O Professor Sem Medo


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Na ressaca eleitoral, Boaventura Sousa Santos invoca-se húmus teórico do Bloco de Esquerda e sentencia a sua actual coordenadora, numa invectiva que se quer letal pois assumindo-se qual Professor Sem Medo face a uma afinal assim até salazarenta Catarina Martins – esta agora decerto que duplamente dorida, pela derrocada nas urnas e pela tonitruante reprimenda do Founding Father.

Mas o que me é relevante não são as querelas sucessórias ali decorrendo. E sim as interpretações sobre o acontecido. O dr. Ba, aclamado activista avesso ao “apartheid” português – como nos classifica um teórico do “racismo sistémico” (ou “estrutural”) -, já elucidara algumas das mudanças no painel parlamentar, explicitando-as como a ascensão de uma “Nova Direita” qual a suspeitosa “alt-right” mais ou menos global. A qual, no seu elevado parecer, se traduz agora numa vintena de monos parlamentares fascistas, racistas e neoliberais. Esta interpretação não diverge muito da generalizada entre bem-pensantes, particularmente propensos à interjeição “neoliberal”, esse apupo simplório que acalenta a demonização de tudo o que não seja arreigadamente estatista.

Aliás, algo a latere, recordo o que após a votação me disse uma queridíssima amiga (“que nariz, que nariz…”): “esses betos [IL, entenda-se] em quem votaste são uma distopia anunciada“. Respondi-lhe, algo desabrido (mea  maxima culpa, piorada devido ao referido “que nariz…”), remetendo-a para a página do partido Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa, convocando-a a melhor reconhecer os traços da perfídia distópica, tão certeiramente denunciados pela Iluminista “esquerda” lusa. Mas recupero essa breve conversa porque me é exemplo de uma versão interpretativa sobre esta parcela da tal “alt-right”, racista, fascista e neoliberal, portuguesa: a de que é um movimento de classe média alta, os tais “betos”, assim nada desapossada mas apenas gulosa.

Ora o que agora é significante, e terá que ser integrado na análise sobre este movimento fascizante, é o contributo do Professor Sem Medo. O qual aparenta ter uma visão algo diversa. Pois Boaventura Sousa Santos enuncia as causas destes votos nos distópicos liberais. Para ele, estes não são votos ancorados em qualquer razão, numa avaliação mais ou menos ponderada da situação nacional e do seu enquadramento internacional, mesclando expectativas individuais com anseios para o país, num saudável patriotismo, mesmo que este erróneo ou até errático. Bem pelo contrário, os votos no tal partido distópico, são fruto da emoção, numa reacção irracional face à crise potenciada pela pandemia, sendo assim um fenómeno de “ressentimento” – um ressentimento de camadas sociais decerto que provocado por se encontrarem estas desapossadas, tanto em termos reais como de expectativas, presumo – que se reflecte num ressentimento invidual condutor das opções de voto, propiciador da adesão ao cruel culto do “darwinismo social”.

Parece assim óbvio – e disso quero informar a minha queridíssima amiga, bem como alguns outros que com ela partilhem a interpretação do que vai acontecendo – que este distópico, fascista-racista-neoliberal, movimento de retórica liberal (a tal IL, recordo) não se limita aos tais privilegiados “betos”. Ainda para mais se aceitarmos o óbvio, e tantas vezes repetido por sociólogos: isso de que Portugal continua a ser uma sociedade bastante estratificada, onde os privilégios de classe (os dos tais “betos”) seguem impunes. Será, como o anuncia o Professor Sem Medo, um movimento irracional, desprovido de Razão, dos descamisados (ou, vá lá, “colarinhos brancos” puídos), ressentidos.

Há pois que actualizar, seguindo neste sentido, a interpretação do processo actual nacional. Pelos vistos é isto que a Sociologia nos ensina.

29 comentários em “O Professor Sem Medo”

  1. Claro que a IL se dirige aos betos privilegiados. Em Portugal um tipo que leva para casa acima de 1000€ de salário é um proto-burguês, e portanto um privilegiado. Trabalhando para o privado, está ideologicamente rendido ao grande capital e à exploração da classe operária.

    1. O que é que alguém que ganha 1000€ por mês beneficiaria com as medidas propostas pela Iniciativa Liberal, para além de uma futura bancarrota porque andaram a baixar os impostos à força toda, ao mesmo tempo que aumentavam a despesa com o sector privado da saúde, e o Estado acabou sem fontes de rendimento?

  2. Ta tudo maluco!
    Esta gente era dar-lhes uma enxada para trabalhar a terra em vez de andar no blá blá blá dos inúteis .

