O panegírico de César a Santos


Pedro Correia,

Talvez enebriado pela atmosfera de unanimismo reinante no congresso do MPLA, onde – como é costume – não perpassa a mais leve brisa de contestação ao líder, que há 37 anos é também Presidente da República de Angola, Carlos César entusiasmou-se no discurso que ontem dirigiu à reunião magna do partido do poder em Luanda.

“Cumprimento, em meu nome pessoal e em nome do Partido Socialista, de forma especialmente fraterna, o presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, a figura referencial da história de Angola e da história da emancipação africana”, declarou o presidente do PS e líder parlamentar da bancada socialista em São Bento, falando como convidado de honra no congresso.

 

Confesso ter muita curiosidade em saber como reagirá o Bloco de Esquerda a estas empolgadas declarações. Criticará a personalidade cimeira da hierarquia do partido do Governo que os bloquistas apoiam com tanta convicção ou fará de conta que nem a escutou?

Aposto desde já na segunda hipótese, escudada no princípio bíblico “a César o que é de César”.

 

A concretizar-se tal cenário, não deixarei de o lamentar. Seria útil que Catarina Martins, a propósito deste panegírico feito por César a Santos, reeditasse as suas solenes proclamações contra o regime angolano. 

“Defendemos cada um dos presos políticos em Angola e lembramos que há presos políticos que não são luso-angolanos, são só angolanos, que estão a a ser torturados pela polícia” , afirmou a porta-voz do BE a 23 de Outubro de 2015. “Respeitarmos Angola, respeitarmos o povo angolano é olharmos de igual para igual e exigirmos que lá, como aqui, haja liberdade”, disparou a dirigente bloquista a 27 de Outubro de 2015.

Presos políticos e falta de liberdade sob o mando de “uma figura referencial da história da emancipação africana”? Olhe que não, Catarina, olhe que não.

0 comentários em “O panegírico de César a Santos”

  1. O Pedro Correia parece ainda não ter entendido que o BE e o PS são partidos diferentes, com opiniões diferentes sobre muitíssimas coisas, e que nem sequer formam uma coligação governamental, apenas têm um acordo de sustentação parlamentar do BE ao governo do PS.
    Não há qualquer razão nem necessidade para que PS e BE tenham a mesma opinião sobre Angola.
    O Pedro Correia deveria entender que, enquanto que PSD e CDS formaram um governo juntos e têm virtualmente as mesmas opiniões sobre quase tudo, PS e BE nem formam um governo juntos nem têm as mesmas opiniões sobre praticamente nada.

    1. Portanto “sustenta-se” tudo, mesmo o que a mais elementar coerência (e antes e acima dela, a decência), mandaria não “sustentar”.

      Está certo.

      Costa

  2. Dirige-se à Catarina a que propósito? A Catarina esteve lá? Foi convidada? Não esteve, logo, tudo o que aqui referiu é puro picanço. Porque não critica Paulo Portas? Não interessa, interessa-lhe picar, perturbar e nada mais porque se lhe interessasse mesmo a política, ter-se-ia dirigido ao referido e não a esta.

          1. O enjoo é tal que as iniciais vão-se. Aqui vão elas se isso o consola.

  3. Caro Pedro, confesso que não vou votante BE – nunca o fui-, mas acho hilariante ver muitas «vozes esganiçadas» preocupadas, sob o eufemismo de curiosidade, com aquilo que este partido, particularmente a sua líder, dirá a propósito disto, daquilo e de coisa nenhuma!
    Sobre a «falta de liberdade [em Angola] sob o mando de “uma figura referencial da história da emancipação africana”», relembro a excelente reportagem que à pouco tempo passou na SIC a este propósito (Luaty Beirão e companheiros e respectivas famílias. Excelente!

      1. Pois, provavelmente não! Não só o César como todos os que foram ao beija-mão.
        Nesse sentido, deixe-me, que tire o chapéu ao BE pela coragem como tem abordado o «assunto angolano» face aos interesses instalados! Não deve ser fácil!

        1. Gostaria de ver coerência entre as posições do BE a propósito de Angola e (por exemplo) da Venezuela.
          O mesmo partido que se insurge contra “a opressão que existe em Angola” e manifesta “solidariedade por quem tem sido preso” nesse país, foi-se multiplicando em elogios ao regime chavista, sublinhando que “enquanto na Europa a democracia está a falhar, na Venezuela a democracia participativa tornou-se num sinal de identidade” (frase extraordinária).

          Hiperligações:
          http://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/be_ir_ao_congresso_do_mpla_revela_transigencia_com_governacao_angolana.html

          http://www.esquerda.net/dossier/bloco-destaca-papel-de-ch%C3%A1vez-na-luta-%E2%80%9Ccontra-o-imperialismo-e-contra-o-fmi%E2%80%9D/26977

          1. Caro Pedro,
            creio que as poucas democracias participativas que temos memória (mais o Pedro que eu – presumo que seja mais velho que eu) foi a de Vilarinho das Furnas e afins. Mas essas afundaram-se na historia.

      2. Por acaso vi essa reportagem e não gostei do que vi. Também sei que em Angola o povo é muito diferente de nós. Para haver uma democracia, a sério, os próprios angolanos teriam de mudar muito e eles não conseguem mudar. Só quem por lá anda, tem negócios… sabe que não é assim tão fácil. Carlos César sabe que precisamos de Angola e fez o seu papel como político.

        1. Uma coisa é “precisarmos de Angola”: ninguém discute. Basta saber que existem cerca de 200 mil portugueses e mais de oito mil empresas portuguesas lá.
          Outra é confundir uma intervenção no congresso do MPLA com um editorial do ‘Jornal de Angola’.

  4. Não terá interesse em saber a opinião do CDS sobre o que disse o seu representante, lá e sobre Paulo Portas? Esqueceu-se que o BE não tem coligação com o PS, tem sim um acordo.

      1. Se o seu comentário não tem nada de original, como posso ter eu originalidade. Aqui não há repetições, há constatação de factos e eles são tão evidentes que não se entende, o porquê de críticas à Catarina e não aos que lá estiveram. Isso, sim, seria um comentário isento e crítico no bom sentido, assim revela tudo menos isenção.

  5. Esperar coerência no palrar tribal dos políticos e ex-dito cujos é pedir demais.
    Veja-se o permanente plural majestático do ex-Vice Rei e hoje estimável, sempre aguerrido, funcionário de uma construtora.
    “… Portugal, nós precisamos de ter uma “política real””. “No pun intended”.
    Ps. Bom post.

  6. A hipocrisia, o oportunismo, definem o carácter desta geringonça. Quando não convém, calam – se. E como já dizia o ditado :
    “Quem cala, consente…”

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