O que pensam os alemães


Luís Naves,

Descontando a inaturável condescendência no tom, este artigo da revista Der Spiegel (em inglês) permite compreender a visão dos governantes alemães em relação ao futuro da Europa depois do Brexit. O autor do texto, Christoph Schult, considera que a saída do Reino Unido apresenta oportunidades para os restantes parceiros e também acredita que haverá “más notícias vindas do Reino Unido”, permitindo acabar com qualquer possível efeito dominó de saídas. Em resumo: não se espere benevolência no divórcio.

Segundo esta visão alemã, o Reino Unido deixa de poder bloquear avanços de integração económica, o que levará a zona euro a um “governo económico”, com um “ministro das Finanças” capaz de controlar “um orçamento independente”. Não percebo a que se refere o autor nesta palavra ‘independente’, mas a ideia de haver cada vez maior controlo sobre os orçamentos nacionais explica a mudança que ocorreu nas últimas semanas em relação às sanções. É provável que os dirigentes europeus decidam agora aplicar os Tratados em todo o seu esplendor, sendo esta uma possível consequência imediata do Brexit. Portugal e Espanha são os países em procedimento por défice excessivo que não conseguiram corrigir os desvios orçamentais, são também os primeiros a cair sob a alçada do maior rigor. A ideia está explícita neste artigo de El País (repare-se na citação entre aspas do comissário português Carlos Moedas, que não encontrei na nossa imprensa; e complete-se a leitura com este texto, que também explica o mecanismo e actualiza a informação).

Regressando a Der Spiegel, é curioso o que se escreve sobre os avanços da integração em política externa e de segurança: quartel-general unificado para missões militares da UE, decisões por maioria na política externa, uma verdadeira força de controlo das fronteiras, além de política comum de asilo, insinua-se também a possibilidade de criar mais sistemas de cooperação reforçada.

Sem o Reino Unido, o equilíbrio de poder muda na União Europeia. A Alemanha vive obcecada com o medo do seu isolamento e tudo fará para reforçar a ligação a França, Itália e Polónia, as três potências com quem tem maior proximidade geográfica e ligações económicas. Não será tarefa fácil: é preciso que Marine Le Pen não vença as presidenciais francesas da Primavera, que o sistema financeiro italiano não entre em colapso e que o grupo de Visegrad liderado pela Polónia modere a sua rebelião em relação ao que fazer na crise migratória. O próximo ano será frenético: Berlim tentará juntar as alianças de que não prescinde, será dura no divórcio com os ingleses e vai acelerar a reparação da zona euro, onde perdem o lugar todos os países que se recusem a cumprir as regras do clube.

0 comentários em “O que pensam os alemães”

  1. Sim, a resposta óbvia ao Brexit:

    “Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der Welt”, usually translated into English as “Germany, Germany above all else, above all else in the WORLD, politicamente, imagina-se, visto que no futebol ….

    Será um qualquer Portugal politicamente miscível com esta Deutschland (ou qualquer outra) à temperatura, pressão e composição previsíveis?.

    Á força?. Por quanto tempo?.

    1. Existe uma alternativa: podemos perfeitamente recusar os fundos comunitários e os resgates, podemos ficar cá no nosso canto, embrulhadinhos na bandeira nacional, orgulhosamente sós, a sacudir as salazarentas teias de aranha do nosso orgulho, metidos no nosso melancólico atraso…

      1. Isso é tudo muito bonito de se dizer, mas o grande erro entra na subsídio dependência que foi a aposta da Alemanha e de outros que eram fortes para criar os países mais pobres dependentes, por isso este tipo d política merece mesmo um bater de porta aos subsídios, mas as pessoas hoje em dia acham que bens de primeira necessidade são net TV e shopping o comer esta em último plano…. enquanto não se mudar mentalidades e prioridades não saímos daquilo que os alemães andam a pagar…. a subsídio dependência…
        Passem em cryptoescudo pt e vejam se podemos ou não ter alternativa com uma segunda moeda a circular….basta haver clareza e o querer

      2. E então, devemos ser uma carneirada que aceita tudo o que vem de Berlim e Bruxelas, só porque recebemos fundos comunitários? Agora parece que existe uma “infalibilidade” germânica, para alguns. Pois tudo o que descreveu no seu post é medonho. Essa Europa fede…

