
Falta pouco para a atribuição do Nobel da Literatura. Deixo já a minha proposta ao Comité Nobel: deve ser galardoado Salman Rushdie. É mais que tempo, é mais que merecido. Para que não ocorra outra injustiça gritante, como a que agora se registou, ao morrer Javier Marías, grande escritor espanhol ignorado pelo júri sueco que teima em distinguir autores menores enquanto ignora gigantes da literatura – a lista é imensa, irei recordá-la aqui muito em breve.
A 12 de Agosto, Rushdie foi alvo da mais recente tentativa de assassínio. Com uma diferença em relação às anteriores: esta quase chegou a ser consumada. O escritor britânico nascido em Bombaim há 75 anos recebeu vários golpes de faca no abdómen e no pescoço quando se preparava para fazer uma conferência em Nova Iorque. Escapou por pouco a esta nova demonstração do ódio que lhe dedicam os muçulmanos fanáticos desde que o sinistro aiatolá Khomeiny lhe lançou uma fátua – sentença de morte – em 1989 por alegado crime de «blasfémia contra o Islão» no romance Versículos Satânicos.
Desde então, vários tradutores desta obra têm sido ameaçados e perseguidos em todo o mundo. Um morreu assassinado. É muito provável que a persistente ameaça do totalitarismo islâmico continue a tolher as sumidades que todos os anos se reúnem na capital sueca para proclamarem o melhor escritor do ano. Como se também elas fossem alvo de uma fátua.
É intolerável que Rushdie, perseguido há 33 anos pelo mais repugnante extremismo que usa a religião como pretexto para impor a lei do silêncio, seja igualmente vítima da atmosfera de medo que vigora em Estocolmo. Se algum escritor merece o Nobel, neste ano concreto, é ele. Aliás já o merecia desde que publicou Os Filhos da Meia-Noite, em 1981 – fabuloso cruzamento de relato histórico com realismo mágico expondo as feridas entre hindus e muçulmanos no subcontinente indiano como tema central.
Dúvida nenhuma: o prémio deve ser para ele.

Já ninguém tem ilusões — o Nobel não tem a ver com literatura. Portanto, why not.
Borges, Conrad, Tolstoi, Proust, Nabokov, Virginia Woolf, Karen Blixen ficaram fora. Quem quer que não ganhe fica sempre bem acompanhado
Faz sentido. Esses eram os que sabiam escrever.
Há vários outros.
Hei-de trazer novamente o tema aqui quando tiver mais tempo do que tenho agora.
Será que têm coragem para fazer o que se impõe? Aceitam-se apostas…
Gostava que tivessem. Mas não aposto, Teresa.
O Nobel da Paz é só política. O da Literatura é maioritariamente política. O da Economia é parcialmente política.
Diria mais: O Nobel da Paz é só política. O da Literatura é maioritariamente política. O da Economia é maioritariamente Literatura.
Nobel da Economia tem premiado bons autores de ficção, sim
O primeiro Nobel da Paz devia ter sido para o Tolstoi. Por ter escrito a Guerra e Paz.
Devem ter ficado divididos.
Eheheh.
Ainda se lembram de instituir o Prémio Nobel da Guerra, com patrocínio de Moscovo.
Putin merece ser galardoado.
Concordo, desde que todo o ênfase seja dado à obra e ao autor e muito secundariamente focar o reprovável incidente cívico e de duvidoso carácter religioso.
Mas o meu ponto é esse: Rushdie há muitos anos que merece o Nobel.
Estão à espera que seja assassinado ou morra de morte natural para depois lamentaram já não ir a tempo…
Alguém aqui já leu alguma coisa de Rushdie?
(Eu nunca li.)
Ainda vai a tempo.
Peça ao Pai Natal.
Permito-me uma sugestão, caro ( e diletante…) “balio” : “Os Filhos da Meia Noite”, com tradução exemplar de Manuel João Gomes.
