O país que não existe


Pedro Correia,

 

O homem do Tratado de Lisboa (“porreiro, pá”) eclipsou-se. O homem que proclamava “Espanha! Espanha! Espanha!” regressou ao rectângulo lusitano. O europeísta entusiasta de todas as horas deu lugar ao político grave, que se agarra como náufrago a bóia à expressão “o meu país”. José Socrates, na pior fase de sempre da sua vida política, percebe que lhe resta trilhar uma via estreita na mira da caça ao voto: a via nacionalista. Um terço da entrevista concedida hoje pelo primeiro-ministro à RTP foi passado a repetir até à náusea que tudo fará para evitar um auxílio internacional de emergência a Portugal. É fácil detectar a linha argumentativa do PS nesta campanha eleitoral: tudo quanto é patriótico decorre da acção governativa; tudo quanto é mau vem do estrangeiro. Nomeadamente a “grave crise económica e financeira que se desenvolveu a partir de 2008”, segundo lembrou Sócrates. Claro que não disse – nem ninguém lhe perguntou – por que motivo depois disso aumentou os salários da função pública, baixou o IVA e anunciou o cheque-bebé, entre outras medidas ditadas pelo puro cálculo político, destinadas a garantir-lhe a vitória nas legislativas de 2009.

“Fizemos o que podíamos para melhorar a vida das famílias”, declarou o primeiro-ministro, sempre incapaz de reconhecer um erro. Como se não fsse ele, que se encontra há seis anos no Governo, o principal responsável pela crise profunda em que vivemos.

Há dois países em Portugal: o país real – o da monumental dívida pública, do desemprego, do défice externo e do crescente afastamento em relação à média europeia – e o país do neo-nacionalista José Sócrates, orgulhosamente só. O único cor-de-rosa é este último. Por azar, também é o único que não existe.

10 comentários em “O país que não existe”

  1. Aproveito este cantinho para colocar uma questão com o agradecimento antecipado a quem puder esclarecer. Se existe algum mecanismo legal que permita a um cidadão ou a um conjunto de cidadãos o seguinte: Solicitar por alguma via regulamentar exame médico completo a qualquer responsável político, incluindo o perigo de actuação abusiva sob influência de produtos contra-indicados ou mesmo ilegais que configurem o uso de substâncias ilícitas ou socialmente condenáveis. Isto veio-me á mona porque creio que não parecerá mal a ninguém que perante o risco de actuação danosa por quem dirige o país se demonstre a posse de todas as faculdades inerentes á responsabilidade do cargo. Lembre-se que um modesto servente para ir para as obras tem que se submeter a exames médicos regulares. Muito obrigado.
    Nota final: Em debate com jornalistas num canal televisivo e após mais uma entrevista creio ter ouvido dizer que o caso seria para psiquiatra.

  2. A dívida externa bruta, em 2005, pouco passava dos 250 mil milhões. Em 2010, rondava os 400 mil milhões. Como são muitos milhões (e zeros, claro), vejamos através de outros números simplificados… A dívida externa bruta, medida em percentagem do PIB, passou de 180%, em 2005, para 230%, em 2010. Isto, e muito mais, é o “inferno socrático”. Só não vê quem não quer.

  3. Até ontem tinha “medo” das decisões de Sócrates. A partir de agora e depois de ouvir/ver o demissionário Primeiro-ministro , tenho”medo/receio” da decisão que os portugueses podem tomar

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