O Património Cultural Imaterial de Portugal


Rui Rocha,

Pelo visto, o ministro das Finanças e a ministra da Cultura constituíram, há cerca de um ano, um Grupo de Trabalho com o objectivo de realizar  um levantamento do património cultural imaterial português. De acordo com as notícias postas a circular, os membros do Grupo de Trabalho, para além de realizarem uma reunião e de receberem 209 mil euros, não fizeram rigorosamente mais nada. Perante isto, imagino que se terá levantado já um coro de condenação. Parece-me uma reacção apressada e injusta. Creio, na verdade, que estamos na presença de patriotas. Explico-me. O objectivo do trabalho era extremamente difícil de concretizar. Se o próprio património material, tal como o país, está em ruínas, não se vendo forma de o reerguer, imagine-se a dificuldade de levantar o património imaterial com todo o peso que ele deve ter. Não há costas que aguentem. Perante isto, o Grupo de Trabalho encontrou uma solução que considero genial. Sendo o âmbito do trabalho «as tradições», «as manifestações de carácter performativo» e «as práticas sociais, rituais e eventos festivos», não existe em Portugal nada mais representativo destas realidades do que o compadrio e o regabofe. Perante esta evidência, os membros do Grupo de Trabalho decidiram receber sem nada fazer, oferecendo ao país um exemplo vivo desses elementos fundamentais do nosso património cultural imaterial. Um testemunho inesquecível, sistemático e tendencialmente exaustivo que cumpre integralmente os objectivos traçados pelos Senhores Ministros.

6 comentários em “O Património Cultural Imaterial de Portugal”

  1. Nem mais, Rui. A denúncia destes casos é serviço público. E, como muito bem dizes, se temos património imaterial, o Grupo de Trabalho que referes representa-o bem: cumpre a tradição de se abotoar ao bem-bom, manifesta ter aquele carácter tipicamente nacional que se sabe e realmente muito performativo (este palavrão só por si já lhe servia de legenda), enquadra-se na prática social que grassa, confirma o ritual do carteirista e consegue manter o ar festivo de quem é mais esperto do que os outros.

    Em poucas palavras: vale a pena propor o próprio Grupo de Trabalho à UNESCO, para a consagração de ser classificado na secção do compadrio e regabofe.

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