O nosso Odorico


Sérgio de Almeida Correia,

“Como dizia o poeta Castro Alves: “Bendito aquele que derrama água, água encanada, e manda o povo tomar banho” (Odorico Paraguaçu).

 

(a título de declaração de interesses esclareço que não apoio nenhum dos candidatos presidenciais que vão a votos)

8 comentários em “O nosso Odorico”

  1. Para quem ainda tivesse duvidas acerca do Prof. Marcelo que obviamente muito fica a dever ao seu pai.
    Marcelo faz-me lembrar António Guterres na forma (a procura de consensos e diálogo) mas fica muito atrás no conteúdo , a sua procura de consensos NÃO é genuína, a parcialidade com que falou nos últimos 4 anos não augura nada de bom mesmo para o futuro.

    P.S. – Caro SAC , o politicamente correcto só favorece o sistema instalado.

  2. “Prescrevem- se, por exemplo, certos banhos em momentos precisos: não se toma banho por uma questão de limpeza, mas porque os banhos foram prescritos. Não se aprende a evitar as autênticas consequências da porcaria, mas o pretenso descontentamento dos deuses pela falta de um banho. Sob a pressão de uma supersticiosa angústia, suspeita-se que esta eliminação da porcaria tem ainda mais importância e acrescenta-se-lhe uma segunda e depois uma terceira significação, corrompendo-se de tal maneira o sentido e o amor da realidade que aqueles banhos acabam por não ter qualquer valor senão na medida em que podem ser símbolos. Assim se despreza, primeiro as causas, depois as consequências e finalmente a realidade.”

    “Tornou-se-nos a partir de agora uma necessidade, que a realidade não seria capaz de satisfazer, ouvir homens falar bem e copiosamente nas mais criticas situações: ficamos encantados, agora, por ver o herói trágico encontrar ainda frases, razões atitudes eloquentes e, em suma, ficar lúcido quando a vida passa ao lado dos abismos que fariam, na realidade, perder a cabeça à maior parte dos homens e todos tiraria o gosto de bem falar”

  3. Peço desculpa pela pobreza do meu comentário.
    Pobreza de forma, que não de conteúdo.
    Pensando bem, talvez não seja tão pobre assim, porque tem o mérito da síntese de uma expressão antiga e popular:
    – Este senhor não passa de um vendedor da banha da cobra.

    1. Em Português, creio, também se pode fazer a concordância no singular, embora me pareça que aqui tem razão:
      1) “No entanto, esta regra não é absoluta. Pode pôr-se o predicado no singular em situações especiais, quando se pretende destacar o sujeito do grupo ao qual pertence. Por exemplo, se a frase se inicia pela expressão «um dos + substantivo + que», surgindo depois uma oração intercalada e só depois o predicado da oração inicial, o predicado da oração relativa intercalada vai muitas vezes para o singular: «Um dos escritores que mais me impressionou foi Padre António Vieira»; «Uma das peças que agrada sempre é Frei Luís de Sousa»; «Um dos oradores que fez uma intervenção excelente está mesmo ali.» Este singular surge por dois motivos: por uma questão de eufonia, pois o singular inicial (um) e o do predicado final levam a aceitar um singular intermédio, e por uma intenção de valorização do indivíduo em relação ao conjunto ao qual pertence.” (MRMR, Ciberdúvidas);
      2)”Vasco Botelho de Amaral escreveu o seguinte no seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa (Editora Educação Nacional, Porto, Vol. II, 1938):
      «A doutrina que devemos seguir, quanto à concordância do predicado em jogo sintáctico com a expressão um dos que, parece-nos ser esta, fixada por Epifânio Dias na Sintaxe Histórica, 26: “Em expressões, como: um dos que mais trabalharam, é erro concordar o predicado com a palavra um e dizer: ‘um dos que mais trabalhou’. Este erro cometeu Frei Luís de Sousa, quando disse: ‘Esta cidade foi uma das que mais se corrompeu…’ ». Portanto, escrevamos como Camões: “Era este Catual um dos que estavam (e não ‘estava’) corruptos pela maometana gente…” (Os Lusíadas, VIII, 81). O erro de construção de um dos que com predicado no singular (ocorrente em Fernão Lopes, Frei Luís de Sousa, João de Barros, Bernardes, Vieira, Garrett, Herculano, Camilo, etc.) explica-se por atracção de um. (…) Lembramos que Rui Barbosa e José de Sá Nunes defenderam a construção com verbo no singular, apresentando inúmeros exemplos clássicos. E Said Ali fez ver que o fenómeno do emprego do verbo no singular, em vez do plural na oração relativa, se observa em grego, latim, francês, espanhol, inglês e alemão. Isto mesmo lembrou também o sr. Manuel de Paiva Boleo em erudito trabalho. Contudo, preferimos seguir, depois de ouvidas as duas partes, a sintaxe que leva o predicado ao plural, como aconselharam Epifânio Dias, Leite de Vasconcelos, Agostinho de Campos, etc.» (JMC, Ciberdúvidas)
      3) “Ferreira Gullar, poeta brasileiro do primeiríssimo time, em dois artigos brilhantes na ILUSTRADA da Folha de São Paulo, um de 25-9-05, Alguém fala errado?, e outro do dia 09-10-05, O jogo da semântica, no seu jeito direto, defendeu o aprimoramento do ensino da língua e condenou os vários erros que tem lido e ouvido e continua lendo e ouvindo na mídia.
      Nos dois artigos citou, dentre outros e de passagem, o problema da concordância verbal quando o sujeito traz a expressão UM DOS QUE. E ele não abre mão: com essa expressão, o verbo deve ir para o plural. Não aceita, como disse lá, “ele foi um dos que fez barulho”.
      No entanto, apesar da respeitabilíssima opinião do poeta, quando o sujeito é precedido da expressão UM DOS QUE (mesmo que haja um substantivo no meio da expressão, como em UM DOS POETAS QUE), o verbo pode ficar normalmente no singular ou no plural. Há, de qualquer forma, uma tendência para se optar pelo plural, até por ser mais eufônico.
      Os dois usos, no singular ou no plural, têm o respaldo de vários autores e de vários gramáticos. Fiquemos só com os escritores:
      “A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós.” (Machado de Assis)
      “Foi uma das primeiras terras de Espanha que recebeu a fé de Cristo.” (Frei Luís de Sousa)
      “O reitor foi um dos que mais se importou com a preocupação do homem.” (Júlio Dinis)Portanto, aceitemos que as duas formas são corretas.” (Recanto das Letras)
      4)”Em conclusão, (…)não se pode dizer que a construção um dos que + verbo no singular não ocorra, ou que esteja liminarmente errada. Há, no entanto, bastos argumentos, dentro e fora da da tradição normativa, mais ou menos purista, contra a concordância no singular.”. (Pedro Mateus, Ciberdúvidas).

