O pecador arrependido.


Luís Menezes Leitão,

 

Mostrando que não tem vocação para imitar Durão Barroso, que chegou a ameaçar o seu próprio país de que estaria o caldo entornado se não fizessem o que a troika mandava, Jean-Claude Juncker assume o papel de pecador arrependido. Veio assim reconhecer que a Comissão Europeia pecou contra a dignidade de Portugal e Grécia. Só lhe faltou dizer as palavras sacramentais: “Confiteo Deo omnipotente, omnibus sanctis et vobis frates quia peccaui nimis cogitationes, verbo et opere, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa“.

 

Perante esta confissão integral e sem reservas, só poderíamos esperar que a União Europeia viesse a responsabilizar-se formalmente, assumindo todas as culpas pelos pecados cometidos contra Portugal e Grécia. Efectivamente, os memorandos de entendimento celebrados com a troika foram um exercício de sadismo e punição, só comparáveis ao contrato de submissão das 50 Sombras de Grey. Não admira por isso que os gregos queiram fugir a correr desse contrato enquanto que Schauble grita furiosamente que o mesmo há-de ser cumprido até ao fim.

 

Já Portugal, que há poucas semanas era considerado como tendo perdido ímpeto (et pour cause!), agora passou a ser visto por Schauble como um exemplo a seguir. Comovido com o elogio, já veio o Ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares considerar infelizes as declarações de Juncker já que a dignidade dos portugueses nunca foi beliscada. Beliscada de facto não foi. Chicoteada foi seguramente. Mas pelos vistos há quem ache, mesmo perante o arrependimento dos outros, que ainda não foi suficiente.

0 comentários em “O pecador arrependido.”

  1. Palavras do ex-patrão do Eurogrupo. Se ele o diz, quem sou eu para o contradizer…

    Agora só há que esperar para constatar, nas próximas visitas semestrais da Troika, a vinda ao Terreiro do Paço do con, de Madame Lagarde e de Draghi. Eu espero sentado.

  2. Vale mais um pecador arrependido e que confessa o seu arrependimento do que pecadores que perante as evidências continuam a pecar.

  3. Aqui há gato : ainda não se lhe vê o rabo, mas que há gato, e dos grandes, não nos reste a menor dúvida.
    A não ser que o “estado de alma” tenha graduação ( vox populi)…

    1. A questão é simples… em que se traduzem as palavras de Juncker?
      Junkers ligou a água morna, para o discurso dúbio, onde tanto erra antes, como erra agora, como poderá errar depois. Esse é o terreno pantanoso, onde a escumalha sem princípios, usa de todos os meios, para os seus fins.

      Portanto trata-se de uma simples frase de agrado de opiniões televisivas, ao estilo polícia bom versus polícia mau.

      Ou como o próprio Junkie já explicou:
      “When It Becomes Serious, You Have To Lie”

      http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/eu/10874230/Jean-Claude-Juncker-profile-When-it-becomes-serious-you-have-to-lie.html

  4. O acto de contrição de Juncker que está a entusiasmar tanta gente como é o caso do ilustre autor do post, pode vir a revelar-se nefasto para as relações da Comissão com as outras instituições europeias e causar sobrolhos franzidos junto das opiniões publicas de uns quantos países, incluindo o seu e que costumam passar os cheques.
    Quer dizer, declarações que servem apenas para dizer que quem manda na Europa é ele, mais ditadas pelo coração do que pela cabeça, o presidente da Comissão não pode em caso algum confessar que “je suis un con pour dire ça”, abriram feridas muito dificeis de sarar.
    Resta saber se amanhã o Eurogrupo acompanha a visão de J-C Juncker, ou se volta a dar sopa à dupla Tsipras/Varoufakis. Neste caso tanto bater no peito não terá servido para nada, e a posição do presidente da Comissão ficará ainda mais fragilizada do que já estava.
    P.S. O Luxemburgo leaks só foi tornado publico há pouco mais de três meses. Ficamos a aguardar o mea culpa do ex 1º ministro do Luxemburgo sobre o caso, e como pensa compensar os países, incluindo Portugal, que foram roubados em milhares de milhões de euros pela ganância dos dirigentes de um pequeno país que tem os melhores indíces de bem estar social da Europa.

