O preconceito dos traumas


Cristina Torrão,

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A vida de qualquer um de nós daria um romance, bastava saber escrevê-lo. O grande escritor Eça de Queirós não representa uma excepção, a sua vida é tão interessante como muitos dos enredos por ele criados. O texto que registou a sua entrada neste mundo não podia ser mais absurdo: filho de “mãe incógnita”. Lendo eu, na publicação acima representada, que ele foi baptizado na igreja matriz de Vila do Conde a 1 de Dezembro de 1845 e estando habituada a fazer pesquisas familiares online, pus mãos à obra. E, em menos de cinco minutos, encontrei o registo de baptismo de José Maria, com a carta que seu pai fez questão de acrescentar ao livro paroquial:

Eça de Queirós PT-ADPRT-PRQ-PVCD28-001-0018_m006

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À altura do seu nascimento, os pais, Carolina Augusta Pereira d’Eça e o Dr. José Maria Teixeira de Queirós, não eram casados, só dariam o nó quatro anos mais tarde. A condição de mãe solteira parece ter sido vergonhosa demais para a jovem de boas famílias. Mal nasceu, o pequeno José Maria ficou aos cuidados de uma ama. O registo de batizado reza: “.. filho natural de José Maria d’Almeida de Teixeira de Queiroz e mãe incógnita”. O pai fez questão de acrescentar ao documento a cópia de uma carta que enviara dias antes a Carolina Augusta, dizendo ter recebido instruções do seu próprio progenitor para fornecer apelido burocrático ao pequeno. E justificava: “Isto é essencial para o destino futuro do meu filho, e para que, no caso de se verificar o meu casamento consigo (…) não seja preciso em tempo algum justificação de filiação”.

Seria lógico que, ao verificar-se o casamento, em 1849, a jovem família enfim se reunisse. Mas tal não aconteceu. Depois da morte da ama, o pequeno, de cinco anos, foi enviado para Verdemilho, propriedade dos avós paternos. Tendo falecido a avó, foi despachado, aos onze anos, para casa de uns tios, no Porto, e passou a frequentar o Colégio da Lapa, pois os pais «repetiam a estranha rejeição de o manter fora do seu convívio – e do dos irmãos entretanto nascidos» (Visão – Biografia, p. 24). Só depois de ter concluído a Licenciatura, em Coimbra, José Maria Eça de Queirós foi autorizado a viver com a família, entretanto mudada para Lisboa.

É impossível circunstâncias destas não marcarem, de alguma maneira, a vida de uma pessoa. O mais curioso é não saberem lidar bem com o assunto aqueles que se ocupam, ou ocuparam, da vida e da obra deste escritor. Oscilam entre o exagero de um trauma profundo, como João Gaspar Simões, no seu tomo biográfico dedicado a Eça de Queirós, e o ignorar de qualquer marca, como Maria Filomena Mónica, que, na entrevista dada à Visão – Biografia afirma ser «altíssima (…) a percentagem de filhos ilegítimos em Portugal na altura em que Eça nasceu». Como se o facto de o caso não ser único  invalidasse o impacto na pessoa em questão. O termo “altíssima” é muito relativo, pois a grande maioria dos recém-nascidos, no século XIX, eram legítimos. A ilegitimidade era sempre um estigma.

Bem, é verdade que Eça de Queirós acabou por ser perfilhado. Mas Maria Filomena Mónica acrescenta: «Depois de ter acabado o curso em Coimbra, passou até a viver em casa dos pais que, entretanto, se tinham casado». Esta frase é de uma frieza incrível. A investigadora apaga a infância e a juventude do escritor, mais de vinte anos rejeitado pela casa paterna, impedido de convivência íntima com os pais e os irmãos, apesar de legalizada a situação. Pergunto-me mesmo que tipo de contacto ele tinha com os pais, nomeadamente com a mãe. Se é que tinha algum.

