Tanto se fala e se escreve sobre o pequeno mundo da política. Mas pouco se escrutina o pequeno mundo da cultura. Às vezes, no entanto, vale a pena reparar nele. Porque é uma outra forma de percebermos melhor uma certa maneira de ser e de estar em Portugal. Espreitem, por exemplo, a caixa de comentários deste texto da excelente Maria do Rosário Pedreira e vejam até que ponto se ramifica o fio de polémica nele desencadeado. Não me pronuncio sobre o fundo da questão, até por desconhecer as obras dos dois nomes mais mencionados, mas sugiro um olhar atento a muitos comentários aduzidos. Mostram-nos melhor que mil discursos o que somos e como somos.
O País numa caixa de comentários
Pedro Correia,

Tens razão, Pierre. E mais: até assusta.
É verdade, Ivone. E no entanto aquilo até começa muito bem, com um comentário teu.
Se ela te chama Pierre, devias tratá-la por Yvonne. 🙂
Touché, Anne.
Mas as meninas ainda não tinham reparado que trato o nosso Pedro por Pierre? Tipo conversa de aristocratas russos, estão a ver? 🙂
Me Pierre, you Natasha.
Mais oui, mam’selle, bien sur… o “Pierre, chauffeur russo” é que ainda não tinha dado por isso. 🙂
Muito mau, de facto. Com a particularidade de vir do que é supostamente mais erudito.
Às vezes, meu caro Joaquim, os chamados “meios eruditos” resvalam com excessiva facilidade para a conversa de café. Ou mesmo de taberna.
Li o post e os comentários e lembrei-me logo da avaliação dos professores, cujos resultados estão para breve.
As suspeitas de falta de isenção dos avaliadores são mais que muitas. Quando a nota proposta é elevada suspeita-se de amiguismo. Quando a nota proposta não é elevada suspeita-se de inimizade. Por vezes pode ser o caso, mas outras não é – e não parece haver maneira independente e objetiva de fazer a destrinça.
Seria uma conversa longa explicar o que se deveria fazer para evitar isso na ADD, mas no caso da crítica literária é fácil: basta pedir a opinião a críticos ou escritores diferentes e publicar as suas opiniões. Depois os leitores decidirão quem tem razão.
Não é apenas a natureza da literatura que torna esse procedimento aconselhável, mas também a pequenez do país: somos poucos, os críticos e escritores conhecem-se todos, etc.
É como diz, Carlos: somos um país pequeno. E certas pessoas conseguem por vezes torná-lo ainda mais pequeno do que ele já é.
Permita-me, Pedro, expressar a minha opinião de que a Maria do Rosário Pedreira não esteve muito bem nesse texto. Ela podia dar-nos conta do seu desacordo em relação à crítica do livro, dando razões que se prendessem com a qualidade literária do mesmo. Mas não! Teve de insinuar a inveja, desacreditando um crítico/escritor. Porque a opinião dela tem peso, ela é, talvez, a editora portuguesa mais famosa, no momento (com todo o mérito, aliás). Mas, aqui, parece-me que se aproveitou da sua posição para defender um antigo “protegido” dela. No fundo, foi ela que deu o mote para tornar o país ainda mais pequeno do que ele é.
Sinta-se à vontade para exprimir aqui a sua opinião, Cristina. Como referi, não me pronuncio sobre o fundo da questão por desconhecer em absoluto a obra produzida pelas duas pessoas mais mencionadas nesta longa polémica de caixa de comentários. Só gosto de pronunciar-me sobre aquilo que conheço.
Pedro: não me parece que seja necessário ter lido qualquer dos autores em causa para poder ter uma opinião sobre as questões de fundo:
– É ou não um problema ter escritores a fazer apreciações críticas de obras de outros escritores? (Na minha opinião, não é; as publicações americanas e britânicas estão cheias delas e isso só faz com que as críticas sejam frequentemente elas próprias material de altíssimo valor literário.)
