Embora estando de acordo com este post do Pedro, gostaria de referir um outro poder dos jornalistas, relacionado com os títulos das notícias. Todos os dias leio títulos que desvirtuam total ou parcialmente o sentido da notícia, ou lhe conferem uma conotação ideológica.
Dedico-me, com alguma frequência, à comparação dos títulos escolhidos por diversos jornais para uma mesma notícia, exercício que aplico também em algumas acções de formação. Não se trata de perda de tempo, ou curiosidade mórbida. A maioria das pessoas só lê o título e os “leads” de grande parte das notícias, tirando a partir dele as suas conclusões, pelo que a escolha do título pode, de algum modo, “formatar” o juízo dos leitores. É uma espécie de "poder oculto" utilizado por alguma imprensa.
A comparação permite ainda tirar conclusões assaz curiosas, sendo uma delas que a escolha de um título nem sempre é inocente. Poderia aqui trazer inúmeros exemplos, mas deixo-vos apenas um, escolhido de forma aleatória, na imprensa de hoje.
“Estado gasta mais 500 milhões para suportar emprego de 760 mil pessoas”.
A leitura deste título permite diversas interpretações que deixo ao vosso juízo. Apenas gostaria de salientar que, referindo-se a notícia a um plano de combate ao desemprego ontem apresentado pelo ministério do trabalho (“Iniciativa Emprego 2010”), talvez fosse mais ajustado um título que se cingisse ao teor da notícia e evitasse interpretações dúbias. Por exemplo: “Estado disponibiliza 500 milhões para combater desemprego”. Ou então, numa versão mais curta: “Plano de Emprego abrange 760 mil pessoas”. Títulos inócuos, argumentarão alguns. Talvez… mas, pelo menos, terão a vantagem de não suscitar interpretações dúbias.

Os títulos são tudo menos inocentes. Um título assim tem outra carga dramática, implica que o Estado que está sobre endividado GASTE ( acrescido de MAIS que é como quem diz como se não bastasse o que tem vindo a gastar) e com o objectivo de SUPORTAR ( palavra que implica esforço, sacrifício mas de forma passiva) o emprego de 760 mil pessoas. Agora, COMBATE não pode ser porque dava a ideia que se estava efectivamente a fazer alguma coisa…
Concordo, Leonor, mas na verdade o programa “propõe-se” combater o desemprego. Só daqui a um ano saberemos se o conseguiu, daí que prefira o benefício da dúvida à assertividade do “Gasta” e do “Suportar”.
“ Estado gasta mais 500 milhões para suportar emprego de 760 mil pessoas”.
O título é clarinho como a água. Actualmente o Estado gasta 1,2 mil milhões no apoio às empresas que mantêm/criam emprego a pessoas que se encontram numa situação precária. A partir de agora o Estado vai passar a gastar 1,7 MM€.
Pelo seu comentário, confirmo que o título não é tão clarinho assim.
De qualquer modo, um Estado nunca pode ser acusado de “gastar” dinheiro para “suportar” o emprego. Só fala assim, quem está repimpadamente instalado num emprego e é indiferente ao drama dos desempregados.
Tem razão. ” gasta” poderia ser substituido por “investe”, “tranfere”, “disponibiliza”, “aloca”, etc. Mas para ser assim é necessário que o Jornal tenha uma linha editorial mais à esquerda.
Concluo , então, que todos esses verbos que enuncia são património da esquerda. E eua apensar, na minha ingenuidade, que a esquerda é que fazia propostas despesistas!
Exacto. Não me expliquei bem. O que eu quis dizer foi: o que à direita é visto como uma despesa, à esquerda é interpretada como um investimento.
“exercício que aplico também em algumas acções de formação”
Nas tais Novas Oportunidades e como aluno, claro. Ou não?