Depois de há uns dias termos analisado a situação do Bloco de Esquerda cabe agora prosseguir nesta análise aos diversos partidos políticos, examinando agora o estado do Partido Comunista Português, nas vésperas de mais uma Festa do Avante e mais tarde de um novo Congresso. Uma análise ao PCP é um exercício muito complexo, não apenas pela sua longa história (existe desde 1921) mas também pela sua tradicional opacidade, sabendo a opinião pública muito pouco sobre eventuais discussões internas. Ao contrário do que proclamou Cunhal, o PCP nunca foi um “partido com paredes de vidro” e continua a não o ser. Mas ao mesmo tempo, o PCP não tem nada a ver com os restantes partidos comunistas europeus, tendo conseguido sempre aliar uma rigorosa ortodoxia pró-soviética a uma profunda raiz nacional.
A implantação do PCP no país foi curiosamente potenciada pelo Estado Novo que, quando conseguiu a dissolução de todos os partidos políticos e nunca quis atribuir à União Nacional esse estatuto, deixou o PCP como o único partido existente no país, com uma enorme rede de militantes que funcionava na clandestinidade. Quando nos tempos da ditadura alguém falava sobre “o partido” só podia estar a referir-se ao PCP. A Revolução de 25 de Abril apanhou por isso o PCP com uma estrutura organizada capaz de travar um imediato combate político. A confusão de Pedro Feytor Pinto, quando Salgueiro Maia o manda ir ter com o PC (posto de comando) e este pergunta: “Já!?“mostra bem a consciência de que na altura se tinha de que a queda do regime implicaria o imediato avanço do PCP.
E de facto o PCP estava preparado: parou naturalmente todas as tentativas de Spínola e foi a “muralha de aço” de Vasco Gonçalves nos tempos do PREC. Mas quando o país quase avançava para uma guerra civil, Cunhal soube recuar, deixando cair Vasco Gonçalves, e apostando na via institucional através da aprovação de uma Constituição revolucionária. O PCP entrou assim no regime democrático com um enorme poder, com uma Constituição que consagrava a sua ideologia, um razoável grupo parlamentar e um enorme peso nas autarquias e nos sindicatos. A sua fraqueza eram, no entanto, sempre as presidenciais tendo o partido ficado traumatizado com a fuga da maior parte do seu eleitorado para Otelo em 1976, quando tinha apoiado Octávio Pato. As candidaturas presidenciais posteriores de Carlos Brito e Ângelo Veloso foram apenas para desistir. Mais tarde o PCP passou a usar as presidenciais para testar novos líderes, como Carlos Carvalhas e Jerónimo de Sousa. É cedo para saber se também foi isso o que se passou com Francisco Lopes.
A queda do bloco soviético e a substituição de Álvaro Cunhal poderiam ter sido mortais para o PCP. O primeiro fenómeno afectou a envolvente internacional do partido. Quanto ao segundo, nunca seria fácil substituir alguém que tinha uma aura de verdadeiro mito pela sua enorme capacidade intelectual, sentido político e poder de resistência, testados durante anos como preso político. A aposta inicial em Carlos Carvalhas não foi muito feliz, mas Jerónimo de Sousa revelou-se claramente um enorme sucesso político. Não apenas possui uma imagem simpática ao eleitorado tradicional do PCP, devido às suas raízes operárias, como é capaz de produzir sound-bytes mortais no Parlamento. Frases como “mais troikista que a troika” ou “oh Senhor Primeiro-Ministro, você sabe lá o que é a vida!” são politicamente muito mais mortíferas que as apreciações económicas de Francisco Louçã, apesar do seu inegável brilhantismo.
É por isso que esta conjuntura me parece muito mais favorável ao PCP do que ao Bloco de Esquerda. O Bloco de Esquerda pode ter ultrapassado uma vez o PCP no Parlamento, mas não tem qualquer implantação autárquica nem nos sindicatos. Por outro lado, o seu eleitorado é extremamente permeável ao voto útil no PS, praticamente se confundido com a ala esquerda deste nas questões fracturantes. Pelo contrário, o PCP tem uma raiz ideológica forte e um grande peso a nível local e nos sindicatos. Ora, quando as propostas da troika passam por uma regressão nos direitos laborais, tendo até proposto na Grécia o regresso à semana de trabalho de seis dias, é evidente que se proporciona ao PCP um terreno muito favorável para o seu combate político nos próximos tempos. A festa do Avante vai ser o tiro de partida.