    1. A mim não me entusiasma nada o Sr. Juncker, nem qualquer outra coisa que resulte desta defunta União Europeia, que neste momento só serve para mascarar a tomada dos países pequenos pelos grandes. Mas não vejo em que é a posição do presidente da comissão fica fragilizada em não ser o caniche de Merkel, como Durão Barroso foi. Já se sabe que não conta para nada, mas pelo menos sempre faz algumas declarações para “épater les bourgeois”. Quanto ao Eurogrupo, já se sabe que a Alemanha disse não à proposta grega ainda antes de qualquer discussão sobre a mesma. Resta saber se os restantes Estados ainda contam para alguma coisa ou se vão limitar a ser a voz do dono.

      1. Eu falai no acto de contrição do sr Juncker, não falei da pessoa do sr Juncker. Quanto ao documentozinho apresentado pelos gregos, aquilo é mais do mesmo, portanto não me parece que seja dificil dizer não antes de o discutir.
        Por outro lado, acho muito redutor dizer que recusar o que os gregos querem, mais dinheiro sem contrapartidas, é ser a voz do dono.
        Já há países do Eurogrupo que defendem abertamente a saída da Grécia do euro, e eu, modestamente, também acho que ficávamos todos a ganhar muito com isso.
        O que se tem passado nas últimas semanas é um pálido retrato do que se vai passar daqui a seis meses, portanto corta-se já o mal pela raíz.

  5. Isto não passa d’uma manobra de diversão… Uma tentativa de expiar os pecados dos “impostos” das multinacionais no Luxemburgo… Isso sim, causou incalculáveis prejuízos à Europa…

    Outra manobra é ceder à vontade imposta pelos gregos: – “Não queremos a troika”…

    O mais patético no meio de toda esta politica porca é o PS, que chamou e negociou com a troika, vir agora dizer : ” Eu não vos disse!

  6. Como eu gostava de ter muitos arrependidos! Era sinal que o homem não perdeu a razão, nem a dignidade que é coisa rara, nesta UE. Mais difícil, é saber que Portugal, tem um governo que em nada nos lisonjeia, mas em contrapartida nos envergonha, de tanta mediocridade. Junta-se aqueles que que não olham a meios, para atingirem os fins, nem que para isso, escravizem os povos em favor do capital. É difícil engolir que Portugal, país pobre que não pagou um cêntimo da dívida e que o ministro alemão das finanças, elogie um governo que nada fez a não ser, pagar juros brutais, destruir a economia do país, vender tudo a preço de saldo e pôr o país cada vez mais pobre. Quando alguém, gaba o governo português de ser um bom exemplo, na pior das hipóteses, perdeu a noção da realidade ou quer-nos fazer a todos, de doidos varridos. Se há coisa de que esta UE, se pode gabar, é de enganar os povos e fazer dos mesmos cobaias, duma UE de políticos que se submetem a uma Alemanha que parece que aprendeu muito pouco, com o seu negro passado e quer mais mortandade. Que todos os pecadores, se arrependam das asneiras que fizeram e aí, sim, estaremos no bom caminho.

  7. Foi especialmente beliscada e chicoteada quando aquele mitómano dos PECs (e um inteiro partido, mais uma fatia substancial das “elites” ditava amens de boca aberta..) passa a “procuração” á ‘troika’, isto quando semanas antes tinha ‘encomendado’ o alardeio, pela ‘xuxa’ prensa da capital em titulo garrafal “O FMI já não vem!”. Nos entretantos, pareceu que foi ao Quatar, ou pondo a Sra. Rousseff em Coimbra a ensinar aos jornalistas ‘tugas’ que os títulos de dívida que o Governo Brasileiro podia comprar tinham de ter ratings acima do pré-lixo.

    É beliscada e chicoteada quando nos contam as narrativas que a culpa é da ‘banca internacional, da City e de Wall Street’, e depois se vão “descobrindo” PPPs, TGVs, BCPs, BES, PTs, hospitais privados catitas sustentados pelo publico funcionariado,hospitais publicos alegremente falidos, a Educação Corporatizada, e ver o quanto, tanta das “elites” viviam destes abanares e esfarelares deste “bolos ” enquanto se mandavam pessoas para o desemprego, empresas faliam, e a prosperidade, para quem por azar ou opção, não caia na roda do Estado e para-Estado, tinha de ser procurada fora de portas.

    Disto o Sr. Juncker sabe pouco, ou nem sabe, pelo que se calhar se desculpa a sua “auto-ironia” e desabafo descalibrado sobre a “dignidade”. Os outros, que sabem ou deviam já saber, tem menos, senão nenhuma desculpa.

