Não há nada tão determinante num livro como as primeiras linhas ou as primeiras páginas. Em tempo de esbulho e saque e com o inevitável ajustamento das minhas finanças o exercício que faço para me decidir se o livro é merecedor dos euros sobejantes é o de ler o primeiro parágrafo. Quando pedi o livro emprestado o aviso foi peremptório Essas primeiras cenas são horríveis. E eram. E são. Escritas com um enorme realismo e sem pudores bacocos oscilamos entre parar ali ou ultrapassar aqueles primeiros horrores para acompanhar Jorge. Resolvi acompanhá-lo. Até agora não me arrependi. Um bocado ensimesmado, é verdade, aquele tal episódio declarou-lhe uma existência reservada e sofrida, feita de silêncios grandes no casarão algures lá para os Algarves onde habita com as Manas, suas fiéis zeladoras e das lides domésticas e outras da mansão, Samuel, e D. Rosa. Quando um dia, Sarah, uma escritora excêntrica aventureira e a viver no limite, se muda lá para casa, tudo muda. E muda ainda mais quando surge em cena Biafra, ávido por uma chantagem. E quando mais personagens se juntam para adensar a trama. E mais não digo.
Depois da desilusão de Mazagran e da paixão imediata e irrevogável – boa palavra – por A Amante Holandesa, este Mentiras & Diamantes de José Rentes de Carvalho tem um ritmo alucinante, uma deambular incessante entre mundos, palavras sem rodeios, e personagens fortes que não conseguimos esquecer. Lê-se com prazer. Cavalgam-se páginas para saber mais. Nesta minha nova condição de comprar livros de seis em seis meses, um Rentes de Carvalho será merecedor dos parcos euros. Só posso recomendar.
E agora passo a leitura ao Luís Menezes Leitão. Que andará ele a ler?


Não conheço, mas confio no teu critério. Fica na minha lista. Irrevogável.
Vais gostar. Não gostei do Mazagran mas é uma colectânea de textos sobre vários assuntos. A Amante Holandesa li num dia, eu que sou uma leitora lenta.
Sinal inequívoco de que é bom. Eu confesso a minha ignorância: nunca li nada deste autor. Excepto alguns textos que publica no blogue.
Então, uma sugestão: antes ainda de ler o, sem dúvida excelente, A Amante Holandesa, leia Ernestina. Foi a minha primeira leitura de Rentes de Carvalho. É uma obra absolutamente poderosa e que para sempre redimiria o autor, ainda que depois dela tudo o que dele fosse lido desapontasse.
E não é o caso. Ainda não li Mazagran , mas A Amante Holandesa, Tempo Contado (sim, coincide com o nome do blogue), Com os Holandeses, La Coca, O Rebate, foram livros em que dei por muitíssimo bem aplicado cada minuto de sua leitura. Por estes dias acompanham-me Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, colectânea de breves contos.
Rentes de Carvalho será um dos autores a continuar Os Maias, a convite do Expresso. Assusta-me isso. Obras de génio devem ficar onde o seu autor as entendeu deixar. Pretender continuá-las será um potencial desastre, uma aventura de aprendiz de feiticeiro.
Não o tenho, a Rentes de Carvalho, na conta de um desses novos escritores famosos, tão cheios de si quanto vácuos. Que imponha ao Expresso o uso da ortografia portuguesa de boa lei, aquela anterior à aberração ortográfica que para aí grassa como peste.
Costa
Vou anotar a sua sugestão, obrigada. Comecei pelo Com os holandeses, terei até escrito um post sobre o livro, e gostei imenso do estilo directo e sem rodriguinhos de Rentes de Carvalho, sem cair nunca na vulgaridade ou no insulto.
O Mazagran foi um daqueles em que chorei o dinheiro mal gasto. Não que seja mau mas a compilação de historietas não foi bem conseguida a meu ver, já que não adianta em nada a tudo o que foi escrito antes. Tenho aqui também O Rebate mas vai ficar para depois.
Ainda não me decidi sobre essa ideia de continuar Os Maias. Por um lado, compreendo o desafio mas tenho as minhas dúvidas. Vamos ver.
Quanto ao Rentes de Carvalho, também o tenho em boa conta. A literatura está sujeita às mudanças sociais, assim sendo, padece em alguns casos do imediatismo bacoco. Pergunto-me muitas vezes onde andam os escritores que escreviam pelo prazer/necessidade de o fazer, longe da ribalta e desligados desta maluqueira da imagem e do nome. Não seriam mais autênticos?
Também anotei a sugestão do nosso leitor Costa, em quem confio. Em relação à recriação de ‘Os Maias’, tenho também as maiores dúvidas. Nada tenho contra o pastiche em literatura, mas preferia que alguns desses autores empregassem as suas energias em criar coisas novas pois têm talento para isso. De outros, pelo contrário, nada há a esperar em matéria de criatividade por serem incapazes disso. O pastiche é o mais longe a que chegam. Não traz nenhum mal ao mundo, mas eu passo longe. Bem longe.
Leonor, Li todos os livros de Rentes de Carvalho agora publicados pela Quetzal, e curiosamente gostei imenso do Mazagran. A par de Ernestina, e Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, são os meus preferidos. A leitura de Esnestina é mesmo obrigatória, por assim dizer… Esperemos que cheguem tempos em que não tenham que se contar euros para comprar livros… embora não veja como… Este, Mentiras & Diamantes tive a sorte de o receber na caixa do correio enviado por um bom amigo… Beijo, André.
É verdade, André, estranhos tempos em que comprar um simples livro se torna um luxo, estranhos e lamentáveis. Tenho mesmo de ler o Ernestina.
Obrigada pela visita
Sou apreciador entusiasta e entusiasmado da obra de Rentes de Carvalho. Este ainda não li, embora já o tenha. Também eu adorei A Amante Holandesa. História, ritmo, diálogos — de mestre.
Muito bom. Foi uma descoberta muito gratificante.
Escreve exactamente o que senti quando comecei este livro.
Já acabei, Filomena. Estava à espera de melhor mas continua a ser um livro muito bom.