O Bloco de Esquerda chegou ao topo por causa do Euro , do Crédito Fácil e dos Jornais.
O Euro deu a segurança para o país se voltar para tudo menos para a economia e contas publicas.
Crédito fácil só possível com o Euro e a reputação Alemã mascarou todos os problemas como a recessão em que estamos já há mais de 10 anos, logo as decisões difíceis ficam para década seguinte, esta em que estamos.
Os jornalistas vindos de uma cultura de esquerda na educação – cultura marxista leninista mas sem a chata disciplina comunista – entraram nas redacções nesse período.
Logo estava feito o caldo que levou o Bloco ao cimo.
No apogeu essa cultura até teve direito a protecção da GNR para destruírem propriedade privada.
“tendo até proposto na Grécia o regresso à semana de trabalho de seis dias”
mais uma patética ideia que o problema é quantidade como o caso dos feriados…ao mesmo nível daqueles que pensam que mais dinheiro resolve as graves distorções na economia europeia e americana.
Muito boa análise. Despertou-me a curiosidade pelos restantes partidos…
Apenas algumas considerações:
Com a passagem à clandestinidade o PCP adquiriu a organização que lhe permitiu viver, e sobreviver, ao período do Estado Novo. Após o 25 de abril manteve a sua organização e logo nas primeiras eleições, talvez ao contrário do que esperavam, ficou como terceira força política. Depois de 89, pelo carisma de Cunhal, manteve a sua ideologia marxista e com isso, que na altura foi entendido como um erro, manteve a sua base ideológica, que lhe permite hoje continuar com um eleitorado sólido nas eleições legislativas. Acho que exagera na importância autarquica do PCP.
Hoje em dia o PCP tem acima de tudo uma função tribunícia no panoramo político.
Parabéns, fez uma síntese perfeita sobre este partido. Sim, é correcto o que afirma sobre as diferenças estruturais do PCP e do BE. O PCP compreende, interpreta e integra de tal forma a raíz popular que, mesmo no período mais revolucionário, em que se questionavam tradições e se apresentavam concepções sociais aparentemente antagónicas, nunca mecheu com as crenças e a religiosidade nacional. Isto é uma prova de grande sabedoria e percepção do que souberam colher do período da implantação da República. Recorde-se a crise entre a Igreja e a República, com Fátima, posteriormente, a “intrometer-se”.
Louça, como já tinha dito num comentário anterior, necessitaria de alguém como o Miguel, por ser capaz, entre outros grandes atributos, com desprendimento e empatia, de aglutinar e estabelecer a ponte com esta diversidade.
Quando me referi a alguém mais “terráqueo” queria dizer alguém que seja capaz de tirar o fato de trabalho destes novos operários – os técnicos -, quer seja na área da economia, saúde, sociologia etc. etc. etc., e entrar pelo coração de cada um. Não esqueçamos que nós somos um povo de coração, por isto mesmo é que somos mais tácteis nos nossos encontros (abraços, beijos, palmadas nas costas, segurar a mão de alguém fragilizado, longos apertos de mão…).
Muito interessante, de facto.
Todavia, não sei se o BE e o PCP evoluirão dessa maneira. Quando digo isto quero mesmo dizer que desconheço, porque há riscos ascendentes e descendentes para cada um.
Se é verdade que o PC tem à partida a lucrar com a deterioração da conjuntura económica, também o é que isso já devia ter acontecido. O facto de ainda não ter sucedido indica que a situação actual talvez tenha algumas nuances. Acresce que a base eleitoral do PCP é, como se sabe, extremamente rígida (para o bem e para o mal). Há muitos eleitores que se recusam a votar PCP.
Do mesmo modo, também a evolução do BE oferece algumas dúvidas. O BE é um partido pouco maduro. Economicamente em (quase) nada se distingue do PCP. Não quero com isto dizer que os eleitores do bloco não se revêem nas posições económicas do partido. Mas votam nele primordialmente por outros motivos, nomeadamente o estilo de fazer política, as questões de costumes, etc. Numa altura em que as preocupações dos cidadãos se resumem à economia, é natural que estes prefiram o original (PCP) à cópia. Todavia, embora considere esse evento pouco provável, não é impossível que o BE capitalize o descontentamento popular do mesmo modo que o Syriza fez na Grécia, algo que o PCP nunca conseguirá.