    Jorg

  8. Aqui vai para todos, mas especialmente para os mais jovens que eu e que agora começam a viver: 2007 contraí um empréstimo habitação. Antes de sequer procurar casa fui ao ”meu” banco fazer a simulação daquilo que seria a base da minha vida. Então emprestavam até x com uma prestação de x. Fiz contas pelo cenário mais negativo e procurei uma casa de preço muito inferior ao montante que o meu banco propôs-se a emprestar-me. Resultado: comprei uma casa velha para ir concertando ao longo da minha vida, não comprei carro xpto nem smartphone, nem fiz viagem – nada, apenas casa mais barata que encontrei.
    Em 2007 ainda havia quem comprava casa nova, que, como que numa azafama – numa corrida provocada, ora pelas ilusões da publicidade ora pela inveja – compravam tudo o que viam como se não houvesse amanha, como se a única coisa realmente importante era ter luxos materiais iguais ou melhores que o vizinho ou que o colega de trabalho. Enquanto andavam todos vaidosos, mesmo que tivessem de comer sandes de queijo olhando para uma tv de milhares de euros, negavam o monstro que estavam alimentando. Interessavam-se apenas pelo prazer de ser o melhor do momento por poderem sentir que tinham o melhor do momento e como viciados dedicavam-se afincadamente a inventar uma forma de contornar o sistema para arranjar maneira de manter a pedalada na corrida mais estúpida do ocidente. Foram famílias, empresas, Freguesias, Câmaras, Governos, tudo a inventar para manter a pedalada dos fortes, mas com dinheiro emprestado e apenas apostado em lixo sem qualquer valor e capacidade de retorno do investido: criaram um país de mentira, uma estética do faz de conta que existe e é real, mas não era.
    Esta foi a corrida mais estúpida do século que os papás 25/4 correram e acabaram hipotecando a nossa e a vossa vida.
    Agora pagamos todos. Até eu que nem smartphone cheguei a ter, pago pela estupidez dos outros.
    Lição a aprender: a verdadeira riqueza, aquela que dificilmente podem-nos tirar, é a que construímos com o nosso amor, com o nosso suor e com as nossas mãos, o resto mais tarde ou mais cedo, termina numa grande desilusão.
    Por isso sejam todos bem vindos à verdade e vejam este “arrependimento” de Juncker com uma boa dose de desconfiança, e se está realmente arrependido o melhor que faz é afastar-se do papel que representa.

  9. Parece que a frase integra o seguinte contexto, que não foi transmitido por qualquer televisão em Portugal “Eles [os membros da troika] sempre disseram que não foram confrontados por políticos, mas sim por funcionários. Não quero criticá-los, mas não se pode dizer que um ministro seja um funcionário. Temos que os colocar na esfera da Comissão ou sob a autoridade do presidente do Eurogrupo. Pecámos contra a dignidade das pessoas na Grécia, em Portugal e por vezes na Irlanda.” Parece, assim, que a contrição do Sr. Junker se dirigia a aspectos procedimentais e não a aspectos substanciais dos programas de assistência. Aspectos esses que, aliás, já tinham indignado, por exemplo, o Sr. Paulo Portas, que também não apreciou receber instruções de funcionários, tanto mais que divergiam dos discursos dos dirigentes dos organismos a que pertenciam. Parece, também, que a nossa imprensa é composta por gente pouco séria que não hesitam em truncar e dexcontextualizar declarações para criar factos políticos, para depois serem comentadas por opinadores descuidados. A falta de menção a esta “contrição” do Sr. Juncker na imprensa internacional de referência (a comçar pela irlandesa, outros putativos lesados na sua dignidade) devia dar razões para desconfiar.

  10. Aqui o escrivão de serviço também deve valer tanto o que diz como o que disse sobre o roubo que andou a promover a todos os países da mesma UE que teima em ter um macaquinho dócil em Bruxelas em vez dum político com estatura. Talvez com medo das consequências?.

  11. O autor continua a um nível de Populismo tão extremo que a linguagem se aproxima do newspeak retratado por Orwell.

    Mais uma vez ficamos a saber que quem paga uma dívida que vendeu a quem confiou em si é mau.

    A palavra de uma pessoa, uma comunidade, um país é lixo para ser deitada fora por este socialismo anti-social.

    E quem concordou em ser ajudado pelo credores com um novo empréstimo para não falir com diversas condições é apelidado de responder à voz do dono e outros epítetos num nível primário de conversa de recreio de escola entre grupos rivais.

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