Parece que há uma certa vergonha em aceitar que um génio da literatura possa ser afectado por circunstâncias constragedoras na sua formação. Como se não se tratasse de um ser humano! E esquecendo que a escrita de Eça, simbolizada na sua obra-prima, se centra numa situação de incesto entre dois irmãos que não se conheciam. Não esqueçamos igualmente que a ideia para Os Maias amadureceu a partir de uma outra situação, ainda mais difícil de engolir: a relação incestuosa entre uma mãe e um filho.

A Tragédia da Rua das Flores permaneceu mais de cem anos entre os manuscritos inéditos do autor, só foi publicada em 1980, altura em que deixou de estar na posse dos herdeiros e passou a pertencer ao domínio público. Ou seja, os descendentes próximos de Eça pareciam não se sentir confortáveis com o enredo. E deixemo-nos de pruridos: o escritor denota uma certa obsessão pelo tema, essa possibilidade de duas pessoas de parentesco muito próximo, mas que não se conhecem, se apaixonarem. Foi algo que obviamente lhe ocupou grande parte da vida (caso contrário, não conseguiria escrever sobre isso) e o motivo poderia muito bem ter sido o impedimento de privar com a própria mãe e os irmãos, num altura fulcral da sua formação. Além disso, muitas das suas personagens, mesmo algumas secundárias, são criadas por avós ou tios.

Isto diminui, de alguma maneira, a grandeza de Eça? Pelo contrário! Denota coragem, capacidade de lidar com os seus fantasmas, analisá-los, inventar um enredo nisso baseado e passá-lo para o papel. É aliás isso que define um grande escritor ou escritora: a capacidade de se servir das próprias vivências, de as enfrentar, de as arrancar do seu interior para as observar e analisar perante si. Onde vai um artista buscar as ideias, o material a ser moldado, a fim de criar a obra de arte, senão à sua própria vida?

29 comentários em “O preconceito dos traumas”

  1. A propósito de tudo o que narra e é absoluta verdade, não se deve esquecer Eça viveu a sua infância em casa de uma tia materna 8irmã da Mãe), casada com afonso Tavares de Albuquerqe. Na Rua de Cedofeita, Porto. apaixonou-se por uma prima direira, mas foi prontamente desiludido pelo pai, o dito Afonso. nessa altura frequentou o colégio do pai de Ramalho Ortigão. Vale a pena ler “Eça, menino e Moço” de Thomaz d’Eça Leal, seu sobrinho por afinidade.
    Eça sofreu sempre as circunstâncias do seu nascimento e, em vésperas do casamento com D. Emília de Castro, pretendendo um jornaista escrever sore a sua vida, pediu encarecidamente a Ramalho o poupasse a ta. “Eu não tenho biografia” – disse nessa carta.

    1. Sim, são esses os tios mencionados no meu “postal”, Eça foi para lá com onze anos. Não falei nessa paixão pela prima Cristina para não me alongar. O tio recusou o casamento com o argumento de os jovens serem “primos carnais”. Segundo este número da Visão-Biografia, já estudante universitário, Eça manterá acesa a paixão por Cristina, mas o tio acabaria por o humilhar: autorizou a filha a casar-se com outro primo direito, viúvo, cinquentão, militar.

      Li “Os Maias” pela última vez há bastante tempo, mas julgo lembrar-me de que Teresinha, a paixoneta de infância de Carlos Eduardo, casou igualmente com um cinquentão, ou coisa parecida.

      E é interessante verificar que a primeira paixão de Eça tenha sido uma prima direita. Há quem chame primos-irmãos aos primos direitos. Claro que tal coisa acontece a muito boa gente que não tenha sido afastada dos pais e da família. Mas não deixa de ser curioso, quase simbólico.

    2. A carta de 10 de Novembro de 1878, suponho. De Eça a Ramalho, enviada de Newcastle: “Dados para a minha biografia – não lhos sei dar. Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra (…). Eu só tenho a minha carta de bacharel formado.”