– É aceitável que um livro de um autor “sério” tenha menos estrelas que um livro de um autor popular? (Claro que sim. O crítico, o público-alvo, o objectivo do autor, os critérios de avaliação – tudo é diferente. Ninguém interessado em Gore Vidal – tenho de me penitenciar pelo meu esquecimento da semana passada – vai preterir um livro dele porque numa qualquer publicação alguém lhe deu três estrelas enquanto, na página ao lado, outra pessoa deu quatro a um volume da saga “Crepúsculo”. Da mesma forma que quatro estrelas para “O Cisne Negro” não significam o mesmo que quatro estrelas para o último “Piratas das Caraíbas”.)
JAA: estou naturalmente de acordo contigo, mas não é propriamente isso que me interessa na referida caixa de comentários, onde aliás tens duas intervenções pertinentes (tal como vários outros dos participantes). A minha chamada de atenção tem a ver sobretudo com um certo tom de acrimónia que se vai tornando bastante transparente à medida que a discussão se desenrola e nem sempre se revela com esta facilidade entre os protagonistas do chamado ‘meio cultural’, onde vigora uma fachada de meias palavras e de falsa cortesia. Esse verniz estala e surge aqui à superfície um clubismo quase digno de claques políticas ou futebolísticas, com entrelinhados deselegantes, insinuações, farpas envenenadas, ajustes de contas, muito preconceito e o resto que os leitores do Delito eventualmente interessados poderão acompanhar como quiserem. E que cada um tire as suas próprias conclusões.
Dos três escritores mais mencionados nessa caixa de comentários, conheço apenas – como leitor – a autora do blogue. E gosto do que escreve: fosse eu crítico e dar-lhe-ia sem hesitar várias estrelas. Dos outros não falo porque (falha minha) desconheço o que têm escrito.
Para encerrar com um toque de erudição, segue citaçãozinha de [António] Lobo Antunes: «Eu fico sempre pasmado com a quantidade de livros que se publicam e fico de boca aberta com a satisfação destes autores que, quando vendem, pensam que puseram os portugueses a ler e é obvio que isso é uma treta, porque são maus livros.»
Virá a propósito? Sei lá, como diria outro nome sonante das letras lusas.
De acordo. Por cá, quase todos os sectores têm uma camada de verniz muito fina. Mesmo aqueles cuja superfície parece brilhar mais.
Ah, e desculpa lá – agora é Pierre, não é? 😉
Pierre? Eu quero ser Eleanor, como Eleanor Rigby 🙂
Podes ser Eleonora, nome da personagem de um conto do Poe.
Soa-me a italiano, não gosto muito e o Poe era um bocado apancado, digo eu, que de crítica literária sei zero e só leio o que me apetece. Prefiro os Beatles 🙂
Olha c’ os Beatles ‘tamém’ tinham bué da panca.
Who doesn´t?
Oui, Pierre c’est très chic.
Estás a dar beurre ao Pierre, ó Joseph Antoine?
Mais non, pas du tout, Anne! À son âge, il faut faire attention au niveau de cholestérol!
looooooool. Voilà, un homme sage.
não deixa de ser um exercício, avaliar o “país” espreitando as caixas de comentários, seja qual for a parte do país que interesse para o caso.
vão certamente surgir, no futuro, teses de doutoramento baseadas nesse exercício.
existirá diferença entre esse exercício e o de avaliar a sociedade através da observação dos participantes nos “reality shows”? talvez não.
mas, penso eu, devemos ter a precaução de pensar que se calhar a população de comentadores de posts não representa senão uma fracção dessa “parte do país”.
ademais, fora das caixas de comentários, parece-me que é muito raro, no mundo da cultura literária, existirem polémicas públicas acessas, sobre apreciações ou galardões atribuídos a obras ou à “obra”, excepto no tempo do saramago, devido à sua estatura enquanto autor e teimosia interventiva.
veja-se o caso da recente atribuição do prémio camões ao antónio manuel pina, que bateu o recorde estratosférico da rapidez de atribuição, decidida por um júri internacional lusófono, em meia-hora, na única reunião efectuada pelo júri.
alguém questionou, publicamente, o que quer que fosse, ou achou estranha tanta rapidez? não, nem o próprio antónio manuel pina, habitualmente tão atento a situações assim tão “diligentes”.