  3. Acho chato confundir um professor de Sociologia distópico com a própria Sociologia, que, pela complexidade do tema que estuda, é propensa a ter nos seus professores alguns elementos menos bons ou mesmo bastante parvos, no bom sentido da palavra, claro está.

  4. O Ba tem zero deputados, o Chaga tem doze deputados e o jpt continua a insistir em malhar no Ba (e, por ricochete, nos “bem-pensantes” seja lá o que isso for). Enfim, a cada um as suas prioridades.

    Já agora, parece-me que a origem social dos que escrevem na imprensa a favor do BE ou da IL é a mesma: classe urbana com qualificações acima da média. Uns pensarão mal e os outros bem?… Predilecção pelas petições de princípio? A suivre.

    1. Miguel, obrigado pelo seu comentário. Desculpar-me-á mas convoca-me uma resposta longa, abusarei da sua paciência:
      I.
      1. sobre os “bem-pensantes”. Tem toda a razão, vejo este registo blogal como amador, hóbi, algo irresponsável. E nisso evito (excepto quando remeto para um texto particularmente relevante aquilo a que aludo) o cansativo registo das referências bibliográficas, coisa de textos profissionais. E assim muito do que vou dizendo ficará incompreensível para que me atura. Neste caso particular dos “bem-pensantes” (relativamente a coisas políticas) ao longo dos anos blogais várias vezes botei o que por isso entendo: aqueles (normalmente de profissão intelectual) que consideram que aqueles outros que com eles coincidem nas opções políticas/ideológicas/eleitorais o fazem assentes numa ponderação mais ou menos acurada, racional, dos contextos e interesses em causa, e que os outros que com eles discordam em termos políticos/ideológicos/eleitorais o fazem assentes numa irreflexão, uma emotividade irracional, mera e erroneamente reactiva. Este tipo de discurso “analítico” é muito recorrente (e este texto de Sousa Santos é apenas mais um desse tipo), e é uma óbvia refracção do velho ideário que consagrava a função dos “intelectuais orgânicos”, da imagem do “partido-vanguarda” e da crença na “alienação” das massas (assim desconhecedoras das suas condições de existência e de reprodução”. Como tal é muito presente na “esquerda” (seja lá o que isso for, para o citar a si) do que na “direita”, ainda que nesta essa altivez intelectual também surja.

      2. Quanto ao que me diz, isso de eu preferir “malhar” no dr. Ba enquanto eximo o prof. Ventura das minhas vigorosas e dolorosas arrochadas. Haverá duas razões principais, uma pessoal, outra mais abrangente. A primeira é porque eu, com toda a sinceridade, blogo num registo conversacional, nunca me encarei a “falar para o mundo” (para o país) do alto do meu palanque [com excepção de quando recorri aos blogs para apelar a uma ajuda à região da Beira após um ciclone terrível e quando me fartei de neles botar sobre a guerra no Cabo Delgado, face ao silêncio noticioso (inclusivamente em Moçambique) que acontecia. Nesses casos, digo-o sabendo do risco do ridículo, almejei que o que eu botava fosse o mais lido possível e por gente diversificada]. De resto ao longo destes 18 anos de bloguismo eu falo para o meu “pequeno mundo”, circundante, conversacional – mesmo num blog de maiores audiências como o Delito de Opinião. E o qual se vai reduzindo devido ao ensimesmamento provocado pela idade. O que é que isto tem a ver? Tem dado que nesse meu “pequeno mundo”, nesse meu “universo sociocultural”, convivencial, muito pouca gente é sensível à argumentação (se lhe quiser chamar assim) do prof. Ventura, “vai de si” a vacuidade daquilo tudo [e se tiver paciência para ler, aqui lhe deixo uma nota muito recente do meu espanto ao encontrar gente com quem convivo que vota no CHEGA [ https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/keep-walking-13641499] .

      Mas já o contrário acontece quanto às ideias do dr. Ba. As quais colhem apreço, concordância, mesmo que por vezes matizada, entre vários daqueles com os quais tenho alguns laços sociais (mesmo que cada vez mais ténues). O facto do dr. Ba, e alguns correligionários, surgirem como locutores de causas aparentemente virtuosas, congrega imensa aceitação na pequena-burguesia letrada lisboeta, aceitando-lhe(s) todos os desvarios, hipérboles, falsificações, demagogias. E nisso servindo de acendalha para o evidente registo incendiário que o “Mamadou”, como tantos o tratam, persegue. E isso para mim é um absurdo, face à efectiva conivência que se tem para com quem defende o encerramento de zonas da República racialmente delimitadas à acção policial, a instauração de policiamentos comunitários, a constituição de grupos de acção violenta (quiçá armada) de vigilância popular, para além (via Katar Moreira) da defesa da instituicionalização de comissários políticos na administração pública. E o silêncio, simpático, diante destas alarvidades francamente que me custa imenso.

