O INE acaba de divulgar que o PIB em Portugal apresentou um crescimento incipiente no segundo trimestre do ano. Foi melhor do que nada, só que foi inesperado e ninguém sabe por quê e se terá continuidade. Tudo o mais vai mal. Porém, aquele dadozinho minúsculo foi quanto bastou para Sócrates embandeirar em arco e correr a declarar que Portugal é dos primeiros países a dar sinais de que a crise mundial pode estar a ser ultrapassada e que isso se deve à correcção das suas decisões políticas.
O disparate é evidente: o próprio governo não controlou nem contava com o dado apresentado hoje e, nesta metade do terceiro trimestre, não faz a mais pequena ideia do que está na origem dele. Mesmo assim, a par de Sócrates, apressaram-se a vir os habituais mais-papistas-que-o-Papa, para acrescentar que Portugal "está no pelotão da frente" dos países comunitários a sair da crise.
O mais estranho é que muitos destes seguidores cegos também estão fartos de malhar na enésima entrevista que Medina Carreira deu ontem a Gomes Ferreira na SIC-Notícias. Não percebo o espanto que isso possa ter causado: ele sempre foi um pessimista convicto, sempre disparou em tudo o que lhe parece mal (e não é preciso procurar muito), sempre apontou situações de agravamento que já antes previra (e não é preciso levantar pedras para encontrá-las) e sempre usou o mesmo tipo de ditos a que ontem recorreu. Onde é que está então o espanto?
A única coisa que Medina Carreira ontem realmente fez notar é da mais mediana sensatez. O nosso primeiro problema é a economia e Portugal precisa urgentemente de produzir mais e de exportar muito mais. Portugal não consegue produzir e exportar mais e é óbvio que não está no nosso horizonte razoável que venha a fazê-lo. Torna-se necessário, portanto, atrair investimento que aumente a produção interna e amplie as nossas exportações (o mesmo é dizer que precisamos de mais Autoeuropas e coisas assim).
Medina Carreira disse como se faz: saber rapidamente por que é que os investidores externos nos trocam por parceiros do Leste; saber se é por causa dos salários, das leis laborais, da burocracia, dos impostos, dos tribunais ou do que quer que seja; saber se estamos dispostos a oferecer o mesmo que a concorrência e actuar em conformidade.
Lembro que estamos a falar em parceiros da UE, ou seja, em países com princípios semelhantes e directivas iguais aos nossos. Se, mesmo assim, as palavras de Medina Carreira foram chocantes, vou ali e venho já. Mas, se querem saber, até gostava de ir e não voltar. Porque, sempre que ouço dizer que Portugal está num "pelotão da frente" qualquer, arrepio-me todo com as novas desgraças que se desenham. Como se sabe, o País só costuma estar no "pelotão da frente" quando o batalhão a que pertencemos faz meia-volta-volver.

O que me parece é que nem uns nem outros sabem o que se passa em Portugal. Vivem todos nas avenidas novas e não conhecem a nossa economia. Assim, é necessário saber:
– As PME responsáveis por grande parte do PIB e do emprego são também responsáveis por cerca de 30% de economia paralela. Em que áreas é que esta economia paralela actua? Actua na aquisição de matérias primas e venda de produtos acabados sem documentos e pagamento de parte dos salários (horas extraordinárias) por fora. Se entenderem fazer as contas podem verificar o valor que não é pago em impostos.
Como é que se pode, facilmente, verificar esta situação, caso a caso, é só comparar as declarações de IRS de cada um dos empresários com os bens ao luar de que dispõem (muitas vezes os valores declarados nem para a manutenção das mansões dá), obviamente que podem alegar sempre que herdaram, que os bens de um primo e só está à sua guarda, etc.
– A produtividade portuguesa (dos trabalhadores) é sempre baixa porque os citados 30% nunca entram nas contas. Isto é, se não aparecem as vendas das empresas como é que a parte correspondente poderá aparecer no númerador da fração? Depois é fácil dizer que somos todos uns calões mas a verdade é que alguém beneficia com esta situação que toda a gente conhece.
A realidade que eu conheço é deste tipo: o empresário, sócio maioritário de uma PME (o outro sócio é a mulher) tem uma casa cuja área de implantação é maior do que a área da empresa que alimenta a situação. As condições de trabalho no interior não lembra ao diabo.
Josephd
“A produtividade portuguesa (dos trabalhadores) é sempre baixa porque os citados 30% nunca entram nas contas.”
E os outros países, não têm economia paralela? O nível de economia paralela em Portugal está ao nível do que se passa em Espanha, Bélgica, Grécia ou Itália, e não é muito superior à média da UE.