      As cartas de Eça de Queiroz, as que conheço: aquelas reunidas nas “Cartas” em edição de 1945, pela Editorial Aviz; aquelas compiladas, na “Correspondência”, da Lello & Irmão, de 1967; aquelas que fazem parte da monumental “Correspondência Epistolar” entre Eça de Queiroz e Emília de Castro, da Lello Editores, organizada por A. Campos Matos e editada por ocasião do 150º aniversário do nascimento de Queiroz; aquelas reunidas em “A arte de ser pai”, da Verbo/Babel, de 2010, são um monumento que se percorre e volta a percorrer. Uma e outra e outra vez.

      Ninguém hoje está, temo, nesta era de resposta instantânea, em que o tempo não decorre, não tem que decorrer, entre uma pergunta e uma resposta, em que a distância, o tempo e a moderação e meditação que incutiam se perderam, à altura dessa verdadeira e perdida arte epistolar. Nem aqueles que resistem insanamente (ou como manifestação de derradeira sanidade) aos “k”, “bués”, “altamentes” e escarros afins com que hoje, com absoluto beneplácito, até académico, parece, se “escreve”. Entre outras barbaridades e barbarismos.

  2. há uma certa vergonha em aceitar que um génio da literatura possa ser afectado por circunstâncias constragedoras na sua formação

    Pois. É que a ideologia predominante dos portugueses de bem é que as pessoas que cresceram em circunstâncias difíceis ou inabituais nunca podem ser génios. Um órfão não pode ser um génio, um filho de padre não pode ser génio, um filho de um casal homossexual não pode ser génio, etc. Na ideologia predominante nas famílias de bem portuguesas, somente as pessoas que cresceram em sãs famílias burguesas é que podem ser génios. Por isso não convém discutir o caso de Eça de Queiroz, que foi um génio apesar das circunstâncias muito traumatizantes em que cresceu.

    1. Muitos portugueses na época eram génios e muitos ainda são: génios da garrafa!

      Bom texto, cara Cristina. Gostei. Cumpts.

    2. Mas olhe que os populares têm os filhos de padre em boa conta.
      Não há fruta como o pêro,
      Nem lenha como o azinho,
      Nem filho como o do padre,
      Que chama ao pai padrinho.

      1. Nem sempre. Costumo dizer que, para casos desses, não há regra. Basta ler “O Crime do Padre Amaro”, que retrata uma situação muito acontecida, incluindo o infanticídio. Por outro lado, também conheço casos de filhos de padres bem tratados e vistos. Um dos meus bisavôs era aliás filho de padre. Aterrou, recém-nascido, na Misericórdia de Lisboa, mas foram lá buscá-lo depois e diz-se que foi criado pelo pai padre e a irmã deste. Não sei, porém, pormenores. As pessoas que sabiam já não existem e, quando viviam, não gostavam de falar disso. É uma espécie de segredo de família. Só sei que esse meu bisavô, com a sua família (um rancho de filhos, entre os quais, a minha avó materna), era pobre.

    3. “…as pessoas que cresceram em sãs famílias burguesas é que podem ser génios” _ diz o Balio a ironizar (ou a depreciar).
      Não querendo generalizar (porque nem sempre se “produzem” génios nos melhores “meios”), mas convenhamos que há naquela sua frase um fundo de verdade, queiramos ou não: ou seja, um bom ponto de partida, num bom contexto familiar e económico, com acesso a bens culturais e não só… OBVIAMENTE que proporciona melhores oportunidades de se triunfar com muito mais facilidade. É dos livros, meu caro!…É injusto, pois será, mas é assim a vida.

      A verdade é esta: um indivíduo que cresceu num meio familiar onde se têm conversas a discutir livros, filosofia, música, viagens, etc. não tem de se “cansar” tanto para subir os degraus, uma vez que já está “lá em cima” desde que nasceu. Outros têm de percorrer imensas etapas e subir a pulso, com enorme esforço e sacrifício para superar e ultrapassar as dificuldades do seu “ponto de partida” e _ pelo seu próprio mérito_ conseguir chegar ao mesmo nível.
      O que interessa discutir é SE HÁ “boas políticas” de Justiça Social e um bom sistema de Educação que consigam proporcionar e oferecer oportunidades aos mais desfavorecidos, para assim “esbater” algumas das diferenças e das dificuldades iniciais na “Casa de Partida”. Só assim se pode optimizar a vida das pessoas e das gerações vindouras.