    2. Só mais uma achega:

      “A dicotomia correto/incorreto tem sido uma questão amplamente debatida na literatura, encontrando defensores, mas também muitos opositores.

      De um lado, situam-se os normativos, puristas da língua, cuja correção linguística decorre do rigoroso cumprimento da norma escrita, fundada no exemplo dos clássicos da literatura. De outro lado, situam-se os linguistas descritivos, que privilegiam a variação linguística, com base na frequência do uso e cuja máxima é «o povo é quem faz a língua». Porém, como sabemos, ao invés de criador da língua, o povo é, sim, um utilizador e recetor de tudo o que ouve e lê.

      Tarefa difícil é a de quem, como eu, se encontra entre as duas balizas. Enquanto linguista, cabe-me a missão de observar e descrever os diferentes aspetos da língua, a sua variação, mudança, idiossincrasias e, enquanto professora, a missão de prescrever e veicular a norma.

      Mas, afinal, o que é a norma?
      Eugenio Coseriu definiu norma como «o conjunto de traços linguísticos distintos impostos por uma tradição cultural e social que se torna a referência para toda a comunidade linguística, sendo ensinada na escola e veiculada pelos meios de comunicação social, os quais, para serem entendidos pelo grande público, devem veicular precisamente essa norma-padrão».

      A norma é, portanto, o resultado do processo segundo o qual uma variedade social, convertida em língua-padrão, se torna num meio público de comunicação: a escola e os meios de comunicação passam a controlar a observância da sua gramática, da sua pronúncia e da sua ortografia.

      E quem fixa a norma? Quem se atreve a exercer o papel de “tribunal” da língua?
      Outrora, no séc. XVI, a norma estava na Corte, de cujos membros se aprendia o uso correto da linguagem. No séc. XIX, por sua vez, a norma emanava de Coimbra, berço da primeira universidade. Atualmente, a norma-padrão parece ser aquela que a escola (todo o ensino) e os meios de comunicação social — televisão, rádio e imprensa — difundem.

      Mas com base em quê? Nos dicionários e nas gramáticas de referência? Nos autores literários? Nos escritores?

      Para justificar as regras que prescrevem, as gramáticas normativas apoiam-se em larga medida nas atestações dos escritores. Quando as consultamos, ficamos felizes por constatar que uma dada estrutura sintática sobre a qual tínhamos dúvidas é afinal legítima, porque um grande autor a utilizou nas suas obras.

      A verdade é que os escritores também têm dúvidas, como muito bem observou o professor Ivo Castro, no artigo intitulado O Linguista e a Fixação da Norma (2002) [in Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa], contando a seguinte história passada com o escritor Augusto Abelaira (1923-2003):

      «Incerto quanto a uma construção sintática infelizmente não identificada, pegou na Nova Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira. Se Celso Cunha e Lindley Cintra estivessem cientes das hesitações de Abelaira, teriam mantido a citação? E, sem ela, a regra? O que um escritor escreve, porventura desviadamente, torna-se logo português de lei?».

      Daqui se conclui que a norma é como uma prancha de surf, tentando servir de plataforma firme num mar instável que é a língua.

      Esta metáfora quer tão-somente dizer que falta em Portugal uma autoridade da língua com força de lei e cuja missão fosse a de esclarecer os falantes sobre a pronúncia das palavras, a adaptação de estrangeirismos, algumas estruturas sintáticas mais complexas, os diferentes valores semânticos que as palavras vão assumindo. Que estabelecesse a fronteira entre o erro e a variante linguística…

      Enfim, que se ocupasse de todas as questões inerentes a uma língua viva, como é a língua portuguesa!” (Sandra Duarte Tavares, Ciberdúvidas)

  4. Tenho de lhe agradecer, e faço-o com gosto e sinceridade, a enorme sabedoria com me enriqueceu. É caso para dizer que foi em boa hora que deixei o meu comentário.

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