      (cont.)

      1. II.
        Miguel,

        3. Mas faça-me a justiça, sff, de não me apontar neste postal uma deriva de Bafobia. Eu apenas replico o que o dr. Ba acaba de sublinhar, a “fascistização” das curiais e habituais (pelo menos na Europa) correntes políticas liberais, na sua heterogeneidade. Esta perspectiva não é monopólio do extremismo da extrema-esquerda identitarista, a la Ba, é bem pelo contrário, e como se viu nesta campanha uma constante (excepto durante breves dias após o debate entre o dr. Santos e o prof Ventura, em que a “esquerda” aceitou a democraticidade dos que não são CHEGA [referi isso aqui: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/santos-vs-ventura-13556838 )]. Pois até o dr. Rio foi “fascistizado” (também referi aqui: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-impacto-das-sondagens-13605383).
        Mais, o que convoco de Ba, este discurso de invectiva ao movimento liberal (ou a outros movimentos que não sejam de extracção marxista), faço-o também a outras pessoas, e tenho-o feito ao longo de inúmeros postais. Como em vários que escrevi em 2021 a propósito de Otelo Saraiva de Carvalho e do culto que alguma (vasta) “esquerda” lhe continua a prestar. Ou, mais recentemente, ao que o florentino Pacheco Pereira (um dos grandes derrotados de domingo) veio botar sobre os liberais que são como o CHEGA [https://estan.blogs.sapo.pt/o-regresso-ao-social-fascismo-323660]. Ou seja, Miguel, este é o meu assunto, sobre o qual converso, com os patetas de “esquerda”, pequeno-burgueses que nada aspiram a uma revolução proletária que lhes retire os benefícios de uma sociedade de cariz europeia, também liberal, mas que rebolam as ancas chamando fascistas aos liberais. O meu assunto (aqui neste postal, noutros vários) não é o prof. Ventura.

        Mais ainda, e agora sobre o prof. Ventura. Para além de resmungos variados sobre tal “criatura”, “mariola” como gosto de o resumir, várias vezes me insurgi contra o espaço mediático que lhe foi dado, em particular pela imprensa e academia mais agarrada ao dr. Ba e seus sequazes. Essa suprema atenção foi uma das causas (não única, talvez não mais importante) do crescimento dessa antipática agremiação. Para resumir o que penso disso boto um citação de um postal que aqui deixei em Outubro: “Neste regime nunca houve extrema-direita, nem após a descolonização o mítico general Kaúlza de Arriaga conseguiu animar o seu MIRN, nem mesmo uma “direita profunda” conseguiu germinar na deriva do PDC (que estrebuchou sob o folclórico Silva Resende). Este partido de agora é um mero epifenómeno, de forma algo serôdia acalentado por fenómenos aparentados em alguns países vizinhos, e muitíssimo reforçado pela necessidade de exposição pública da recente criatura racialista que o PS instituiu para minar o BE. Goste-se ou não do PCP será importante reparar como dirime ele, com algum menosprezo e sagaz silêncio, aquele fenómeno de “meia-estação”. Pois os reais problemas e hipotéticas soluções estão alhures.” [https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-fim-da-geringonca-13254768]. Ou seja, também por isso julgo que é contraproducente (ou foi, até agora) passar o tempo a perorar sobre o prof. Ventura.

        (cont.)

        1. III.
          Miguel,

          4. Dirá V. que tudo isto não passa das lérias de um liberalóide, incomodado com as justas invectivas advindas de líderes activistas e intelectuais de uma justa esquerda. De facto, irrita-me a pantomina falsária dos intelectuais (a quantidade de professores universitários que botam estas excrecências é uma vergonha) e a gritaria histérica de Ba e congéneres. Porque acima de tudo o liberalismo é muito heterogéneo (não quer dizer que a IL o seja, provavelmente tem muito menor amplitude ideológica) e é parte constitutiva fundamental do contexto socioeconómico e cultura europeu que a maioria defende. Sobre isso botei aqui das razões da minha conjuntural opção (e deixo citação, dado que V. me impeliu a desdobrar-me em referências): “Ou seja, a abrangência de um futuro e desejável poder deve congregar essa mescla de inspiração europeia e desenvolvimentista. E nisso arredar o conservadorismo. Este, no país, é muito uma questão de atitude que perpassa vários partidos. Não se trata do conservadorismo de “costumes”, que muito clama nestas matérias “identitárias” com que alguma esquerda actual aliena o debate público. Mas de posturas renitentes às alterações socioeconómicas, muitas vezes sob roupagens patrioteiras anti-europeístas. Uma outra exclusão necessária é a dos radicais liberais. De facto não sei a efectiva influência que estes têm nos partidos de centro e direita, deles apenas conheço década e meia de algumas proclamações de rede social e jornal. Neles é reconhecível um radicalismo similar, ou mesmo maior, do que o que se encontra em alguns sectores da coligação de socialistas revolucionários que vem apoiando este governo.

