O papagaio e o bastardozinho


Pedro Correia,

 

Vou relendo vagarosamente Os Maias, saboreando cada página, cada parágrafo, cada frase. Há livros que lemos na adolescência, como comigo foi o caso deste, a que é indispensável regressar na idade adulta. Porque aquilo que nos interessava então deixou de nos interessar tanto agora – o enredo, a trama, as peripécias amorosas – e cada capítulo volta a ser uma fascinante descoberta de pormenores. Com as grandes obras da literatura é assim: quando as lemos, de alguma forma elas também nos lêem a nós.

É um Portugal antigo, muito datado, que emana destas páginas. Mas é também um Portugal contemporâneo, um país que teima em ser intemporal para além de todos os ciclos e de todas as modas. Como se nos víssemos ao espelho. Paradoxalmente, sendo um escritor realista, que descrevia com minúcia lugares emblemáticos e situações características da sua época, Eça de Queirós – falecido faz hoje 111 anos – é também um escritor eterno. Porque foi capaz de apreender e captar aquilo que permanecia imutável para além da ilusão das aparências. Costuma-se dizer, neste sentido, que é um “escritor actual”. Nada mais certo.

E depois há a linguagem. A saborosa, inconfundível linguagem queiroseana. Eça, como sucede aos maiores escritores, reinventou o idioma, dando-lhe graça, verve e colorido. Basta o primeiro capítulo d’ Os Maias para detectar isto. Em expressões como “a paz dormente do bairro”, “aquela doce quietação de subúrbio adormecido ao sol”, “uma impressão de causar aneurismas”, “era um amor à Romeu”.

E há ainda a ironia – a célebre ironia de Eça, que tantos tentaram imitar sem o menor sucesso. Por ser tão pessoal, por ser tão intransmissível. Também patente logo no capítulo inicial. Afonso da Maia, irritado com a beatice da mulher: «Quando sentia na casa a voz de rezas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu Voltaire.» O filho, Pedro, passando de menino atinado a adulto devasso: «Foi despontando naquela organização uma grande tendência amorosa: aos dezanove anos teve o seu bastardozinho.» E até ao conhecermos um dos animais domésticos lá de casa: «À janela o papagaio, muito patuleia e educado por Pedro, rosnava injúrias aos Cabrais.»

Em tempo de papagaios com novos motes e de outros bastardozinhos, revisitar esta obra-prima é um prazer inesgotável: eis a melhor forma de mergulhar, através da literatura, no Portugal de sempre.

34 comentários em “O papagaio e o bastardozinho”

  1. Pedro, bem o percebo, e na nossa classe política e empresarial bem podiam colocar olhos em Camilo, Eça, ou Vieira.

    Em maior escala, bem podia esta Europa olhar a Apologia de Sócrates, Górgias, a República, Ética a Eudemo, Ética a Nicómaco, pensamentos de Marco Aurélio.

    1. Eça de Queiroz é sempre actual e escrevia muito bem a nossa lingua
      Não deixem de ler 2 grandes filosofos actuais Zizek e Michel Onfray

    1. É um prazer enorme regressar a este romance, Zélia. ‘Os Maias’, ‘O Primo Basílio’, ‘O Crime do Padre Amaro’, ‘A Relíquia’ e ‘A Cidade e as Serras’ – sem esquecer os ‘Contos’ e ‘O Conde de Abranhos’ – formam um dos conjuntos mais perduráveis de obras-primas da literatura portuguesa.

    1. Eheheh. A frase do maestro Craft que remata a expedição a Sintra, um dos capítulos mais saborosos do romance. E o hotel Lawrence lá continua, desde a era de Eça: os guias turísticos classificam-no como um dos mais ‘charmosos’ da Península Ibérica.

      1. “Lá me esqueceram as queijadas!” :))))
        Pequena correcção: Cruges. O mesmo que acompanha Ega como padrinho a casa do Dâmaso.

        (sei Os Maias praticamente de cor.

          1. «Ó Dâmaso, então tu vais expor a uma senhora as tuas opiniões lúbricas sobre as lavadeiras de Penafiel?»

            «Comigo é de atracão.» (Dâmaso)

            «Vossa excelência pertence?»
            (Ega)«Sim, à de Geografia. Sou dos protegidos.»

            (no jantar dos Gouvarinhos, em que se discute a importância de sociedade como a de Geografia ou a Protectora dos Animais)

          2. Ó Pedro, mande-me parar, foi mexer num ninho de vespas!

