O que pensei enquanto fazia o presépio


Luís Naves,

O que se passa em Gaza e na Cisjordânia é uma vergonha para o mundo civilizado e tem de parar. As atrocidades são dos dois lados, mas o Ocidente só está a armar um deles. Bombardeados sem piedade, os civis não têm para onde fugir, presos num território que vai da Amadora a Odivelas, onde não há comida, água ou energia. Diariamente, morrem centenas de crianças inocentes, mas os nossos líderes (sempre preocupados com os valores europeus) continuam num silêncio cúmplice e vão celebrar com devoção o Natal do menino Jesus que nasceu em Belém, o mesmo sítio onde se passam coisas dramáticas que envergonham a nossa humanidade. Podemos dizer que tudo isto remonta ao mandato britânico (em 1929, havia na Palestina 150 mil judeus e 600 mil árabes, a imigração em massa de judeus perseguidos na Europa começava a criar um clima de tensão), podemos ir a 1948 (Estado de Israel e a calamidade árabe) ou a 1967 e a outras datas, mas não convém recuar muito, pois percebemos que os alvos de hoje nos túneis de Gaza são descendentes dos habitantes daquele território há dois mil anos, vizinhos e contemporâneos do menino que nasceu em Belém, embora as sucessivas gerações tenham mudado muitas vezes de língua e de religião. A história recente foi de luta pela sobrevivência de Israel, de triunfo e supremacia regional, mas assistimos hoje, neste momento, a uma guerra que inclui a vingança e a aparente intenção de expulsar dois milhões de palestinianos (rumo talvez à Europa), perante o silêncio dos nossos próprios líderes. Estes, certamente, lamentam a morte de famílias inteiras e a destruição de bairros inteiros com as pessoas lá dentro, afinal não são bárbaros, mas não parecem querer fazer alguma coisa contra isso.

8 comentários em “O que pensei enquanto fazia o presépio”

  1. os alvos de hoje nos túneis de Gaza são descendentes dos habitantes daquele território há dois mil anos

    Não tenho essa certeza. O Islão começa apenas no século 6⁰ e os Filisteus já tinham sido há muito escravizados e absorvidos pelo Egipto. Os “palestinianos” não existem sequer como etnia, e os muçulmanos só se deslocam de forma permanente para a Palestina durante o domínio otomano.

    O outro aspecto é que enquanto houver esta (má) ideia de 2 estados dentro do território da Judeia clássica, o problema não vai ter solução.

    A meu ver, se há alguém que não tem direito a estar na Judeia, não são, com certeza, os judeus.

    1. Discordo deste comentário. Todos têm direito de viver em paz e segurança. Ao longo da história houve ocupações, migrações e mudanças de língua ou religião. A Palestina foi judia, cristã, muçulmana. No início do século XX, sob domínio otomano, a população era essencialmente de língua árabe e quase exclusivamente muçulmana. Os judeus e cristãos pertenciam a minorias. Eram obviamente descendentes de quem ali vivera no tempo de Cristo. Isso mudou durante o mandato britânico, com a migração de judeus europeus, incluindo sobreviventes do Holocausto. Em 1948, centenas de milhares de palestinianos muçulmanos foram expulsos ou fugiram. A proporção inverteu-se. Este é o grande problema do conflito: todos têm direito a viver ali, uns porque os avós emigraram, outros por serem descendentes de populações com raízes de séculos. Não há solução e esta guerra está a inviabilizar de vez o cenário de dois Estados. O post apenas pretende sublinhar que a história não justifica a violência dos ataques terroristas e dos bombardeamentos sistemáticos. Não podemos tolerar o massacre e apoiar os planos de limpeza étnica de um Governo israelita que está a piorar o problema fundamental do seu próprio país.

      1. Pois, aí é que está. É que a “Palestina”, a coisa em si, é uma geografia cristã e judaica, perpetuada pelo ocidente — nunca foi muçulmana. Foi invadida por Saladin e depois mais tarde pelos turcos e então deixou de ser a Palestina, passou a ser um califado. O islão foi sempre invasor e plantaram mesquitas no espaço das outras duas religiões — que ainda hoje pretendem abolir.

        Podemos lamentá-lo, mas essa ideia de “todos tem direito” ao mesmo sítio, a meu ver, está espelhada no presente.

        O mínimo de paz possível começa quando Israel corresponder à Judeia (sem enclaves) e os muçulmanos passarem para o lado direito do rio Jordão, ou ficarem no norte encostados ao Líbano ou à Jordânia — como no projecto original que agradou a israelitas e aos árabes. A cultura da ONU, da negociação, da divisão, dos enclaves só gera problemas que passados 20 ou 30 anos explodem com muito mais força e fúria do que no momento em que isso parecia uma boa ideia. Tem sido assim, pelo menos. Além de que acresce o facto de que Gaza como território não é sustentável e estará sempre dependente de fora e por isso, permeável ao pior.

        Por que não tentar um arranjo diferente? (e desta vez sem os franceses a meter a colher.)

  2. Quem escreveu isto simplesmente odeia Israel.

    Usando os argumentos do autor aliás deveríamos estar todos em guerra na Europa e Portugal deveria ter continuado em Guerra em África.
    O autor consegue explicar porque é que os Portugueses não têm direito a Luanda, ou porque é que os portugueses que vieram de África não são chamados refugiados assim como os seus filhos e bastando ter vivido 2 anos em África?
    Ou os Italianos da Istria e da Dalmacia?
    Israel nunca deveria ter deixado de ocupar Gaza porque só desnazificando os Palestinianos haverá paz. Tal como a Alemanha não deixou de ser ocupada até ser desnazificada.

    Para mostrar ainda mais o bias do autor, não fala do massacre de 1929 ou da formação da Jordânia com uma tribo que veio da Arábia ocupar parte da Palestina.

    1. Concordo consigo, embora não considere certo mas apenas possível que seja o ódio a Israel o que motiva o autor do “post”.
      Mas de facto, quando o autor diz ser a actuação de Israel que está a inviabilizar a solução de dois estados, erra de de duas formas. Erra historicamente porque a solução de dois estados foi já quatro vezes rejeitada pelos árabes, a primeira em 1936, por proposta inglesa que lhes atribuía 85% da área, incluindo a zona mais rica. E erra factualmente pois essa solução foi inviabilizada em 11 de Setembro de 2001. Desde essa data que os israelitas ficaram a saber que nunca poderiam permitir, fora do seu controlo, um aeroporto internacional na Cisjordânia ou um porto em Gaza.

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