          Desenvolver o país é apostar em vias que poderão ser sectorial e conjuntalmente dolorosas – é isso a política benfazeja, privilegiar sectores em função do bem comum, a tal “justiça social” equitativa desenvolvimentista. Mas o radicalismo liberal, com evidentes traços revanchistas de anti-estatismo desbragado, e algum conservadorismo com tiques miguelistas tendem ao menosprezo sociológico, ao aventar do (necessário) extermínio dos mexilhões, nós-povo. E se é para ter um massacre de mexilhões eu preferirei votar no José Sócrates…” [https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-fim-da-geringonca-13254768 ].

          Isto não é “o” pensamento da IL, é apenas o meu resmungo. Mas quero crer que há várias pessoas que votam (até aderem) num movimento liberal, por várias razões, face à pluralidade do que é o liberalismo, e que estão bem afastadas do patético “darwinismo social” do BSS bem como do fascismo, racismo e até ao cego “neoliberalismo”. Mas para esta gente, carregada de aplausos da pequena Lisboa e do Choupal até à Lapa, nada disso conta. Apenas proclamar fascistas todos os outros.

          5. Quanto ao que me diz sobre a origem social (e cultural) dos locutores que se desdobram entre televisão e imprensa escrita, identitaristas esquerdistas e liberais de tendência economicista? Tem toda a razão. Daqueles mais ou menos da minha idade é evidente que uns frequentavam mais o Frágil e outros mais os Três Pastorinhos. A rapaziada um pouco mais nova é igual – mas já não conheci (nem muito frequentei) os bares/discotecas onde se congregavam.

    2. Mamadou Ba é um inútil que inventa tudo e mais alguma coisa para sobreviver as custas do Estado Português

  5. É sempre curioso ver a utilização de termos como: ressentimento, raiva, indignação, justiça, justiça social, populismo, democrático, darwinismo social, progresso. são utilizados na narrativa publica.

    Coisas de que Boaventura Sousa Santos não fala: Ophélie Meunier. E o que espera que aconteça ao povo…ou melhor aos povos pois nesse caso há 2 povos…

  6. Uma outra nota, pelo que tenho lido estas eleições significaram uma vitória da esquerda, um país a virar à esquerda (excepto os 20 fachos)… percebi mal ou foi uma vitória do PS?? Bloco e PCP levaram uma varridela, o Livre lá elegeu o da praxe, mas os representantes da “verdadeira” esquerda ficaram com menos votos e representantes que os pequenos partidos de direita.

    1. A esquerda manteve a votação, concentrando-a num partido. A direita aumentou cerca de meio milhão de votos distribuídos por 3 partidos. O PS ganhou.

  7. Coitada da atriz . Estava tão excitada a prometer o combate aos racistas recem eleitos , ao melhor estilo Mamadu , que nem percebeu que já era.

  8. Para os pesporrentes imbecis que se acreditam da classe marxista dos pastores, à carneirada só ocorre não se deslumbrar com o seu superior pensamento e orientação, se tiverem o estômagos demasiado cheios (neoliberais) ou subitamente esvaziados (ressabiados).

  9. Sempre que vejo o Boaventura Sousa Santos, lembro-me de que ele foi nomeado pelo governo de Costa para o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNEVN) dois meses depois de o seu filho ter sido nomeado para a mesma CNEVN pela FCT, tutelada pelo governo de Costa.

    Uma rápida busca na internet fez-me chegar ao currículo de Boaventura Sousa Santos onde se lê que ele é, desde 1996, “coordenador científico” – o que quer que estas palavras possam significar estando ligadas a ele – do Observatório Permanente da Justiça, financiado pelo Ministério da Justiça. Curiosamente no portal do próprio OPJ lê-se que a sua criação foi só em 2000 (quando o ministro da Justiça era… António Costa).

