O perigo das políticas de extrema-direita


Tiago Mota Saraiva,

(publicado no i a 21.02.2014)

Uma das mais recorrentes mistificações é a confusão que se faz entre Europa e União Europeia. A Europa é um continente que, salvo acidente geográfico, tenderá a permanecer estável por muitos e bons anos. A UE é a expressão institucional de uma associação de Estados.
Não me competirá neste texto filosofar sobre as intenções inerentes à criação da CEE ainda que seja justo reconhecer que os objectivos iniciais pareciam diferentes. Contudo o poder vigente – um centrão partilhado entre Populares e Socialistas (onde se inscrevem PS, PSD e CDS) – parece  ser bem mais perigoso para as democracias que a escalada de partidos de extrema direita.
Os mecanismos de eleição directa têm vindo a ser reduzidos a um parlamento cada vez com menos poderes e as políticas centrais dos Estados têm deixado de passar por organismos tutelados directamente pelos povos. Por outro lado, o discurso dos governos do centrão em países mais poderosos pulula de preconceitos xenófobos – das diatribes de Merkel sobre “os do Sul” à cedência do “socialista” Valls a algumas bandeiras da FN.
Lampedusa e as políticas territoriais no Mediterrâneo ou o apoio ao governo ucraniano e turco revelam que a UE não se posiciona, por princípio, do lado dos valores humanistas ou dos poderes democráticos.
Se, em Portugal, não se costuma estabelecer uma correlação entre as políticas da UE e os partidos que estão integrados nas duas famílias que a governam é revelador que seja o actual líder do PS que proponha uma revisão do sistema de representação para diminuir a expressão crescente dos partidos que não inscrevem no centrão.
Aumentar artificialmente o número de representantes do partido mais votado ou bloquear a eleição de representantes dos que não obtenham determinada percentagem, círculos uninominais e diminuição do número de representantes eleitos, não são formas de aproximar o eleito do eleitor, mas de retirar representatividade e pluralidade às instituições de representação directa.

7 comentários em “O perigo das políticas de extrema-direita”

  1. Julgo que a questão não será exactamente esta. No caso da França, a extrema-direita, até agora uma simples forma de protesto, atinge uma dimensão que lhe permite ascender ao poder, podendo vencer em duas ou três regiões. É também o dilema da actual situação nacional: temos uma aliança entre um partido de poder, o PS, e um que pode ter vocação de poder, o BE, mas ainda um terceiro que é claramente de protesto, o PC. De alguma forma, o PC tem de decidir se quer ser protesto ou poder, se faz greves no metro ou se dá cem dias de estado de graça a Costa.

    1. Viva Luís, quanto à tua segunda parte do comentário parece-me que terá ficado desactualizada. No que respeita à primeira parte, a minha tese é que o PSF ou o Sarkozy já imprimiam lógicas muito caras à extrema direita. E, na verdade, não lhes ocupou o espaço político mas sim abriu caminho para esta triste realidade.

  2. ” …. círculos uninominais e diminuição do número de representantes eleitos, não são formas de aproximar o eleito do eleitor, mas de retirar representatividade e pluralidade às instituições de representação directa….”

    Sim “circulos uninominais … ” retiram representatividade às instituições (partidos) de representação INDIRECTA. E devolvem-na ao eleitor. Como tem que ser. (Excepto como era na ex URSS e China comunista)

    A grande irresponsabilidade do exercício da política em Portugal, e cujas consequências têm sido catastróficas pré-bancas rotas e desigualdes sociais gritantes é essa INDIRECTA representatividade.

  3. “Lampedusa e as políticas territoriais no Mediterrâneo ou o apoio ao governo ucraniano e turco revelam que a UE não se posiciona, por princípio, do lado dos valores humanistas ou dos poderes democráticos.”

    Isso são palas ou é profunda ignorância sobre o trabalho da UE (por todo o mundo), os valores que representa e promove. Está a esquecer-se que respira e escreve disparates na zona do mundo mais próspera para se viver? Pegar nesses dois exemplos antagónicos e irrelevantes face a todas as conquistas da UE e ao seu trabalho é demagógico e de profunda má fé, ou se preferir, palas ou ignorância.

  4. Parlamento com menos poderes? Na UE a ultima fornada tem os poderes mais alargados de sempre; em Portugal o P. foi e é determinante como nunca depois do 25 abril para a governação.
    Os elitores estão mais que fartos de manifestar a vontade de que a seita instalada reduza o numero de lugares pagos no P. Como bons golpistas e chupistas fazem ouvidos de mercadores; dai os 43% de abstenções que são devidamente desvalorizadas pela Brigada das Colheres a volta do tacho publico

  5. Havia dois extremistas fanáticos a discutir. Um extremista dizia que 2+2=4, o outro dizia que isso era um disparate e que a verdade era que 2+2=6. Então chega um moderado e diz que a virtude está no meio e por isso 2+2=5.
    Mas ok, partindo do princípio manequeista que a política é dividida entre moderados bons e extremistas maus, desde quando o PSD e/ou Passos Coelho são de extrema-direita ou neoliberais? Não é neoliberalismo fazer o maior aumento de sempre de impostos e renacionalizar empresas estatais ao Partido Comunista Chinês. Na RTP Memória dá o contra-informação e eu vi e lembrei-me que desde meados dos anos 90 que o PCP e o “Cassete Carvalhas” acusa o PS de piscar à direita, de se ter vendido ao capital de ser um partido que de esquerda não tinha nada. A mesma acusação que o PCP sempre faz ou sempre fazia ao PS, o PS faz ao PSD. Acusa-me todos uns aos outros de serem de direita e no final ninguém. Em relação à Marine Le Pen, eu confesso que se fosse francês a apoiava. Se a Marine Le Pen fosse de esquerda, os críticos dela seriam todos rotulados de machistas.

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