JSP
Excelente sugestão, incluindo a tradução exemplar, sim (e nada fácil). É um romance, aliás, onde não faltam alusões aos portugueses, até em nomes de personagens.
Mas a sua sugestão (tenho a certeza) vai bater na parede.
Eu era novo e inocente na altura dos Versículos e cometi a imprudência e a insensatez de comprar e ler aquela treta, por culpa do jornalismo do independente. Já na altura o jornalismo era enganoso.
O livro não vale um caracol, e a cena que valeu a sentença de morte ao autor é apenas meia página onde um barbudo de merda chamado maomé (há poucos, há… Podia ser qq um) tem um acidente e espeta um mercedes benz não sei onde. Não tem interesse nenhum: é tudo muito estúpido e imbecil. O próprio balio, que anda por aí a nivelar por baixo as caixas de comentários dos blogues, podia ter escrito aquela merda. Vale um Nobel? claro que nao.
No fundo a polemica prefigurou a imbelicidade actual das redes sociais, onde um pateta qualquer enfiado num T1 no Pragal faz uma intifada contra os malvados do mundo. Sinceramente, acho que deviam ir todos para o caralho.
Deixem o Guterres trabalhar, ele é que é pago para salvar o mundo.
Beijinhos,
V.
Você cometeu um erro que eu cometi várias vezes com diversos autores: começou com o livro errado.
Se tivesse começado com ‘Os Filhos da Meia-Noite’, a sua opinião sobre Rushdie seria diferente.
Admito que sim..
PS. Peço desculpa pelos palavrões. Tenho de arranjar outro tom 🙂
Cumpts
Está desculpado.
Pedro, já dei a minha opinião sobre as atribuições do Nobel da Literatura. Nunca acabei Rushdie (há anos comecei os Versículos e fartei-me e reservei para outra altura e nunca mais lhe peguei) mas mesmo que lhe tivesse lido a obra inteira não saberia avaliar a qualidade ou a sua superioridade perante outros autores de qualidade. O mesmo para a esmagadora maioria dos autores premiados. Simplesmente não tenho competência para o fazer.
Falas em autores menores premiados, mas essa é a tua opinião. Haverá outros que saberão tanto (ou mais) que tu que podem discordar. E podes à vontade apontar para os que nunca receberam o prémio (e terás razão) mas em alguns casos será também porque talvez (sublinho o “talvez”) o consenso em relação à qualidade tenha vindo demasiado tarde.
Olho para discussões na net sobre o assunto (melhor, fui dar uma espreitadela) e descubro uma carrada de nomes a ser discutidos em foruns (que especulam sobre quem pode ganhar, não quem eles necessariamente escolheriam) e vejo imensos nomes que não conheço ou de que, no máximo, só ouvi falar. Só descubro uma referência a Rushdie e para dizer que se não recebeu até agora, não acreditam que venha a receber porque segundo o comentador, os seus primeiros livros foram aqueles que lhe dariam o prémio e a obra mais recente diluí o impacto que ele teria.
É Rushdie uma má escolha? Que seu eu. Sei que não compreendo o suficiente de literatura nem li o suficiente para poder sequer especular. Suspeito que 99,9999% das pessoas que especulem estejam na mesma situação que eu. Pergunto-me quantas pessoas terão lido Anne Ernaux, Scholastique Mukasonga, Can Xue, Yasmina Reza, Jon Fosse ou Dubravka Ugrešić. Eu não os li e só conheço de nome dois deles. Mas como poderá alguém que não lhes leu a obra dizer se serão melhores ou piores que Rushdie, Houellebeq ou Cormac McCarthy (só para dar alguns nomes mais conhecidos que ao que parece também costumam ser mencionados)?
Mais uma vez, possivelmente terás razão em escolher Rushdie. Mas critico a forma categórica como pareces rejeitar outros nomes.
