«Um homem entrou hoje dentro de um forno de lenha comunitário aquecido a mais de 250 graus durante a recriação do ‘milagre’ da Urgueira, no concelho de Águeda, que atrai anualmente milhares de pessoas.
(…)
Num forno comunitário aquecido durante três dias, Manuel Farias, presidente da colectividade organizadora, entrou no seu interior para depositar uma broa com cerca de 80 quilogramas, que depois de cozida foi cortada em pedaços para distribuir pelos romeiros.
“Ao entrar no forno não há sensações nem emoções. Não há euforia nem inibição, não há tristeza nem alegria e não há frio nem calor. Temos de ir completamente bloqueados à emoção e à sensação”, explicou à agência Lusa, momentos depois de ter entrado e saído do forno, cuja temperatura oscilava entre os 250 e os 300 graus.
Salientando que o segredo é o autodomínio, com a respiração suspensa durante cerca de 15 segundos, Manuel Farias conta que quando sai do forno é como se lhe tivessem “despejado um balde de água pelo corpo abaixo, porque a transpiração é tão intensa que a água escorre-nos pelo corpo”.
A entrada no forno é feita com um fato típico de romaria, uma boina com protecção para as orelhas e um cravo na boca.»
Notícia da agência Lusa, hoje, às 19.10


Ainda dizem que a luta pelo poder está ao rubro…
Percebo que ele dissesse que dentro do forno, a 250 graus, não há frio. Mas dizer que “não há calor” escapa por completo ao meu entendimento.
Isto é que é um artista.
Temos uma velha atracção por fornos. Talvez desde a padeira de Aljubarrota.
Pedro,
Após a primeira leitura concordei com o caricato que somos enquanto soma de inúmeros indivíduos que se movem por inúmeros motivos.
Mais tarde dei por mim a pensar que, se dentro do forno estivesse não uma broa, mas um qualquer trofeu, mais ou menos vistoso, se todo o evento fosse patrocinado pela, por exemplo, Red Bull, e se tudo fosse transmitido pela Eurosport, estaríamos apenas a assistir a uma muito ocidental e sofisticada prova radical, em que os participantes transbordariam, não de fé, mas de irreverência e de desejo de auto-superação.
Depois re-li o texto, e lembrei-me da Tomatina, da largada de touros de São Firmino, da corrida do Palio de Sena… e achei que só com outra auto-estima enquanto povo, seríamos capazes de ‘vender’ as nossas tradições.
Sei que não leva a mal o contraditório, por isso senti-me livre de registar o raciocínio que o seu post me provocou.
Nada a objectar, Paulo. Eu, aliás, acho graça às tradições e – com raras excepções – entendo que devem ser preservadas e acarinhadas. Os espanhóis, claro, dão-nos boas lições neste domínio. Sem complexos de qualquer espécie – e muito bem.
O que não percebo de todo são as declarações daquele corajoso cavalheiro que a Lusa reproduz. Mas admito que o calor em excesso produza aquele discurso torrencial e algo desconexo.
Talvez também pelo calor, mas os cravos não ajudam nada ao discernimento… 😉
Abraço
Na boca, então, não devem ajudar nada…
Abraço, Paulo.