  3. Cristina, gostei muito deste pequeno ensaio. Nunca li a biografia da Maria Filomena Mónica, só a do João Gaspar Simões. Não é de estranhar que ele tenha valorizado muito a questão do trauma de ser filho de mãe incógnita. Na época em que a escreveu, as análises freudianas estavam no auge da moda.
    Costumo, por princípio, separar o autor da obra para que me sinta livre a apreciar o talento que a produziu. Só assim, por exemplo, poderei manter-me fã de grandes estupores como o Picasso e o Charlie Chaplin 😉
    Mas claro que toda a obra é autobiográfica e esse trauma com a mãe eu vejo bem reflectido na forma como ele trata as mulheres nos seus romances. São todas invariavelmente tontas, interesseiras, fúteis ou levianas, quando não são tudo isto ao mesmo tempo. Adoro o Eça, mas é, indiscutivelmente misógino. Ao contrário de outros, tem pelo menos uma boa desculpa para sê-lo…

    1. Teresa, pensei em ti, ao publicar este texto, sei que és fã e grande conhecedora de Eça. Por isso, gostei que comentasses, estava mesmo à espera 😉

      Quanto à misoginia de Eça: penso que, para um homem que viveu na segunda metade do século XIX, não é de surpreender, embora, muitas vezes, os artistas estejam à frente do seu tempo. Mas Eça, por outro lado, tomou um pouco o partido das mulheres, ou parece tentar compreendê-las, n’ “O Primo Basílio”, n’ “O Crime do Padre Amaro” e n’ “A Ilustre Casa de Ramires”. Neste último, chega a ser tocante a compreensão que a personagem principal, Gonçalo Mendes Ramires, demonstra por uma prima (penso ser uma prima), quando descobre que ela tem um “affaire” extra-conjugal. É muito paternal, sim, mas, ao mesmo tempo, comovente.

      Adoro as excursões medievais de Eça. O conto “O Defunto” é o meu preferido.

      Já agora: sabes se estou certa quanto ao destino da Teresinha d’ “Os Maias”? (comentário acima).

        1. Cristina, desculpa o atraso na resposta, mas por regra nunca estou online ao fds e isso reflecte-se nestas coisas… Sou muito fã do Eça, é verdade, mas não sou uma conhecedora. Prova disso é que não me lembro do destino que foi dado à Teresinha, se é que isso chega a ser mencionado, pois ao contrário do Eusebiozinho, seu irmão, que é muito retratado ela passa muito despercebida, coitadinha.

          1. Só agora é que li o teu comentário sobre a Teresinha (isto hoje vai às prestações). de facto, não me lembro. Dizes que o Eça, quando se revela mais brando com as mulheres dá mostras de as querer compreender. A mim parece-me mais condescendência do que outra coisa 🙂 Mas enfim, era um homem do seu tempo e tinha boas razões, como disse, para ser assim. Outra nota interessante: casou tarde.

          2. É de facto mais condescendência do que outra coisa. No entanto, penso que nem todos os escritores do seu tempo mostravam essa condescendência. Mas não há dúvida de que era misógino. É interessante, pois, há pouco tempo, segui e participei numa discussão no Facebook sobre a maneira como a condessa Gouvarinho é vista e tratada por Carlos. Mesmo quando ainda não estava sensível ao problema do machismo e da misoginia (há uns trinta anos), algumas reacções do Carlos em relação a ela incomodavam-me.

          3. Não peças desculpa, Teresa! Por vezes, também fico bastante tempo sem estar online. Basta dizer que só tenho internet (incluindo no telemóvel), quando estou em casa.

            Eu tenho essa ideia de que ele refere a Teresinha ter casado com um “cinquentão”, mas também posso estar a confundir com outra personagem de outro livro. Enfim, no fundo, não é relevante, apenas seria interessante, caso ele tivesse aproveitado esse destino da prima, sua primeira paixão.