Há um erro no teu comentário, João: eu não rejeito nome algum.
Limito-me a considerar que foi profundamente injusto não atribuir o Nobel a Javier Marias – e acrescento agora que a literatura de expressão castelhana está subrepresentada neste prémio, aliás como a de expressão portuguesa – e que Rushdie há muito o merecia também.
Só isto.
Boa noite Pedro Correia.
Respeitosamente, a sua sugestão é perfeitamente legítima e, como todas as opiniões, discutíveis mas a respeitar, discutíveis com argumentos.
Permita dois outros comentários:
– infelizmente os “Nobel” deixam muito a desejar como bem salientado por vários leitores;
– relevante, para mim, que cite Karen Blixen-
Boa semana, saúde, e muita pachorra para aturar as envolventes interna e externa.
António Cabral
Muito obrigado, meu caro António Cabral.
Pelas palavras nas linhas e nas entrelinhas.
Concordo 100% consigo terrestre. É um autor que conheço, a sua escrita não me é desconhecida, já o li por várias vezes e sim, merece! Mesmo.
Saudações alienígenas
Nao conheço o senhor. Sei que incendiou, premeditadamente , meio mundo, e que é protegido pela pior canalha que o mundo tem. Diz-me com quem andas…
Ponto final.
Realço a satisfaçao de ver o Autor arriscar propostas.
Quem é que incendiou meio mundo e é protegido pela pior canalha?
nao vá dar-se o caso de haver equivoco, só por isso vou responder (o obvio ) : Salman.
Fica ao critério do Autor deste post…
acabei de ver no JN o video de uma idosa acamada numa instituiçao e cheia de formigas.
Desisto.
Deve ser das formigas, mas está a ver tudo ao contrário. A pior canalha foi quem condenou à morte Rushdie por ter escrito um livro. E quem incendiou – e continua a incendiar – meio mundo é essa canalha. Que neste mesmo momento mata mulheres no Irão e no Afeganistão só por isso. Por serem mulheres.
Também não duvido que o prémio lhe deva ser atribuído, tendo por único critério a extraordinária escrita de Rushdie. Porém, duvido seriamente da coragem do Comité Nobel. De resto, creio já antes ter partilhado esta opinião num post seu sobre o Nobel da Literatura.
Os critérios de escolha num prémio literário são sempre subjectivos. Ainda assim, na minha modesta opinião, o trabalho de Salman Rushdie enquadra-se naquele argumento da universalidade que subjaz à escolha dos vencedores, e que ano após ano é repetido até à exaustão na justificação dos vencedores. Além, disso, olhando para alguns dos mais recentes laureados, os livros de Rushdie parecem-me incomparavelmente superiores.
Já por aqui se falou em Os Filhos da Meia Noite, mas podíamos citar também O Chão Que Ela Pisa, um livro belíssimo. E voltando à famigerada universalidade, temos Shalimar, O Palhaço e A Casa Golden, livros onde o autor aborda o terrorismo islâmico e a psicose colectiva que redundou na eleição de Trump (e, por analogia, de outros líderes do chamado Ocidente). São livros recentes, magistralmente escritos, nos quais a contemporaneidade é descrita sem outro filtro que não o da própria literatura – mas da boa literatura, aquela que filtrando não esconde, antes depura.
O Pedro citou vários autores geniais nunca premiados, os quais perdurarão bem para lá do próprio Prémio Nobel. Rushdie, creio, será um nome mais a acrescentar a esse rol. Sobretudo por suspeitar que o seu trabalho irá permanecer entre escaparates e leitores, muito mais que vários premiados, alguns dos quais tão recentes e já tão esquecidos.
É possível, embora o descalabro actual no Irão, onde vigora há 43 anos uma brutal ditadura que por estes dias não hesita em assassinar homens e sobretudo mulheres que ousam sair à rua contra a opressão, reforce o sentido moral que o Nobel a Rushdie nesta altura também teria.