O que o espetador deteta


Pedro Correia,

“Os principais detra[c]tores do Acordo Ortográfico acham-se tipicamente entre as fileiras da direita conservadora portuguesa”, proclama esta luminária, cuja sabedoria política se encontra ao nível dos seus rudimentares conhecimentos etimológicos. Ficamos assim a saber que Manuel Alegre é da direita conservadora. E Baptista-Bastos também. E Mário de Carvalho. E José Gil. E Ricardo Pais. Já sem falar na Inês Pedrosa. Ou no José Jorge Letria. Ou no Ricardo Araújo Pereira. Ou até nesse reaCCionário chamado António Lobo Antunes. Sem esquecer José Barata-Moura, ex-reitor da Universidade de Lisboa e ilustre militante do PCP. O próprio Avante!, órgão central do Partido Comunista, “acha-se tipicamente entre as fileiras da direita conservadora portuguesa” ao recusar imprimir textos em acordês…

Muitas novidades deteta este ativo apoiante do acordo cá adotado, discípulo dileto dos grandes exterminadores de consoantes mudas e espetador atento do desconcerto do mundo, cada vez com pior aspeto.

24 comentários em “O que o espetador deteta”

  1. Já dizia John Lyly: “The rules of fair play do not apply in love and war.“

    …ainda que, neste caso, apenas sirva para desvirtuar opiniões e decisões alheias através de comentários falaciosos.

    1. Tem mais sorte o John Lyly do que o nosso Camões, seu contemporâneo. Porque a língua inglesa, passados tantos séculos, ainda não derivou para nenhum acordês, ao contrário do que sucedeu com o nosso infeliz idioma.

      “E da casa marítima secreta
      Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo,
      Quando as infidas gentes se chegaram
      Às naus, que pouco havia que ancoraram.”
      (canto II)

      O Deus Nocturno agora é o Deus Noturno…

      1. Como foi publicado em 1572, na verdade:

        “E da caſa maritima ſecreta
        Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrindo
        Quando as infidas gentes ſe chegàrão
        Aas naos, que pouco auia que ancoràrão.”

        Ou seja, muito mudou, apesar do apego ao cê atualmente não pronunciado. Defenda-se o “português de Camões”, tudo bem, mas que seja defendido integralmente…

        Duvido que o comentário apareça, já que a fracassada cruzada do Pedro Correia contra o Acordo alimenta-se da ignorância alheia e da xenofobia.

        1. A sua dúvida não tem qualquer razão de ser num blogue que – ao contrário de tantos outros, aferrolhados a sete chaves, com medo de eventuais ‘correntes de ar’ – sempre esteve aberto aos comentários de todo o género, elogiosos ou críticos.
          O rótulo de “xenofobia”, que me passa totalmente ao lado, costuma ser usado por quem não tem nada de substancial a servir de argumento. Julgo ser o seu caso.
          Quanto à ignorância: creio ter deixado suficientemente demonstrado que ignorante foi quem escreveu que os opositores ao AO “acham-se tipicamente entre as fileiras da direita conservadora portuguesa”.

  2. Mira, si, la questõ galega parexe q foy olbidada…
    e o que esse author sugere non he matar consoante, & sim ressuscitar las perdidas. Axo bem.
    Pero creo, que há um equívoco de “uma sorte” ser “uma forma” entre nosotros.

    1. Que inveja, ver um país a funcionar com sensatez!
      Sensatez que não exclui a furia española: seria interessante ver a reacção de Espanha a um Bechara (coisa muito complicada, já que a má-criação dele e congéneres é difícil de emular).

  3. É um belo exemplo do esplendor terceiro-mundista da miséria intelectual.
    Exemplo, também, de uma campanha que, ao serviço do agressivo nacionalismo brasileiro, elegeu a má fé como uma das suas armas.
    Poderia acontecer que a direita conservadora portuguesa fosse anti-acordo. Deveria sê-lo, aliás. Mas não é: no site português da Ordem de Malta (a que pertence o actual secretário de estado da cultura) escreve-se convictamente em acordês.
    Na sua lista falta o comunista Prof. Doutor José Barata-Moura que ainda há poucos dias criticava o “acordo” em termos inequívocos, espantando-se com a estupidez da coisa.
    Em artigo de hoje, a Prof. Doutora Maria Alzira Seixo falava do negação de democracia que é este processo e imposição do acordo.
    Deveríamos todos perceber que as sociedades secretas (e membros delas em altos postos governamentais, como é o caso de Relvas) podem ser extraordinariamente nocivas para a democracia.

    1. Agradeço-lhe ter trazido aqui o professor Barata-Moura, que muito prezo. Desconhecia essa posição dele, embora não me espante. Vou acrescentar no texto, com licença sua.

    2. Não limite a «direita conservadora portuguesa» à Ordem de Malta. Eu sou português, de direita, conservador, e contra o AO90 só me falta andar à pancada e pegar em armas (já estive mais longe disso).

  4. Espero que não lhe tenha escapado que o autor do texto é brasileiro. “Em base a” é um erro que não se dá em Portugal. “Com base em” seria a frase correcta.

  5. Peço desculpa pelo atraso da pergunta: mas alguém é capaz de me explicar rapidamente quem é a favor deste aborto. Ou, por outras palavras, cui bono?

  6. O autor do artigo é um burro. Um burro galego, se me permitem o pleonasmo.

    Para além de ser burro, como é galego, nunca foi alfabetizado em português, mas apenas em castelhano (flagrante castelhanismo este que é bom português deveria ser “castelão”, da mesma maneira que castelhanismo deveria ser “castelanismo” e cavalheiro deveria ser “cavaleiro”, etc, que é precisamente como falam na Galiza).

    Porém, na verdade nem escreve em português nem tenciona fazê-lo. Escreve em galego (com inúmeras interferências do espanhol), com a ortografia do AO.

    Do resto, apenas lembrar-lhe à mouraria leitora deste blogue que, se o cavaleiro galego Afonso Henriques não tiver conquistado Lisboa e lhes imposto às suas gentes a sua língua galega, a sua cultura galega e a sua religião cristã, hoje não estaríamos a ter este debate porque os senhores e senhoras que aqui dão mostras de desprezar quanto ignoram estariam a falar algum dialeto árabe e se calhar também algum dialeto mozárabe.

    الله أكبر

  7. Já estive lá a dar na “luminária” …ou na Alimária ? 🙂 isto , é claro , sem insultos aos animais , de que muito gosto .

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