    2. Tem razão quando diz que não é de estranhar que ele tenha valorizado muito a questão do trauma de ser filho de mãe incógnita. Estranho é que a Filmena Mónica queira atenuar esse importantíssimo facto, dizendo que era «altíssima (…) a percentagem de filhos ilegítimos em Portugal na altura em que Eça nasceu. Isso não é verdade, o que era muito alta, era a percentagem de filhos ilegítimos filhos de pai incógnito; filhos apenas de mãe incógnita eram casos raríssimos, se não considerarmos as crianças abandonadas ou engeitadas, às vezes entregues à Roda, as chamadas crianças da Roda.

      1. Tiro ao Alvo acertou.
        Realmente, nem precisamos ir ao séc. XIX vamos ao ainda próximo anos 60 do séc. XX.
        A questão dos filhos de pai/mãe incógnito era vulgar, mas sempre de pai incógnito.
        De mãe incógnita conheci um caso, assim ficou registado por a mãe ser “vadia” e o pai
        ficar com a a criança a cargo.
        Na maioria, com centenas de casos de pai incógnito assim era pelo simples caso de não serem casados.
        A mãe incógnita em poucos casos, acontecia com mães solteiras de elevado estatuto social ou nos poucos casos de mães “vadias”.

  4. > É impossível circunstâncias destas não marcarem, de alguma maneira, a vida de uma pessoa

    Sim, mas. Não era incomum, por exemplo entre os ingleses que administravam o império na Índia e outras partes, que a prole fosse entregue a colégios internos e familiares. O P.G. Wodehouse foi um desses produtos, e os livros dele estão cheios de tias dominadores, e quase zero pais tiranos.

    Entre nós havia também colégios internos, muitos na província e alguns na cidade, e os militares, como o Instituto de Odivelas. Hoje quase se extinguiram, fruto das auto-estradas e falta de império.

    Curiosamente, tenho três biografias do Eça, antes da camarada Mónica botar escrita ao assunto. Até as li e tudo, vá-se lá saber porquê, não era caso para tanto. Não tenho fé que o intelecto da dita Mónica chegue para mais, as amostras sempre foram mais parra do que uva.

  5. Com certeza que os nascimentos ilegítimos eram largamente minoritários. A única sociedade que recordo onde isso não acontecia era Cabo Verde. Mas baptismos por fiilho de mãe incógnita, dentro da raridade, é certo, não eram de forma alguma inéditos. Deparei-me com um mal comecei a estudar a minha família e o aparente absurdo levou-me a procurar mais informação.
    Ocorriam em três casos. Em bastardias sacrílegas (quando a mãe era religiosa professa). Quando a mãe era casada com outro que não o pai e, neste caso, porque a lei era peremptória. O filho era considerado filho do marido da mãe. Era uma presunção que não admitia contraditório nem dispensa religiosa, papal que fosse. Assim a única possibilidade do casal adúltero era a filiação paterna natural e assento por mãe incógnita.
    A terceira situação, a mais rara e que seria a de Eça, ocorria quando a família da mãe era ou considerava-se de categoria social superior e, mesmo perante a maternidade, recusava autorização para o casamento. Difícil de entender nos nossos dias.
    Nunca me interessei por esse caso mas, pelo que aqui li, parece claro que Eça foi afastado do convívio familiar porque a sua idade faria patente a irregularidade do nascimento. Por norma (e alguma experiência) sou extremamente cauteloso em julgar situações doutros tempos por padrões hodiernos e se, neste caso, parece certo que a mãe de Eça sacrificou o convívio com o filho à preservação da reputação, não estou nada certo que o possa ter feito por egoísmo. É que, nesse tempo e nesse meio, o opróbio estender-se-ia a toda a família e os próprios irmãos mais novos de Eça, teriam sido prejudicados.