    Boaventura Sousa Santos é um dos vários revolucionários que faz uma bela vidinha dentro do sistema.

    1. Discordo imenso do comentário. E friso isso porque não lhe quero ficar associado (o postal está assinado por mim, nem que seja por isso). Sobre essa questão do Conselho de Ética não a conheço, concedo que será melhor evitar relações familiares em instituições desse tipo mas não é, em absoluto, mandatório. Ou seja, eu não aceitaria mas não é ilegal nem vejo como ilegítimo. É sim causa de “ruído”, o que num caso destes (“ética”) é desnecessário.

      Quanto ao resto: a discrepância de datas nesse dado que aponta porventura prender-se-á a uma alteração desse observatório (ou do seu enquadramento institucional ou da sua denominação) ou mesmo, apenas, a um qualquer erro de minudência nesse documento que consultou. Francamente, não é motivo de alarido. As “aspas” no “coordenador científico” remetem, decerto, para a negação (típica no uso das aspas) da condição científica das ciências sociais. Pode-se concordar ou discordar das opiniões e dos corolários de BSS (ou de qualquer cientista social), pode-se inclusivamente procurar traçar as correlações entre as ideologias de cada investigador e os seus resultados de investigação (pode-se e deve-se) mas isso é uma condição do exercício destas ciências sociais, que nem as apouca nem lhes reduz a cientificidade – há um discurso popular, feito da ignorância arrogante, que continua a negar esta última, que não passa de mão na anca, palito nos dentes, onomatopeias de flatulência feitas e, ocasionalmente no caso dos mais letrados, uma ou outra citação dos textos polemistas de jornal de Vasco Pulido Valente. Estou a ser rude propositadamente, que não há paciÊncia para isto.

      Quanto à “vidinha” de BSS. Enfim, não sei como vive – sei que discordo imenso das opiniões políticas dele, sei que muito do que li dele me fez franzir o cenho (não me refiro ao que escreveu ou coordenou sobre Moçambique). Mas o homem é competente e muito trabalhador – e os organismos académicos que protagonizou e dinamizou têm tido muito sucesso, claro que decerto que muito devido a redes de influência e interacção que foram criando, como em qualquer instituição de investigação acontece.

      Dito tudo isto, o que é relevante é criticar (no sentido de analisar) o que o homem (ou outro) escreve. E não se tem uma boa “vidinha” ou não. Num outro registo, claro, pode-se analisar as relações entre os poderes fácticos (estatais, empresariais, instituicionais públicos, privados, etc) e os programas e projectos de investigação, como estes são moldados ou direccionados em função de programas/agendas/interesses que lhes são externos. Mas isso acontece para quase toda a investigação científica (alguma investigação “pura”, como antes se dizia, talvez seja mesmo autónoma). Mas não é a essas condições (constrngimentos) socioeconómics e intelectuais que o comentário alude, pois surge muito mais ad hominem. E esse não é mesmo o meu registo.

      1. Só um pequeno esclarecimento pois, embora não tenha problemas com discordarem comigo, aflige-me que o possam fazer por uma eventual má interpretação do que digo/escrevo. Quando eu coloquei as aspas à volta do “coordenador científico”, não foi por uma sistemática desconfiança em relação às ciências sociais e humanas. As CSH não têm culpa de muitos nessa área só parecerem usá-las para darem uma roupagem de jargão científico à sua militância: há também quem o faça, mesmo que sejam casos mais pontuais, noutras ciências. Fi-lo aqui, e daí o parêntesis depois das aspas, por Boaventura Sousa Santos deixar-me a impressão, em vários dos seus escritos que li em jornais, de martelar ciência para a poder encaixar na tese política do seu texto. É algo que me faz impressão, quer seja nas revistas científicas, nas páginas de jornais, em relatórios de comissões técnicas ou em programas eleitorais.

        A discrepância das datas, devia tê-la referido numa adenda, pois foi só mesmo pela piada da coincidência. Isso foi um erro de planeamento da minha parte.

        Disclaimer: embora tenha muitas reticências em relação ao conteúdo do seu discurso político e à forma que lhe dá, admito sem problemas sentir uma pontinha de simpatia por BSS desde que ele fez a cabeça em água ao José Sócrates por causa da co-incineração (personagem que já na altura me deixava desconfortável – sempre o achei com olhos de louco e tenho testemunhas que o podem confirmar).

  10. O professos Boaventura e o seu aluno Mamadu estão bem um para o outro. Professam o mesmo credo e por isso podiam dar o nó, Que sejam felizes e tenham muitos meninos

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