    1. Esta é outra conversa onde falta sensatez: a França é contribuinte líquido para os cofres comunitários, Portugal recebe mais do que paga. Há uma diferença de partida entre os dois. Era um bocadinho estúpido impor a um país que paga as contas sanções que incluem redução de fundos comunitários, isto havendo uma decisão que adiou o cumprimento das metas após os atentados de Paris e a ofensiva militar contra o estado Islâmico. Portanto, a França, que nos protege de perigos externos e foi atingida em cheio pelo terrorismo, devia ser penalizada por gastar mais na nossa defesa e por ser um contribuinte líquido (o dinheiro sai do orçamento), para mais vendo no processo a sua contribuição aumentar. Tente lá explicar isto aos eleitores, que talvez eles compreendam melhor o que diz a senhora Le Pen.

      1. a França é contribuinte líquido para os cofres comunitários

        Não tem nada que ver uma coisa com a outra. As sanções são por défice excessivo nas contas do Estado. Nada têm a ver com ser-se contribuinte líquido ou não da União Europeia. A obrigação de ter um défice inferior a 3% vale para todos os países da Zona Euro, quer sejam contribuintes líquidos para a UE ou não.

        a França, que nos protege de perigos externos e foi atingida em cheio pelo terrorismo

        Não há nada nas regras sobre défice e dívida que diga que eles passam a ser legítimos se forem para pagar segurança e defesa. Quer sejam para pagar militares ou para pagar médicos, os défices excessivos são proibidos.

  2. Até agora não houve Brexit nenhum, e não se sabe se nem quando haverá. Anda toda a gente a falar do Brexit como se fosse uma realidade prestes a consumar-se (ou já mesmo consumada), mas não é nada claro se nem quando tal coisa terá lugar.

    Até ao Brexit, muitíssima água irá correr debaixo das pontes.

    1. Talvez tenha razão, mas o facto é que muitos europeus querem uma clarificação da situação e já estarão a tratar da estratégia de saída. O Reino Unido terá de escolher muito em breve se o seu parlamento concretiza o voto popular ou se, pelo contrário, o ignora. Tratando-se de uma democracia, suspeito que vence o voto popular. A nova chefe de Governo britânico vai certamente accionar a cláusula de saída logo nas primeiras semanas de assumir o poder.

      1. Provavelmente você tem razão, mas não convem contar com a pele do urso antes de o ter caçado. O facto é que o Reino Unido tem todo o interesse em retardar o mais possível a invocação do artigo 50º e, enquanto ele não o invocar, os outros países da União nada podem fazer para o expulsar nem têm qualquer legitimidade para fazer como se ele não fosse membro de pleno direito da União.
        Portanto, pelo menos até o Reino Unido invocar o artigo 50º, é melhor não contar demasiado com o Brexit. Pode perfeitamente nunca ocorrer.

  3. Está na hora de sairmos também e acabar de vez com o socialismo e o estatismo central e local que paralisa o País. Re-equipar o País com infra-estruturas agrícolas e industriais e dirigir a inovação e investigação para desenvolvimentos nestas duas áreas e também turismo. Promover a transição de funcionários públicos para micro-empresas que assegurem os mesmos serviços (aí se verá se são necessários ou não). Nós conseguimos viver bem sozinhos se traçarmos um plano decente e justo para nós próprios e para as próximas gerações: para isso temos é de nos livrar de bloquistas e socialistas (republicanos em geral) que são os responsáveis pelo nosso atraso económico e pela nossa dependência de subsídios europeus. São também responsáveis por termos a bandeira mais feia da Europa o que só por si era motivo para os deportar para Mercúrio.

  4. Confunde um “editorial” do “Der Spiegel” com linha de compreensão da “visão dos governantes alemães”… Ora, o “Der Spiegel” – assumidamente de centro-esquerda – não é, nunca foi, e gosto de pensar que nunca será uma especie de “Expresso/Publico/DN” em tempos de canhotos, ou antes mal-destros, governos ou incubadas geringonças. Alias, o proprio editorialista assume tal condição ‘out-of-the-box’ ao referir que a propria revista onde escreve assumiu uma clara e predominante preferência pelo “Remain”.
    Sobre a “visão”, é ler o que disse a Sra. Merkel – e ver o contraste no tom e conteudo com a aleivosidades de Juncker ou de outros decantados desde dessa altura turvados por demasiado “Schadenfreude” e que ao ouvirem Wagner isso necessariamente dá ‘ganas’ de invadir a Polónia…..

