Consciente de que não é o candidato favorito de José Sócrates, mas na convicção de que José Sócrates tem pouco espaço para apoiar qualquer outro candidato, Manuel Alegre avançou quanto antes para o terreno, procurando condicionar o primeiro-ministro. Quer isto dizer que José Sócrates está impedido de tentar evitar a eleição de Alegre? Não me parece.
Em primeiro lugar, se é certo que José Sócrates tem pouco espaço para encontrar uma alternativa a Manuel Alegre (objectivamente é complicado ignorar os resultados da última eleição presidencial, em que foi o PS que impediu uma segunda volta com Cavaco e não Alegre), tal espaço abre-se de par em par se o candidato for… o próprio José Sócrates, como aqui realça o Bruno Alves. E o pretexto para essa candidatura pode ser encontrado a qualquer momento, fruto de um qualquer facto político entretanto criado para o efeito.

Em segundo lugar, se é certo que José Sócrates pode ver-se obrigado a apoiar Manuel Alegre, tal não significa que o deixe vencer. Pode muito bem dar-lhe um beijo de morte, em que a forma do apoio se destina tão só a certificar-se de que Alegre perde. E como?
Pode começar por deixar Alegre queimar no lume brando do Bloco de Esquerda o tempo suficiente para assustar o eleitorado do centro, ao mesmo tempo que encomenda vozes autorizadas para denunciar o esquerdismo terceiro-mundista de Alegre. Depois, pode fazer avançar a guarda obediente destinada a criar as fracturas necessárias no PS, sob o ar angelical de José Sócrates, perturbando a campanha e obrigando Alegre a falar mais vezes das críticas que lhe chegam do PS do que da sua campanha. E por fim só tem de criar a ocasião para deixar escapar o vazio de Alegre que o PS tanto escondeu.
(continua)

Sócrates à Presidência? O meu amigo não leu bem as ultimas declarações do 1º ministro. De resto, não fora a candidatura de M. Alegre uma candidatura forte e com perspectivas de ser ganhadora e certamente não lhe dedicaria cinco artigos e continua.
As declarações do próprio Sócrates (poéticas e tudo) e sobretudo as declarações de Francisco Assis, ontem, nas televisões, são claras, o PS vai apoiar Alegre e ao PCP, na 2ª volta, não lhe restará outra alternativa. O confronto forte, Alegre-Cavaco é já um dado adquirido.
Caro Paulo,
Onde é que eu digo que a candidatura de Alegre não é forte? Tenho aliás repetido exactamente o contrário.
E eu não contesto que o confronto Alegre-Cavaco possa ser a hipótese mais provável: o que tenho tentado demonstrar é que é uma hipótese que Sócrates não vê com agrado e que, por isso mesmo, algo fará para impedir a eleição de Alegre.
E digo isto com um ano de antecedência, porque me parece que a partir de agora é por este prisma que as actuações de Sócrates terão de ser lidas, apesar de um eventual apoio formal.
Mas trata-se de mera especulação.
Um abraço
A afirmação de que a candidatura é forte é da minha responsabilidade e não representa uma refutação. Sócrates não tem alternativa, não a tem e pouco fez para a criar ao longo destes anos que mediarem entre as duas eleições. Não haverá candidatura alternativa por parte do PS e as vozes dissonantes (Lello e Vitalino Canas, tão criticados na anterior legislatura e Vítor Ramalho, soarista dos sete costados) serão progressivamente ‘abafadas’ à medida que os ‘sons’ da campanha forem tomando forma.
Pois eu considero que essas vozes serão amplificadas (aliás, qualquer voz dissonante em campanha é sempre amplificada) a par de uma discreta presença socialista em campanha destinada a dar destaque a Louçã e restante esquerda.
Não creio que Alegre permita isso ao BE, seria um tiro no próprio pé. Louça já não tem margem para recuar, Sócrates não tem alternativa e o PCP tão pouco na 2ª volta. Por outro lado o PS, perdida a maioria absoluta, não está em condições de apoiar Alegre e perder mais protagonismo para o BE. Quanto às dissonâncias, o meu amigo verá, vindo elas de quem vêm, calar-se-ão no exacto momento em que o PS der o seu apoio oficial a M. Alegre.
A foto parece dum take dos Sopranos…
Excelente.
Era nisso que eu pensava quando deixei o comentário no seu post com o nº 4 desta série.
Obrigado.
Muito boa esta tua série, Adolfo. E muito estimulante: convida mesmo a reflectir sobre as presidenciais. Não tarda muito junto-me a ti e ao Paulo na abordagem deste tema.
(objectivamente é complicado ignorar os resultados da última eleição presidencial, em que foi o PS que impediu uma segunda volta com Cavaco e não Alegre),
– Como? Pelo contrário, Soares + Alegre, somaram mais votos que , caso Alegre corresse sozinho com apoio declarado do PS. Os 2 juntos colheram votos da direita do PS até bloquistas.
Numa 1ª volta: Alegre/PCP pode não chegar para impedir os 50% de Cavaco. Paradoxalmente, fazia sentido uma candidatura da área de Sócrates para colher votos ao centro.
– Imagine-se: Gama/Alegre/PCP contra Cavaco. A 2º volta era certa.
– As presidenciais de 2011 são muito parecidas com as de 1986: Soares Zenha7Pintassilgo /Freitas.