O ovo da serpente


Pedro Correia,

 

Na segunda metade da década de 20, Portugal perdera virtualmente a soberania no capítulo económico. A bancarrota espreitava. À esquerda e à direita, reclamava-se “mão forte”: era preciso aparecer alguém que pusesse as contas públicas em ordem. A república, que nascera entre fervores nacionalistas como reacção ao ultrajante ultimato inglês de 1890, conduzira o país a um vexame ainda maior: em 1926, Portugal vivia de empréstimos externos, já via fugir os créditos bancários internacionais e começava a depender da caridade alheia.

As condições estavam maduras para a entrada em cena de um jovem especialista em finanças, de pendor autoritário, catedrático da Universidade de Coimbra com manifesto desdém pelos jogos políticos lisboetas e pela balbúrdia do regime implantado década e meia antes. António de Oliveira Salazar tinha 37 anos quando chegou pela primeira vez ao Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Demorou-se poucos dias: a ditadura militar não lhe dava as condições de mando que pretendia. Regressou dois anos mais tarde, numa situação de ainda maior penúria, e dessa vez demorou-se 40 anos exactos. A incompetência generalizada da classe política, tanto do 5 de Outubro como do imediato pós-28 de Maio, abriu caminho a esta longa ditadura unipessoal que começou por legitimar-se no domínio das finanças: a bancarrota foi evitada, as contas públicas ganharam equilíbrio e o défice deu lugar em poucos anos a um surpreendente superavit. O resto da história sabemos qual foi.

 

Lembrei-me hoje de tudo isto ao ouvir num café, em voz bem alta, a conversa de dois homens na casa dos 30 anos.

– Eu não vivi no tempo do Salazar. Certo que era uma ditadura e havia a PIDE, mas ouço dizer que nessa altura tínhamos boa azeitona, boa agricultura, tudo – dizia um.

– Cambada de chulos – reclamava outro, referindo-se aos políticos actuais, alguns dos quais mencionando-os pelos nomes.

Pela conversa, um e outro pareciam desempregados: o diálogo de café deve ajudá-los a combater o tédio dos dias sem perspectiva de futuro. Ouço esta e muitas outras conversas do nosso quotidiano quando está quase à porta 2011, um ano que todos antevemos como pior do que este já foi, e questiono-me sobre o ovo da serpente que a incompetência dos políticos actuais está a germinar.

12 comentários em “O ovo da serpente”

  1. Tenho-me lembrado várias vezes desse título do Bergman, que alude ao período de incubação do nazismo, a propósito do que falas aqui. Quando o descontentamento ultrapassa certos limites tudo pode acontecer.

    1. A cena final desse filme,cena a preto e branco,uma multidão desencantada descendo uma escadaria, se a memória não me falha, tem lá tudo…

      1. Vi esse filme do Ingmar Bergman em estreia e marcou-me profundamente. Nunca mais o esqueci. Também nunca mais consegui revê-lo. É, sem dúvida, um dos filmes da minha vida.

  2. Ainda não ouvi a entrevista de Rafael Marques ao Carlos Vaz Marques na TSF, mas as denuncias fez não são descabidas. O mesmo sentido prático que faz hoje de Portugal um país subserviente da Angola, também o fará amanhã da China. Nunca o Dalai Lama poderá ser recebido oficialmente em Portugal…
    Falidos e dependentes do crédito alheio não poderemos ousar afrontar regimes autoritários, nem que seja em gestos simbólicos.
    Hoje em conversa com um amigo em dificuldades financeiras (já teve dez empregados e agora tem apenas um), falávamos disso e ele também me disse que não queria saber se era chinês ou espanhol, queria era poder trabalhar e pagar a quem deve.

    Será a liberdade um capricho com o qual se aspira apenas depois da barriga estar cheia?

    1. Duas gerações de portugueses encheram a boca, de comício em comício, com a expressão “independência nacional”. Mas não há independência nacional, no sentido político da expressão, sem independência financeira. A nossa independência é hoje residual. Estamos cada vez mais dependentes do que se decide em capitais estrangeiras – de Bruxelas a Berlim, de Luanda a Pequim. Rima e é verdade.

  3. Temo o pior, Pedro. A nossa tendência para o sebastianismo aliada ao estado calamitoso da economia pode facilmente levar-nos a endeusar o primeiro “pulso forte” que nos apareça à frente. Sócrates também tinha (e tem) esse perfil e tem foi o que se viu.

  4. O único politico com pendores autoritários actualmente é, tal como Salazar, um Doutorado em economia (Embora nas suas campanhas pareça desconhecer a ciência económica), uma pessoa que vive frugalmente, incorruptível e obstinado (Sabe o que quer e para onde vai) e chama-se Francisco Louçã.

    1. O problema, como já começa a notar-se por essa Europa fora, é as pessoas convencerem-se seriamente que a democracia é inviável como regime e só um sistema ditatorial pode trazer-lhes prosperidade.

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