            «O que é a gente beber bons vinhos! Estou aqui como se não fosse nada!» (Ega, depois da monumental bebedeira nos Olivais).

            «Bêbedo, eu! Até discuto Filosofia contigo! Queres que te diga o que acho de Darwin? É uma besta!» (Ega, durante a bebedeira nos Olivais)

          3. O diálogo entre o Ega e o ‘par do reino’ a propósito da Sociedade Protectora dos Animais é fabuloso. Já decidi: vou trazer aqui, numa série, os melhores diálogos d’«Os Maias».
            (o texto que hoje publico é uma singela homenagem aos 111 anos da morte do Mestre).

  2. Ahhhh! Eça, o imortal Eça! O que eu rio de cada vez que tropeço no papagaio muito patuleia!
    E os sucessivos nomes do gato, todos saborosamente justificados? Bonifácio, D. Bonifácio de Calatrava, Reverendo Bonifácio.

    E o final de um capítulo do Primo Basílio, em que, em quatro palavras, resume a grande e aparente tranquilidade da casa: Até o gato engordava.

    Espreite este post antigo da Gota, Pedro, o fim tem uma transcrição de mais uma imortal página do nosso Eça, em que a adjectivação é hilariante.

    http://gotaderantanplan.blogspot.com/2009/08/nocao-da-virgula-ou-da-salada-ou.html

    1. Grande romance esse também, ‘A Cidade e a as Serras’. Um dos dez melhores romances portugueses do século XX.
      (outra série que nasce aqui, nesta caixa de comentários: quais foram os dez melhores romances portugueses do século XX?)

  3. Jà agora… O último paragrafo é dedicado aos “Soros& Berardos, SA”…deste mundo de hoje:

    ” … Em Portugal não hà religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala da sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elavava o espiríto…
    …” Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capitúlo…” Jesus Cristo, que foi modelo da paciência, da tolerância, o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre os homens, Jesus Cristo sofreu com a resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a Ele e à sua missão divina; perdoou ao matador, à adúltera, ao blasfemo, ao ímpio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pode conter, pegou num azorrague e zurguios sem dor.

    Almeida Garrett
    Viagens na Minha Terra

  4. Há uns dois anos também voltei a Os Maias.
    Quando li na adolescência, um ano antes da “obrigação” escolar, gostei muito do livro. Na altura nem conhecia Lisboa.
    Quando reli, o prazer foi redobrado ao reconhecer nas suas páginas muitos locais que entretanto conhecera, ao deliciar-me com passagens às quais dei novas interpretações, ao saborear a sua ironia cuidada.
    Espero num dos próximos anos voltar ao Ramalhete, ainda na minha edição velhinha da Europa-América 🙂

    1. Quando se conhece bem Lisboa, como hoje conheço, aprecia-se melhor ‘Os Maias’. Quase todas as ruas e muitos dos locais mencionados neste romance existem ainda, como no tempo de Eça. Já os Olivais eram… uma aldeota onde havia umas quintas e muitas oliveiras. Saía-se à tarde de Lisboa, de caleche, e só lá se chegava à noite.

  5. O Garrett volta… com mais actualidade :

    …” Não: plantai batatas, ó geração de vapor de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai — No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos.
    E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização; à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencivel, à penúria absoluta, para produzir um rico?

    In Viagem na Minha Terra – edição Classicos/ Público/
    pag.32
    —-
    Terá sido escrito hoje ?

  6. O Eça é um enormíssimo escritor! Pena não ter feito mais escola, mas a verdade é que é difícil igualá-lo na acutilância e na graça. Quem o considera “datado” não entende que, para lá dos tiques e das expressões da época, as caricaturas sociais continuam actualíssimas.

    1. Exactamente, Ana. A descrição ‘realista’ que faz da Lisboa da sua época – que em grande parte é ainda o núcleo central da Lisboa de hoje – torna-o de uma actualidade quase jornalística. A atenção ao detalhe é uma das suas principais características como autor. E os diálogos são absolutamente espantosos. As acusações que lhe fazem – misoginia, indiferença perante as classes trabalhadoras, quase ausentes dos romances queiroseanos – esbatem-se perante o génio evidente da sua escrita.

  7. Sou um apaixonado pelo Eça e pel’Os Maias, que releio e releio o mais que posso, “sentindo tudo de todas as maneiras”. Não sei explicar de que modo quase místico e sinestésico mergulho nessa narrativa e nessa Lisboa/Sintra para sentir, com toda a força da minha sensibilidade e imaginação, tudo como verdade e realidade.

    Um Abraço, Pedro, desde este Brasil.

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