O nome das coisas*


Teresa Ribeiro,

 

A mesa era uma árvore gigante, de copa redonda, enorme e raízes tão antigas que saltavam da terra como os braços de um polvo. À volta as cadeiras, com o estofo em palhinha, eram cabanas de colmo. Cada uma delas correspondia a uma divisão da casa. O meu sentido estético não se compadecia com interdições, por isso os lenços, as toalhas turcas e demais acessórios saltavam das gavetas sem permissão, acrescentando beleza, mas também verosimilhança ao acampamento. O risco de levar com a ira materna fazia parte do jogo, pois sem tensão a vida na selva não seria a mesma coisa.

O som longínquo de uma serra eléctrica a cortar madeira, que me chegava regularmente da serralharia que se avistava nas traseiras, misturado com os sons da casa quando a mãe andava ocupada a fazer coisas de mãe, dava-me as certezas de que precisava para poder embrenhar-me descansada nas minhas aventuras de alcatifa.

O móvel grande de vidrinhos encerrava os tesouros do meu pai. Um bric-à-brac de loiças, livros e bibelots que ninguém estava autorizado a tocar. Havia dias em que era mesmo aí que eu. Para que o móvel não se chibasse, porque os móveis falam todos com sotaque próprio, eu abria as portas de vidrinhos muito devagar e então, com o coração à solta e os meus bonecos mais minúsculos, povoava aquela terra prometida.

Um dia destes levaram-mos. A árvore, as cabanas e o templo do meu pai, arrematados com displicência por tuta e meia. Juntamente com o gira-discos, os candeeiros, as loiças. Como num arrastão desmantelaram a miúda e os cheiros e os sons. Meteram os passos da minha mãe a andar pela casa de um lado para o outro. Da minha mãe, não. Da mãe daquela miúda numas caixas, e o linguajar dos armários, das gavetas, das estantes, todos com sotaques inconfundíveis. Deram-me um papel para assinar enquanto mascavam uma pastilha e desapareceram.

O cheiro do barulho da serração, sobretudo no Verão, quando eu amolecia depois do lanche, era… Melhor só o da casa, que emanava dos móveis da sala. Um cheiro bíblico, primal, que se concentrava também no roupeiro do quarto onde às vezes aquela miúda se transformava em princesa, assim que vestia as camisas de dormir da minha mãe.

 

*também o título de um livro de Sophia de Mello Breyner

 

6 comentários em “O nome das coisas*”

  1. A viscosidade da memória poderia ter uma equação matemática. Para se estudar o seu comportamento quando se esconde nas coisas aparentemente mais insignificantes ou mais intangíveis como é o caso de um cheiro ou de som.
    Gostei muito, Teresa.

  2. Um texto de cheiros, de sons, de passos, de linguajares, de barulhos…muito bom Teresa.

    Quando ” passei “, pelo desmantelaram a miúda, perdão pela invasão deste espaço intimo, mas pensei se não será o que nos estão a fazer a nós portugueses… a desmantelarem-nos de cheiros de sons, de vida!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *