O Presidente preso no seu labirinto


Pedro Correia,

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Frenético, hiperactivo, irrefreável, Marcelo Rebelo de Sousa anda em permanente corrida consigo próprio. Imaginando sempre os capítulos seguintes da telenovela política portuguesa, em que é um dos protagonistas. Sem ele, o enredo seria muito diferente.

Lida mal com o silêncio. Detesta imaginar-se esquecido. Não suporta a ideia de ficar reduzido a rodapé da História. Ele, que foi criado no Estado Novo e estudou em pormenor o singular «presidencialismo de primeiro-ministro» (definição de Adriano Moreira) que caracterizava esse regime concebido por Salazar, jamais se suporia confinado ao estatuto residual de corta-fitas, associado apenas à pompa ritualística da democracia.

No múnus presidencial, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, 73 anos, tem Mário Soares como arquétipo. Pela elevada fasquia que esse antecessor estabeleceu em três domínios: ser o chefe do Estado mais votado em reeleição, exercer uma «magistratura de influência» a partir do Palácio de Belém e cessar funções deixando no poder a sua família política de origem.

 

Destes objectivos, o primeiro já é inalcançável. O segundo vai ser posto à prova com a maioria absoluta socialista. O terceiro dir-se-ia hoje utópico face à crise existencial no PSD, que encolhe de sondagem em sondagem e desperdiça oportunidades para se reencontrar com a sociedade, como esta frustre campanha para a eleição directa do próximo líder confirmou.  

Soares findou o mandato, em Janeiro de 1996, edificando o sonho hegemónico de Francisco Sá Carneiro: um Presidente, uma maioria e um Governo. Mas à esquerda – com Jorge Sampaio em Belém, António Guterres em São Bento e o PS a imperar no hemiciclo. Marcelo viveu esse ciclo da pior maneira, condenado a comandar o PSD na oposição sem nunca ter chegado a primeiro-ministro.

Agora ambiciona atingir até 2026 a meta de Soares, em rigorosa simetria. Para tanto, tem de superar três obstáculos. Primeiro: a presença quase obsessiva de António Costa, com tendência crescente para ocupar todo o palco. Segundo: a reorganização de forças à direita do PS, que não depende dele. Terceiro: a sua manifesta falta de paciência para racionalíssimos lances de xadrez político.

 

No Governo, há quem queira condená-lo à irrelevância – e o astuto Marcelo está farto de saber isso. Mas o antídoto mais eficaz dificilmente passará pelo excesso de histrionismo presidencial que voltou à tona nesta visita de Estado a Timor, nem pelo uso imoderado da palavra, como quando comunicou aos jornalistas no Dubai que Costa estaria a caminho da Ucrânia. Num regresso pouco recomendável aos tempos em que era um dos maiores fornecedores de manchetes da vida política nacional.

Eis o Presidente preso no seu labirinto: as legislativas de 30 de Janeiro, que ele mesmo convocou, vieram alterar as regras do jogo. «O importante não é o valor das palavras. O que importa é saber quem manda», dizia o Coelho Branco à Alice. Era no País das Maravilhas, mas também se aplica a Portugal.

 

Texto publicado no semanário Novo.

22 comentários em “O Presidente preso no seu labirinto”

  1. Brilhante análise, que já tinha lido no Novo.
    A Marcelo nunca lhe passou pela cabeça a maioria do PS.
    Se já dormia pouco, agora deve passar a noite em pé
    Talvez ainda o veremos a andar de tartaruga ou elefante, mas pouco mais.

    1. Já não poderá ser a pobre daquela tartaruga das Seicheles, que nunca recuperou do trauma de ter sido cavalgada (tartarugada?) por Mário Soares.
      Infelizmente para ela, ainda não existia o PAN nessa época. Os jornalistas que acompanharam essa viagem, integrados na comitiva presidencial, acharam até muita gracinha.

  2. «de calado que é, boca não tem»
    só bocas
    sem criação de riqueza e população cada dia mais envelhecida, doente e pobre:
    isto acaba na paisagem por onde começou

          1. Alguém sabe como se diz entulho en Russo?
            Lavoura é Lavrov.

    1. É uma bela frase, enigmática e com um potencial incrível. Mas não estou a ver a relação com o banhista-mor do reino.

  3. Entretanto se o Governo não fosse do PS teríamos os jornais a falar da Austeridade ….da Inflação.
    Extraordinário como essas duas palavras não aparecem nos jornais.

    1. 8% de inflação, hoje com chancela do INE.
      Costa andou anos a gozar com a vinda do diabo.
      Ei-lo aí, bem chifrudo. Em forma de inflação, a maior inimiga de qualquer governo.
      Aliás já rondava muito antes da agressão russa à Ucrânia. Era tema em foco na imprensa mais atenta no último trimestre do ano passado.

  4. MarceloRSousa foi o cavalo-de-tróia de AntónioCosta para o PS conquistar o poder ao PSD nos últimos 11 anos.
    O Poder usa sempre a scilação entre dois aparentes contrários» (prós/contra; esquerda/direita) para se instituir, reproduzir e governar. Essa oscilação — com que ilude e subjuga o Povo (eleitores) — tem sido após o 25Nov1975: PS/PSD.
    Quando essa oscilação se quebra, é o Poder (de um determidado «Regime», neste caso o «regime abrilista») que é ameaçado.
    Esse é um dos labirintos do Poder.
    O outro labirinto, é o Poder convencer o Povo (eleitores) a usar a Linguagem (ficarem apenas pelo dizer, pelo falar, por comentários, opiniões, explicações, etc.) como instrumento e ferramenta para discutir, criticar e analisar a realidade política que institui. Essa condenação do Povo à linguagem impede que o Poder vigente seja conquistado e derrubado.
    MarceloRSousa tem contribuído decisivamente para a derrocada do PSD, e do «regime abrilista». A sorte de AntónioCosta é nada ter aparecido capaz de ameaçar o PS, senão esse apêndice e prolongamento saudosista do PSD que é o Chega.

        1. O “se”, na política, equivale à “vitória moral” no futebol.
          A política faz-se com factos, não com chavetas teóricas. Já dizia o camarada Lenine, nisto cheio de razão: «Os factos são teimosos.»

      1. O Chega é a marca pirata do PSD. É um produto contrafeito, forjado na feira de Oeiras e nos municípios da “Linha” polvilhado com algumas beatas de carcavelos e tios de cascais. Não vai a lado nenhum. É só fumaça e muitas hóstias.

  5. Ele só tem que demitir o governo, marcar novas eleições e se for caso disso novas eleições até o psd ganhar.

    1. Deve ser um novo princípio da física aplicado à internet: quanto mais disparatada a opinião exposta, mais incógnito aquele que a emite.
      O anonimato favorece a proliferação da asneira.

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