O que estou a ler (6): Uma Vida Francesa, de Jean-Paul Dubois


lauraramos,

E se alguém, com pena desempoeirada e solta, olhar de lince e poucas proclamações, escrevesse um romance na primeira pessoa, retratando o quotidiano social português dos últimos 50 anos segundo uma engenharia capitular coincidente com os mandatos dos Presidentes da República?

Original, no mínimo. Apetecível. Tremendamente conforme à cabeça de um cidadão europeu do século XX.

Pois não é sobre nós… e sim sobre Uma Vida Francesa que esta diacronia se desenvolve, pela mão de Jean-Paul Dubois (sociólogo, jornalista do Nouvel Obs, escritor) levando-nos a percorrer, nesta obra ampla mas muito ágil, um lapso de cinco décadas marcantes para a sociedade francesa, arrumando a história da família, do país e do mundo nos marcos temporais dos consulados de De Gaulle (que habita o seu televisor Grandin…), e depois de Pompidou, Giscard e Chirac, retratando uma França tolhida pelo seu lastro histórico e ávida de todos os dias seguintes eleitorais. É aliás com muita pena minha que este livro, datado de 2005, não chega ao mandato psicótico seguinte, o de Sarkozy… simplesmente porque a escrita de Dubois é uma escrita que (com)promete e que me agrada particularmente: escorreita e franca, sem tentações clássicas, pouco dada a preconizações ou exibições de estilo, deixando-nos o prazer de colher as coisas grandes que, discretamente, nos vai dizendo por entre a narrativa.

A obra corre os dias de Paul Blick, o narrador, filho mais novo de um casal da média burguesia de Toulouse (e Espanha ali tão perto), amarfanhado e veladamente disfuncional desde a morte do irmão mais velho de Paul, cuja figura tutelar o acompanhará para sempre, vida fora. A narrativa começa precisamente assim, com a notícia da morte de Vincent, que Paul via como «um rapaz escultural, destinado a construir os alicerces de um novo mundo», no momento em que assiste ao fatídico telefonema do fundo do corredor, com 8 anos, já ciente da margem de clemência que o tempo ainda lhe concede até ser admitido, pelos adultos, ao vórtice da tragédia.
Paul, fruto daquele instinto profundo de sobrevivência prática tão cru nas crianças, corre antes de mais ao quarto do irmão para se apoderar do  brinquedo icónico que sempre lhe invejara: um coche de metal cromado puxado por seis cavalos brancos.

E assim vai crescendo o livro: através dos desencontros com o pai (vendedor de Simcas, «republicano, sem dúvida, mas concessionário em primeiro lugar»!), e depois através dos dias da adolescência, dos primeiros amores, do casamento, do nascimento dos filhos e, por fim, do divórcio, cruzando sempre, com um humor finíssimo, os grandes acontecimentos –  a morte de Franco, de Che Guevara, ou o Maio de 68 – com os simples jantares de família, a mediocridade do dia-a-dia, a usura do tempo, o labirinto sofrido ou glorioso das relações entre as pessoas, esse terrível exercício eternamente mal resolvido da condição humana.

Jean-Paul Dubois é mestre no retrato da sociedade e da cidadania política (enquanto estatuto imperfeito e paradoxal) e, neste livro em particular, caracteriza um período fascinante para qualquer pessoa da minha geração:

«A tomada de consciência política era ainda incipiente, mas estava em formação uma geração que já não queria que lhe cortassem o cabelo à escovinha, nem que lhe traçassem a vida a régua e esquadro ou a arrastassem para a missa (…), ansiosa por marcar distância em relação aos deuses e antigos mestres».

– Quem não se vê um pouco ao espelho nestas palavras?

Ou ainda nestas, sobre o Maio de 68, de que todos somos tributários enquanto membros de uma geração a cem mil léguas da precedente:

«Nunca houve, com certeza, na História, uma ruptura tão violenta, brutal e profunda no continuum de uma época. 1968 foi uma viagem intergaláctica, uma epopeia bem mais radical do que a modesta conquista espacial americana que ambicionava simplesmente dominar a Lua».

Não percam este, ou mesmo outro livro, de um autor a quem injustamente chamaram (certamente a  frase é de algum fresco trintão…) um cínico tranquilo.

– E tu, Leonor, o que andas a ler?

Uma Vida Francesa, Jean-Paul Dubois

1ª edição, Outubro de 2005

ASA Editores


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