Jorge Assunção:
Claro que só os países como o nosso, isto é, a Espanha e a Grécia é que tem o referido valor de economia paralela. É preciso conhecer os países pois de outro modo não faria a pergunta que fez. Se conhecesse as regras instituídas e as penalizações saberia que ninguém se arrisca a pisar o risco o que, em Portugal, é visto como sinal de esperteza (saloia).
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“o produto em Portugal apresentou um crescimento incipiente no segundo trimestre do ano”.
Incipiente será, mas França e Alemanha tiveram igual e foi uma festa, après la crise!
E…?
Caro João Carvalho,
Sou tudo menos um optimista ou um positivista em relação a Portugal . Mas mesmo assim, reconheço que há uma área onde realmente estamos muito muito bem colocados, que é a das energias alternativas.
Existem outras áreas, como as telecomunicações, onde as empresas portuguesas também estão no pelotão da frente a nível mundial.
Nem tudo é assim tão mau.
José Fernandes
Nem eu disse que é tudo mau, meu caro. Limitei-me a corroborar que «Portugal precisa urgentemente de produzir mais e de exportar muito mais» e não está à vista que o consiga. Nem está à vista termos políticos e dirigentes da coisa pública com capacidade para entender e pôr a mexer aquilo que é necessário.
João: Boa síntese a deste teu post, o qual, além das oportuníssimas reflexões sobre este autêntico e quase imperceptível “imprevisto”, também nos faz rir pelo seu final. Na verdade, é incrível que Sócrates e os seus sequazes, se apressem a embandeirar em arco com este 0,3% de aumento do PIB, que ninguém sabe muito bem de onde veio, nem como. Aliás, para nós, como muito bem referiu o Dr. Silva Lopes, seria muito mais importante que este pelotão (pelos vistos liderado pela França e Alemanha) integrasse essencialmente a Espanha, país ao qual a nossa economia vive praticamente colado, mas isso infelizmente não acontece. Mas pelos vistos, para Sócrates & Companhia, isso não tem qualquer relevância. O que é preciso mesmo é embandeirar em arco e fazer de conta que este último prémio do totoloto é um autêntico jackpot e que tudo aconteceu por obra e graça deste ‘magnífico governo’. Campanha eleitoral, a quanto obrigas!…
Francamente, já estou sem paciência nenhuma para os aturar e ainda a procissão vai no adro. E, pior, não se prevê que faça meia-volta-volver.
Um abraço.
Não se prevê algo que seja útil ou aproveitável, Luís.
Abraços.
I Parte (Ainda é cedo para festejar)
Ainda é cedo para festejar
o fim da violenta borrasca,
com a economia a latejar
e parte do povo à rasca!
A euforia estrepitosa
com tanta instabilidade,
tornará espaventosa
a supérflua imbecilidade.
II Parte (Chamar os bois pelos nomes)
Com contas empobrecidas
e um regime degradante,
políticas desvanecidas
têm um fim trucidante.
Em negócios reprováveis
esbanjam-se muitos milhões,
os políticos nada louváveis
massacram os mexilhões.
Contas empobrecidas, País empobrecido, gente empobrecida…
Excelente reflexão, compadre. Ver um governo que dispôs de maioria absoluta e das melhores condições políticas de sempre, em 33 anos de democracia, embandeirar em arco com um crescimento de 0,3% do produto interno bruto, no final de uma legislatura em que tinha prometido um crescimento anual de 3%, diz tudo sobre o fracasso de Sócrates. Por esse motivo estarei particularmente atento ao que os programas dos partidos concorrentes às legislativas propuserem em matéria de economia em geral e combate ao desemprego em particular. Nada há tão prioritário nos tempos que correm.
Na verdade, o crescimento de 0,3% pode ser produto interno. Mas nada tem de bruto, convenhamos.
Tens razão: não é bruto. É fino. Fininho.
“um governo que dispôs de maioria absoluta e das melhores condições políticas de sempre, em 33 anos de democracia“…exceptuando o leve abalozito de terra mundial, claro…
Estará agora em balanço uma legislatura que durou quatro anos e meio. A maior legislatura de há décadas. A crise internacional – cujos efeitos em Portugal foram, aliás, negados até ao limite pelo PM – só ocorreu há um ano. O balanço negativo já vinha de trás. Aliás, Sócrates só admitiu que o País estava em recessão em Janeiro deste ano, durante uma patética entrevista à SIC N.
Lamento, Odete. Mas eu tenho memória. E os eleitores portugueses certamente também terão.