O Nobel tem a importância que lhe quisermos dar


joaomsandre,

Uma outra nota sobre os que não receberam o prémio. É verdade que a lista de autores não contemplados é longa, distinta e, de certa forma, infâme. O prémio Nobel, qualquer ele seja, é uma reflexão do seu tempo e resultado da reflexão de pessoas, no caso sempre um grupo relativamente pequeno de pessoas. Irão cometer erros e injustiças. Todos teremos a nossa opinião sobre o merecimento e falta dele na atribuição do prémio.

 

Mas deixo uma questão: quantos de nós (e sim, incluo-me na lista) que criticamos a atribuição de qualquer dos prémios conhecíamos antes da mesma a obra do/a contenplado/a? Ainda hoje não li nada de Svetlana Alexievitch. Mo Yan, Tomas Tranströmer, Herta Müller ou J. M. G. Le Clézio ainda me são essencialmente desconhecidos. Li Modiano, mas não sei dizer se é mais ou menos merecedor que De Lillo, Lobo Antunes ou seja lá quem for que continue a ser esquecido.

 

Já levantei esta questão algures no passado: quantas pessoas são capazes de dizer as omissões flagrantes nos prémios Nobel da Física, Química ou Medicina? Ou os erros (entre os quais ou outro Nobel português, Egas Moniz, provavelmente se encontra)? O prémio da Literatura é contestável porque é mais facilmente acessível e porque os seus potenciais laureados existem em enormes números.

 

Quando um prémio é atribuído à porta fechada por uma dúzia ou dúzia e meia de pessoas que não podem, num único ano, ler tudo e mais alguma coisa, temos que aceitar o que o dito prémio é: uma reflexão da opinião dessas pessoas. Mudássemos uma única pessoa do grupo e o resultado seria outro. Mudássemos o grupo para outro país e o panorama seria consideravelmente diferente. Não se trata de um prémiod e popularidade nem devemos tratá-lo com tal. Para tal existem as vendas.

 

Não sou tão ácido como o Luís, mas partilho em parte a sua opinião. O prémio não tem muita importância. Como todos, tem a importância que lhe quisermos dar. Mas o simples facto de, todos os anos, continuarmos a discutir os seus resultados demonstra que ainda lhe damos muita importância. E isso já basta para lhe dar uma certa patina de credibilidade que vai além do valor monetário.

3 comentários em “O Nobel tem a importância que lhe quisermos dar”

  1. Só para informar que hoje não me encontro em condição psicológica estável para tecer comentários de alto gabarito.
    A minha Laurinda acusou-me de mijóseno. De tal forma confuso fiquei que já não sei quando devo mijar no penico ou fora do penico.

    Portanto, estou na dúvida se o Nobel não teria sido melhor empregue se me fosse atribuído. Pois estou convencido que poderia ser uma ajuda relevante para a contratação de especialistas na área confusional que me ajudassem a apontar a ideia.

  2. uma dúzia ou dúzia e meia de pessoas que não podem, num único ano, ler tudo e mais alguma coisa

    Acresce o problema linguístico. Essas pessoas no seu conjunto não saberão mais do que três dúzias de línguas. E muitas obras não estão traduzidas. E muitas outras terão, provavelmente, traduções que não lhes fazem justiça.

    Com boa probabilidade, grande parte dos prémios Nobel da literatura são atribuídos com base no testemunho indireto de outras pessoas, que disseram aos membros da Academia que X ou Y é um grande escritor.

  3. A decisão de Nobel, “mercador da morte” angustiado e “arrependido” foi de premiar aqueles que, no futuro, servissem ao bem da Humanidade – mais propriamente nos campos da física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz. Não há nenhuma menção de um prêmio em economia. Nesta intencionalidade “piedosa”, não é só o mérito dos melhores (passo redundância coxa) que conta. Há uma filtragem afinada e balanceada pelo “pro bono”.

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