Suponho que pretende referir-se ao Manuel António Pina.
Eu tenho para mim que as caixas de comentários normalmente de sítios muito visitados, por ex. comentários de jornais ou de blogues muito lidos, são precisamente o espelho do país.
Tal como tu, Daniela, não tenho a menor dúvida a esse respeito.
Foi das caixas de comentários e sítios parecidos que fiz a minha recolha de bordoadas. Há de tudo e há muito mas muito mau. Quanto à polémica, não consigo opinar porque ainda estou a ler o VHM, mas adianto que já li melhor dele. Este livro parece-me mais forçado, menos genuíno, e não gosto das maiúsculas e de tantos parágrafos. É claro que não é um livro que determina o escritor, mas mesmo tendo nome na praça, se escreveu um livro mau ou menos bom não sei porque não se há-de assumi-lo e dizê-lo sem rodeios.
Nessa caixa de comentários alguém diz – e com razão – que os livros não devem ser julgados em função do nome do autor mas do mérito específico de cada obra. Estou de acordo. Os melhores escritores, em regra, também produziram livros medíocres: ninguém é génio o tempo todo. E obviamente cada género literário merece uma bitola crítica. Por exemplo: gosto muito de Chandler, mas não o confundo com o Tolstoi. Deve haver uma bitola específica para os policiais, onde vários títulos de Chandler merecem cinco estrelas, tal como para outros géneros.
Nenhum deve ser ignorado ou estigmatizado – incluindo a chamada ‘literatura light’. Até porque qualquer género pode sempre trazer-nos boas surpresas. O Camilo, por exemplo, cultivava o género ‘light’ por excelência do século XIX, o folhetim de jornal, quase literatura de cordel. E não deixou de ser um nome enorme das letras por causa disso.
Isso mesmo. Detesto endeusamentos. Como já te tinha dito, li dois livros do vhm e gostei muito dos dois. Se este não for bom não retira nada à qualidade dos anteriores. Não se pode é assumir que lá porque escreveu dois ou três bons, todos tenham de o ser e que não consigamos admitir que não o são sem dramas ou ofensas.
Também me faz alguma confusão a comparação entre vhm e o Rodrigues dos Santos e que o simples facto de um ter mais estrelas do que o outro seja indicador de algo. Serão porventura comparáveis? Só se for por escreverem na mesma língua.
Houve um conhecido crítico da nossa praça que há tempos se entusiasmou com um dos romances do JRS brindando-o com quatro magníficas estrelinhas. Eu, ignorante que sou da obra literária deste romancista de sucesso, só posso compará-lo com a Clara de Sousa e o José Alberto Carvalho como apresentador de telejornais.
Também não li nada dele e nem me parece que o venha a fazer, não por preconceito mas porque não me chama a atenção e tenho outras coisas que me interessam mais. É um lugar-comum, mas não há dúvida de que hoje qualquer um escreve livros e que muitos são levados ao colo.
Li um único livro dele – o da tese do Colombo português – e até gostei do tema e da forma como a história está construída. Está é muito mal escrito, por isso já não me apeteceu ler mais nenhum.
Fui ler e reler. Mas há alguém que leve a sério as estrelinhas? Não me parece.
Pelos vistos há, Leonor. Tudo começa precisamente aí.
É. É o começo da polémica. Não me parecem credíveis a maior parte das vezes. Tirando o José Mário Silva do Bibliotecário de Babel, que considero fazer crítica despretensiosa e honesta, muito do resto não me convence e não é um factor determinante nos livros que leio.
Concordo contigo, Leonor. O José Mário Silva é um bom crítico.