Debate José Pedro Aguiar-Branco – Pedro Passos Coelho
Foi o mais insonso dos debates televisivos pré-congresso, o que não admira: Pedro Passos Coelho e José Pedro Aguiar-Branco só têm a perder por ausência de um verdadeiro antagonista. O frente-a-frente desta noite, na SIC Notícias, não chegou a ser confronto, contrastando com os debates travados anteriormente entre cada um deles e Paulo Rangel. O que também me leva a concluir que não saiu daqui um vencedor tão evidente como nos outros debates, embora Passos se tenha destacado perante alguma falta de empenho do seu antagonista na corrida à liderança do PSD. Quase como se Aguiar Branco já se imaginasse no papel de presidente do grupo parlamentar de um partido liderado por Passos Coelho.
O ex-dirigente máximo da JSD continua a esgrimir habilmente, a seu favor, com o facto de ter sido inapelavelmente afastado das listas eleitorais sociais-democratas pela direcção cessante do partido, da qual Aguiar-Branco ainda faz parte como vice-presidente. De tal maneira que o advogado portuense se viu forçado a aludir ao "complexo de perseguição" de que Passos Coelho padecerá. Se as coisas se tivessem passado ao contrário, suponho que Aguiar-Branco abordaria o tema tanto ou mais que ele…
Passos teve a vantagem de falar mais claro. Sobre o Orçamento de Estado, por exemplo: "Teria votado contra este Orçamento de Estado, que é mau." Um tema que pareceu incomodar o vice-presidente de Manuela Ferreira Leite, um dos deputados que viabilizaram este instrumento essencial da acção governativa. Mais à defensiva, Aguiar-Branco contra-atacou com as posições dissonantes de Passos sobre o TGV – oportunidade para que este reafirmasse o seu apoio, em tese, ao projecto da alta velocidade ferroviária Lisboa-Madrid como "compromisso estratégico" do Estado português, aliás firmado pelo Governo de Durão Barroso, em que Ferreira Leite era ministra das Finanças. Mas esta é uma questão irrisória no momento actual, em que o próprio Governo – fértil em faltar às promessas feitas – acaba de anunciar o adiamento do projecto.
Ficou-me como mais positivo, da parte de Aguiar-Branco, o apelo à "reabilitação dos valores": no momento actual, nunca é de mais ouvir mensagens destas. Da parte de Passos Coelho, destaco esta declaração: "Não devemos andar com o Governo ao colo. O pior é deixar o País a apodrecer até que o Presidente da República não tenha outra solução que não seja a dissolução [do Parlamento]." Em jeito de réplica ao que Cavaco disse quarta-feira na RTP.
São palavras que convém lembrar daqui a uns tempos. Acreditem que não será preciso esperar muito. Até lá, há que continuar a falar claro.



Aguiar Branco desapontou-me muito face ao outro debate. Parecia que só estava ali para “lixar” o adversário. Soava a ressabiado e tinha qualquer coisa de Santos Silva. Não gostei.
AB esteve claramente mais fraco neste debate, também com um PC a meio-gás.
Curioso, as contradições “estratégicas” de PC no espaço de meses sobre o TGV (antes essencial, agora adiável por três anos e possivelmente até ao dia de S. Nunca) são questões irrisórias. Porquê? Porque o governo também se contradiz e mente com descaramento.
E ainda se menciona valores. Acho que o Pedro Correia deve reflectir sobre este seu post. É também por causa de análises deste tipo de jornalistas e comentadores que o país está como está em termos, precisamente, de “valores”.
Tão irrisório, nesta altura do campeonato, como o facto de MFL ter aceite o TGV enquanto ministra das Finanças para depois o recusar como “líder” do PSD. Sobre isso já escrevi o que tinha a escrever. Acredite que hoje é tema que não dará nem retirará um voto aos sociais-democratas. Por isso o considero irrisório, ao contrário do crescimento económico, dívida pública, PEC, desemprego galopante, etc.
Registo a sua frase: «É também por causa de análises deste tipo de jornalistas e comentadores que o país está como está.» Não pode haver melhor esponja para apagar os erros do Governo. Afinal a culpa é… dos jornalistas. Notável.
Pedro Correia, você e a sua sub-linguagem das fotos… 🙂
Essa não percebi, Chloé. Talvez devido ao adiantado da (minha) hora.
😉 Eu sou sempre muito atenta aos seus posts, o que não tem rigorosamente nada de hostil, antes pelo contrário.
Jamais pensei que tivesse nada de hostil. Mas achei curioso esse seu reparo.
PPC parece-me um pouco irresponsável e imprudente. Então o país ia ficar sem OE? E os mercados internacionais? E as agências de rating? Como ia sobreviver o país? E, caso o governa caisse ou venha a cair, quem garante que o PSD ganharia as Eleições?
Irresponsável, parece-me, é “arrasar” por palavras o OE e depois viabilizá-lo.
Se estivermos atentos, não há qualquer contradição. Feito o manifesto que a honra partidária impõe, e negociada a coisa dentro do perímetro do possível, quem lá chegou pelos votos que se amanhe. Votar contra era oferecer de bandeja ao PM y sus muchachos a desculpa tão desejada de fugirem a sete pés, tal o criador que renega a sua criatura.
Assim, não há cá kalimeros para ninguém…
Eles estão lá por mandato popular, remeber? O povo quis e continua, aliás, a preferi-los.
É a democracia.
Faço notar, Chloé, que os deputados do PS e do CDS somados já formam maioria absoluta na actual legislatura. O que dá ainda mais margem de manobra ao PSD em matérias cruciais como esta. Em princípio, o maior partido da oposição deve chumbar o Orçamento apresentado pelo Governo.