agraciados no sorteio de ontem…
        O aviso está feito. Ou apitam para o nosso lado (na Luz isso é sinónimo de respeito) ou a gente zanga-se.
        Ainda antes de começar já começou. Vai ser bonito. SL

  4. “filosofia colectiva”, “zona de bloqueio”, “jogadores verticais” e “marcação subida”

    1-Espirito de corpo, acção colectiva
    2-Zona onde se deve cortar e inteceptar os passes do adversário,
    3-Jogadores com capacidade de defesa e ataque( “vertical” deve-se ao quadro que os treinadores mostram a táctica aos jogadores em que o comprimento do campo está representado na vertical) ,
    4-marcação aos jogadores do adversário começa logo no meio campo ou mesmo à frente.

    1. Parabéns.
      Você tem jeito para comentador de bola.
      Se conseguir dizer isso em frases de cinco minutos sem pontos finais garante lugar cativo num desses canais “informativos” que dedicam pelo menos um terço do horário nobre ao futebol.

  5. Eu estou muito agradecido ao iluminismo do novo comentário. Eu, pobre ignorante, gostava de futebol ao vivo, dos aaahhhs e oooohhhs, das desgostos e das explosões de entusiasmo, das cores, dos cânticos e dos foguetes. Julgava que a modalidade era difícil, e os executantes grandes atletas. Mas só agora, graças aos iluminados do comentário, compreendo até que ponto.
    Sempre julguei que o relvado, mesmo em condições menos boas, era uma superfície plana. Só agora compreendo que não, que o futebol se joga na vertical, e que há equipas subidas e descidas. Só agora imagino o esforço de correr levando a bola ao longo de uma ladeira íngreme, embora com om consolo de se descer para a defesa, em vez de recuar como antes
    Sempre gostei de equipas atacantes, cheias de raiva e vontade, e sempre me empolguei com as equipas que, sendo mais defensivas, conseguiam arrancar em contra-ataques letais e fulminantes. Escapava-me a dificuldade dessa manobra, que afinal é uma transição-relâmpago.
    Sempre gostei de ver grandes jogadores, com domínio inacreditável da bola, capazes de fazerem 100 metros em 10 segundos com a bola colada ao pé, de fintar estonteantemente, de rematar com brutalidade e pontaria. Mas sempre ignorara o talento de jogar sem bola; nunca compreendi que, ao olhar o ponta-de-lança no momento decisivo, estava a ignorar a incomensurável capacidade artística de outros.
    A consciência da minha ignorância tornou-se-me tão insuportável que, sempre que posso, vou às funcionalidades do canal, escolho «Audio» e clico «Sem comentário». E passo a ouvir todo o entusiasmo e a emoção do estádio, além de uns quantos palavrões e baque da bora na bola.

    1. Faço o mesmo, caro vizinho.
      Depois de perceber qual é a regra que prevalece: quanto mais idiota, mais tempo de antena.
      Fala-se muito da política, mas esta norma impera ainda com mais força no “jornalismo” ligado ao futebol.

  6. Caro Pedro Correia.
    Se se quiser “instruir” procure no youtube um “quadro” dos Gato Fedorento cujo nome penso ser “dicionário de Português-Manuel Machadês” por causa da forma como o treinador Manuel Machado se expressava.
    Pedro Cunha

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