    1. Sim, a mãe de Eça teria as suas razões, as convenções sociais eram terríveis. Não se sabe bem porque este caso correu assim, nem porque os pais casaram apenas quatro anos depois do nascimento desse filho. A revista adianta a hipótese de as famílias não se darem. A mãe de Eça já não tinha pai, na altura, mas a sua mãe terá recusado o casamento, preferiu que a filha desse à luz em segredo e entregou o neto a uma ama. E assim o casamento só se terá realizado após a morte da matriarca, precisamente, em 1849.

  6. Esqueci-me de uma quarta situação. Quando o pai pretendia cuidar do futuro do filho, no limite pedir para ele a legitimação régia que permitia que fosse seu herdeiro, mas não queria qualquer ligação à família da mãe. Esta era despachada com dinheiro ou alguma garantia de sustento e o baptismo por mãe incógnita prevenia que a família materna viesse mais tarde reclamar alguma coisa.

    1. Sim, os meus pais conheceram um caso assim, nos anos 1960, na aldeia do concelho de Castelo de Paiva, onde viviam, na altura (e onde eu nasci). Tratava-se da filha de uma criada e do patrão. Este tomou a filha a seu cargo e exigiu que ficasse registada com “mãe incógnita”.

      1. Obrigado a ambos pela luz sobre o assunto. Acho convincente o ser “afastado do convívio familiar porque a sua idade faria patente a irregularidade”, que não me tinha ocorrido de todo.

  7. Carolina Augusta Pereira d’Eça talvez não tenha sido a mãe biológica de Eça de Queirós. Quanto ao resto, gostei bastante do conteúdo.

      1. Ou então, tendo Eça de Queiroz nascido antes do casamento dela, Carolina de Eça, com o marido, T. Queiroz,e naquele secretismo todo, não teria como explicar aos familiares e suas relações sociais o surgimento daquele jovem no seio da família… Naquele tempo e extracto social — católicos de certa fidalguia — ter um filho pré-matrimonial era um escândalo dificílimo de gerir. A solução foi a que aconteceu: criar o rapaz junto de parentes do pai e em colégio privado, afastado do casal e dos filhos legítimos.
        José Hermano Saraiva também aventou a hipótese de Eça ser filho de Teixeira de Queiroz e de uma mulher casada, talvez casada com um homem idoso e a abeirar-se do final da vida. TQ prometia-lhe casamento logo que tal fosse possível (logo que ela enviuvasse), casamento esse que logo legitimaria filiação do rapaz, sem necessidade de haver um processo de justificação filial (um filho adulterino, por lei, era considerado filho do marido e não do amante da mulher que o teve — como sucedeu com o Manuel Augusto Plácido Pinheiro Alves, primeiro filho de Ana Plácido e Camilo, nascido quando ela ainda estava casada com o primeiro marido; aliás foi por esse motivo que o rapaz foi herdeiro do depressa falecido Pinheiro Alves, herdando a propriedade e casa de São Miguel de Seide, ele que não tinha pinga do sangue do marido enganado!). Esse casamento não veio a acontecer (por ela não ter enviuvado, ou por os amantes terem decidido não se casar). TQ veio a casar com Carolina de Eça, 4 anos depois, em 1849, senhora que na realidade não era mãe, mas madrasta do rapaz José Maria. Teria sido por isso que ela (ou o próprio marido) nunca quis proximidade com o jovem Eça, pois não era filho dela. Só mais tarde, quando Eça estava noivo da filha do Conde de Resende, acedeu a considerar o escritor como sendo seu filho, ou seja adoptou-o na verdade, para o poupar a mais escândalo, e lhe possibilitar o casamento com uma fidalga.
        Muitos dos papéis particulares e a biblioteca pessoal do escritor ficaram destruídos quando naufragou o navio que os trazia de França para Lisboa. Se sobreviveram algures documentos que esclarecessem este mistério da filiação de Eça, não se sabe. Os descendentes do escritor foram sempre muito ciosos acerca da vida privada do seu notável parente. Nem sequer se sabe de que doença morreu aops 54 anos. Um misterioso problema gastro-intestinal, mas concretamente de quê, não sabe, pois não foi autopsiado.

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