Já aqui escrevi, várias vezes, que não sou passadista. Agradeço tudo o que a vida me ofereceu e tento aceitar o que ela me tirou. Nada me foi dado gratuitamente, mas não me queixo do preço que paguei pelas vitórias que obtive, que, decerto por isso, tiveram um sabor especial. Vivi, muitas vezes, à frente do meu tempo, mas não me arrependo de o ter feito, porque o futuro acabou por me dar razão.
Todo este longo intróito vem a propósito dos comentários que o meu último post suscitou e que são bem reveladores da diversidade da alma humana. Cada um de nós, perante a mesma situação, reage de forma distinta.
Explico-me melhor. Não sou pessimista nem vivo de amarguras. Não porque não tenha tido alguns grandes desgostos, mas antes, porque foram eles que me ensinaram uma certa forma de pragmatismo.
Por norma não me debruço sobre o passado, justamente porque ele já passou e só tem importância se me ajudar a tornar-me uma pessoa melhor.
Se não pode ser apagado, pode ser “deglutido”. Isto é, colocado no domínio daquilo que não tem relevo. Se nos magoou, se nos entristeceu, chorou-se na altura. A lição a tirar é não permitir que ele se repita. A isto eu chamo ser pragmática.
Dou um exemplo. Há quem fique a vida inteira a carpir um divórcio. Que, na maioria dos casos, aconteceu por lapsos de ambos os lados. Fica mágoa e tristeza. Compreende-se. Já é mais difícil compreender que se fique a vida inteira condicionada por ele.
A solução, a meu ver, não é essa. A solução é não repetir as atitudes que explicaram o insucesso e “partir para outra”, quando o luto da anterior situação estiver feito. Ou não partir, porque se não quer, porque essa foi a nossa escolha. Mas jamais ficar azeda, ou recusar as oportunidades que se nos oferecem de amar de novo, das quais nem sempre nos chegamos a aperceber, porque estarmos zangados com a vida.
Aprender a não sofrer faz parte do nosso crescimento. Como faz, acreditar que aquilo que se perdeu não é, felizmente, nem único… nem forçosamente o melhor!


Helena,
A senhora é o tipo de personagem a quem se costuma colar a etiqueta de figura pública. Quer goste, queira ou recuse. Com esse estatuto, diversas vezes por mim testemunhado, já me habituara a admirar a transparência de vida e pureza de sentimentos que respira. Entretanto, sublinho, uma ou duas vezes, já nos tinhamos cruzado em comentários no ‘Acto Falhado’ da Rita por quem tenho também consideração.
Este seu ‘post’ reforça a opinião consolidada a seu respeito e, sobretudo, é um ensinamento de exemplar forma de vida.
Afinal, ainda há estoica(o)s orgulhosa(o)s conscientes de o serem.
Felicito-a,
Carlos Fonseca
“Aprender a não sofrer faz parte do nosso crescimento”. Obrigada por isto. Porque só agora compreendi que já o consigo fazer e nem sequer me tinha apercebido.
Muito bem, Helena. Eis o que eu chamo uma sábia lição de vida. Ainda por cima num tom totalmente despretensioso, o que lhe confere maior valor.
É isso mesmo, Helena. Nada de cobardias. Ou somos donos de nós, ou não somos. E se somos, dominamos a coisa.
Obrigado por esta partilha, Helena.