  5. Os alemães têm muito medo de uma Alemanha isolada, porque sabem bem do impacto que isso teria na sua economia. Em menos de 24 horas do resultado do Brexit e já os “mercados” (viva a especulação) de carros e outros ressentiam a reacção do Reino Unido.

  6. Até parece que os Alemães estão unidos no que querem…
    A fragmentação é a condição e tendência normal quando o complexo político-jornalista democrático se tornou tão poderoso como tão incompetente.

    E a existência da internet – algo talvez só comparável ao começo da impressão de Gutenberg e ao aparecimento da rádio e TV(embora estas duas ultimas não tenham o descentrar das duas primeiras)- não vai deixar ficar nada como está.

    Não sei como se pode prever o que quer que seja a 1 anos sequer, quanto mais a 5. Alguém há 5 anos previa sucessivos massacres Islâmicos na Europa, Estado Islâmico, Brexit, geringonça, etc?

  7. A sociedade é mutável, as novas ideologias, as vontades…tudo é mutável , o que era hoje , amanhã deixa de o ser.
    Estes são desafios importantes, o Brexit é um teste à sociedade (des)unificador da união.
    Se le pen ganhar, que ganhe, o povo francês tem vontade própria, embora os média tentem influenciar o POVO, nem sempre o POVO se deixa influenciar…veja-se o Brexit.
    A mudança é importante, seja má ou seja boa…o importante é quebrar o status quo, independentemente dos danos colaterais. Se os Países periféricos iram sentir dificuldades, sim, mas faz parte do “jogo” da vida.
    “O próximo ano será frenético”, e então, que seja.

  8. Fico com a sensação que a malta ainda não compreendeu que a historieta das sanções, que não serão aplicadas, só estão aí para camuflar o inépcia das instituições europeias e dos governos europeus e fazer pressão sobre o que não conseguiram obter de Portugal no Orçamento aprovado e dizer a Espanha para não fazer o mesmo.
    À falta de rigor em delinear uma estratégia política e económica que se mostrasse verdadeiramente eficaz em eliminar as raízes ou as causas que originaram o excesso de endividamento, que resultou do excesso de liquidez e da desregulação dos mecanismos financeiros, que funcionavam como casa de apostas e também como emitentes de títulos de lotaria, associada à mesa de casino onde girava a roleta cuja bola caía sempre na casa do sector que produzia o jogo, beneficiando-o sempre quer existissem bons ou maus resultados, encontramos agora um discurso demente fazendo parecer que o rigor que nunca existiu e a inépcia que já referi se traduz na aplicação de sanções a Portugal e Espanha, que nunca existirão.

    A Europa e a Alemanha de Schauble/Merkel, juntamente com Durão Barroso, que acredita que o compromisso é uma decisão unilateral, isto é, o que resulta de suas vazias ideias, vêm revelar-nos que o Brexit resulta da emergência de alguém na política britânica que agindo de igual modo criou em tudo um nó semelhante àquele que os actuais líderes da dita União não são capaz de desatar. E depois o Brexit nunca será exit.

    Portanto, a única solução possível constatar-se-á através da desordem que aí virá, para que do caos surja a nova criação e a renovação da merdice de criaturas que temos vindo a observar nas passerelles europeias. Há já alguns anos verifico que os figurinos desta montra andam todos vestidos de cretinice, ainda que, para pretender fingir alguma diferença, apresentem supostamente umas corzitas diferentes. A única dúvida que se me vai esbatendo é a de que cada vez mais me convenço que esta moda existe porque a natureza do consumidor se revê nela.

  9. Realço, com alguma mágoa, que partidos, tudologos e analistas convivem mal com as regras e com a natural,obrigatória e lógica de que deve ser censurado e assumir as consequências os relapsos.
    Povos que têm uma visão diferente, estão todos mais prósperos, bem governados e nós estamos…. será que isto está mesmo tudo ligado ?

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