O pesadelo espanhol


Pedro Correia,

 

Olhemos para Espanha, nosso principal parceiro económico: como vão ali as coisas? Piores que nunca: 6.202.700 desempregados, segundo as estatísticas oficiais referentes ao primeiro trimestre de 2013 – isto é, 27% da população activa.

Seis em cada dez jovens não encontram trabalho: há hoje 2,8 milhões de espanhóis com menos de 30 anos sem emprego – números correspondentes a 57% do total. Em cinco comunidades autónomas, duas das quais fronteiras com Portugal, a taxa de desemprego ultrapassa 30%: Andaluzia com 36,87%, Extremadura com 35,56%, Canárias com 34,27%, Castela-La Mancha com 31,51% e Múrcia com 30,37%.

Há na Andaluzia já mais desempregados do que em toda a Grécia. A nível provincial, o recorde vai para Cádis, também na Andaluzia: 42% de desempregados.

 

Desde que começou a crise, em Agosto de 2007, o flagelo do desemprego passou a atingir mais 4.410.800 pessoas, o equivalente à população somada da Extremadura, Baleares, Aragão e Astúrias, e foram destruídos quase 3,2 milhões de postos de trabalho só no sector privado. Desde que o anterior primeiro-ministro, Zapatero, deu lugar a Mariano Rajoy desapareceram 1.117.800 – à média de 2579 por dia e 107 por hora. E o Governo já admite que a situação não será invertida durante a actual legislatura, iniciada em Dezembro de 2011.

 

Restam hoje apenas 16,6 milhões de empregos, enquanto no terceiro trimestre de 2007 havia 20,5 milhões. E, dos que restam, há muitos precários: 15% dos espanhóis ainda empregados recebem à hora. A noção de precariedade dos postos de trabalho consolida-se a cada dia que passa, multiplicando los lunes al sol, título de um perturbante filme de 2002, espantosamente visionário.

Outro registo muito preocupante: a soma dos desempregados e pensionistas (15 milhões) está extremamente próxima do número daqueles que ainda têm emprego (16,2 milhões). Nunca esta diferença foi tão reduzida.

Pior: existem 1,9 milhões de lares espanhóis em que todos os seus membros estão sem trabalho remunerado.

Pior ainda: nos últimos seis meses deixaram de existir 80.200 lares – algo nunca antes registado nesta escala. “A crise tem reagrupado as famílias”, noticia o diário El Mundo, que tinha uma manchete bem expressiva na sua edição de ontem: “O recorde da vergonha”.

 

São números aterradores, espelho fiel de uma receita que falhou. Prossegui-la é desembocar no desastre: como Santiago González escreve na sua coluna de hoje, também no El Mundo, Hitler chegou ao poder precisamente quando a Alemanha acabara de ultrapassar a cifra dos seis milhões de desempregados.

Manter esta receita é fomentar a revolta daqueles que, sem nada, estão dispostos a tudo. Atribuir-lhe a caução de instituições como a União Europeia e o Banco Central Europeu é implodir o projecto europeu, condenando-o a um irremediável fracasso – e fazer a Europa recuar 80 anos. À década de 30, precisamente. Lembrem-se do que ocorreu em Espanha nesse período de má memória: uma guerra civil com um saldo sangrento de mais de 600 mil mortos. O franquismo acabou por conduzir ao pleno emprego, mas à custa da asfixia de todas as liberdades essenciais e de movimentações maciças de espanhóis para os destinos da emigração, com destaque para a França, a Alemanha e a América Latina.

Jean-Claude Juncker bem avisou, recentemente: os piores fantasmas da História podem sempre voltar.

 

Imagem: fotograma do filme Segundas-Feiras ao Sol (2002), de Fernando León de Aranoa, com Javier Bardem e Luis Tosar

8 comentários em “O pesadelo espanhol”

  1. Não entende que não tem nada que ver uma coisa com outra. Não aprendeu nada com Sócrates, nem com os últimos 40 anos.

      1. O Dinheiro não resolve o problema.
        Será que em 6 milhões de pessoas ninguém consegue fazer uma coisa de útil para o outro?
        É essa a questão.

        1. Espanha – o nosso principal parceiro comercial – é o país desenvolvido com mais desempregados em todo o mundo e o seu comentário resume-se a isso? Tenho a certeza de que é capaz de melhor.

  2. Pedro,

    a Alemanha ainda não se deu conta que está bem próxima de ficar de joelhos. Quando isto acontecer completa-se o ciclo. Os países ditos em desenvolvimento não terão capacidade de gerar riqueza para a sua população, e ficaremos bem mais próximos do Armagedon.
    Avancemos para outras realidades pouco discutidas: Já tinha comentado, ali no blogue de Luís Menezes Leitão, que, sob pena de o Chipre se transformar numa base Russa, este país teria de ser resgatado. Se reparou bem, durante esse período o presidente Obama desloca-se à Jordânia, oferecendo apoio a este país para acolher refugiados sírios, vai a Israel, colocando este país a pedir perdão ao aliado turco, e segue para o seu país. Entretanto, semanas antes, os franceses e ingleses contestavam o facto de se embargar o fornecimento de armas aos rebeldes sírios, estando eles dispostos a avançar com apoio aos mesmos. Quando tudo parecia conduzir a uma acção na Síria um novo player, muito próximo dos Russos e Chineses, entra em acção, a Coreia do Norte. E da Síria e da Coreia pouco se houve falar.
    Estou convicto que o sinal foi o seguinte: não dancem muito em torno da Síria porque arrajaremos sempre maneira de vos entreter, e de uma forma bem mais grave.
    Se somarmos isto ao que vem acontecendo em torno das políticas ditas de austeridade, que têm buscado enxugar os recursos aos países em dificuldades – e não só Portugal, Grécia, Irlanda, Chipre… – penso que temos uma noção do que poderá acontecer nos tempos mais próximos; para isso é necessário colocar países sob alçada de um não sei quê para evitar contestações.
    Uma pequena dica, se quiserem ver sobre a evolução da economia mundial basta olhar para a quebra na aquisição de metais, em particular o ferro, e também do petróleo.
    Se depois disto me disserem que a austeridade, nos moldes em que tem sido aplicada, deve continuar, só me restará concluir que todos desejam a catástrofe, e ela virá.

    1. Na minha perspectiva, o maior problema é o projecto europeu – que garantiu 70 anos de paz no continente – acabar por implodir. E para implodir basta a moeda única frgmentar-se em duas ou três por total incapacidade de fazer acompanhar a união monetária com passos concretos para a união política.
      Os passos que vemos, dia a dia, vão na direcção inversa. Não admira, por isso, que o ‘não-partido’ de Beppe Grillo tenha obtido 25% nas últimas eleições italianas, que os eurocépticos do UKIP, liderado por Nigel Farage, sejam já a terceira maior força política nas sondagens do Reino Unido, e que a grande novidade nestes meses que antecedem as legislativas alemãs seja a subida nas intenções de voto do novíssimo partido Alternativa para a Alemanha, também eurocéptico e que propõe a retirada imediata do país da moeda única e o regresso ao marco.

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