A ministra Assunção Cristas tem sido criticada por recomendar que os funcionários sob a sua tutela não usem gravata nestes meses mais quentes do ano. Medida certíssima, que está a ser contestada até por quem nunca usou gravata na vida. Em ocasiões como esta, prevalece a típica falta de memória portuguesa: em 2008, um dos temas que aqueceram a política em Espanha relacionou-se com uma recomendação idêntica subscrita pelo ministro espanhol da Indústria, o socialista Miguel Sebastián, amigo pessoal do chefe do Governo, José Luis Rodríguez Zapatero. Motivo? “É preciso poupar energia”, declarou Sebastián, justificando esta medida, para escândalo de muito boa gente engravatada no país vizinho. Três anos volvidos, Sebastián continua a comparecer no Parlamento madrileno sem gravata, nesta altura do ano, por muito que isso irrite o seu camarada de partido José Bono, presidente do Congresso.
Por cá, é o que se sabe: a medida da ministra foi recebida de forma alarve e machista. Nada que surpreenda quem quer que seja.


Que grande medida!!!! Uuuuuaaaauuuuu!!!! Como é que ninguém tinha pensado nisso? Poupança de energia….começando por poupar as gravatas. Também, já agora poderiam ir trabalhar de calções, poupava-se dinheiro na roupa e mais no consumo de energia. Haveria até de ser engraçado: Reunião de Ministros, todos de calções!!!! vá tudo de pernoca à vela!!!!
Zé Parafuso, eu escrevi precisamente o contrário: alguém já tinha pensado nisto – e feito exactamente o mesmo agora anunciado por cá. Em Espanha, há três anos. Após estudos que relacionaram a informalidade do vestuário com a poupança de energia nos meses de maior calor. O nosso problema é chegarmos às mesmas soluções sempre mais atrasados que os outros.
Pois eu, acho a gravata um artefacto patético e recuperado depois de alguns anos pós-25 de Abril, tempo em que se entendeu – pela carga que trazia do anterior regime – um elemento distintivo de classe e castrador. Passaram os anos e volta o artefacto. Associado sobretudo ao sector terciário. Não tenho nada pró nem contra. Os homens elegantes são-no com ele ou sem ele. Já o mesmo não se passa com os deselegantes: nem que usem as melhores gravatas do mercado se apresentam bem; é isso e os fatos. Ridicularizar a coisa com calções é, por isso, tacanho. É de quem considera que pendurando um trapinho ao pescoço passa logo a ter bom ar e que usar um fato azul escuro o protege de sujidadades. Quanto à medida, não é nova lá fora, mas é-o cá. Poderá ser até pedagógica. Alargar-se a outras áreas do Governo e da sociedade, levando as pessoas a perceber que uma barba de três dias e umas banhocas em falta são bem mais desagradáveis aos sentidos.
Dóris Graça Dias
Obrigado pela visita e pelo comentário, Dóris.
No meu comentário apenas quis brincar com a postagem, talvez tivesse sido mal interpretado. Mas, como não se trata de elegância, trata-se de poupança, mais uma vez, só por brincadeira, repito o que disse no comentário anterior : Em calções poupava-se mais. Quanto menos roupa maior seria a poupança ( no Verão). Devia ser engraçado!!!!! As reuniões até tinham maior….interesse. E na AR? O que não seria!!!! Pelos vistos o humor da (?) Dóris anda muito por baixo, não admira… acompanha o País!
Concordo totalmente com o post.
A ministra deu uma ordem (que se baixasse o nível do ar condicionado) razoável e fez uma sugestão (que se aligeirasse o vestuário) igualmente razoável. Tal ordem e tal sugestão só deveriam ter recebido aplauso de uma esquerda que se quer desempoeirada e minimamente ecologista. Em vez disso, o que se ouviu da parte da esquerda foi um nunca acabar de chistes parvos, quando não subtilmente machistas. Um espetáculo triste.
Também me surpreendeu a atitude de uma certa esquerda que se pretende muito desengravatada perante esta decisão da ministra, que tem um valor simbólico para além da questão da poupança energética. O pior, como você sublinha, foram os “chistes subtilmente machistas”.
O que Assunção Cristas quer é “copiar” o Bloco de Esquerda que preza em não usar gravata, quer seja Verão, quer seja Inverno.
A política em Portugal é demasiado engravatada e demasiado encasacada. E não só a política: a administração pública em geral. Nos meses de Verão, também por causa disso, usa-se e abusa-se do ar condicionado – o que é um hábito fortemente anti-ecológico, além de ser penalizador em termos económicos.
Da administração pública, sim. Mas apenas da que não trabalha em património classificado… que aí usam-se as Betties – as betty uínhas – e é um pau.
Bem sei. Lembro-me como se fosse hoje daquele dia de Julho de 2004 em que tomou posse o governo de Santana Lopes, no Palácio da Ajuda. A sala abarrotava, o calor era insuportável, duas senhoras desmaiavam, o próprio empossado chegou a cambalear. Eu estava lá como jornalista e raras vezes me lembro de ter sentido tanto calor como naquele dia de má memória. Tudo porque o ar condicionado não podia ser ligado ali. Motivo: aquele espaço é património classificado. Nem oito nem oitenta.
Tiro na “mouche” Pedro.
O simbolismo dos pequenos gestos positivos engrandece quem os pratica ou ordena.Não fôsse isso e questionavamo-nos do porquê de oferecer flores à namorada, da acto singelo da aliança de noivado, de darmos primazia às Senhoras na passagem,etc…
No caso em apeço julgo ser demagógico insinuar-se que se tratou de pura propaganda.
Um bouquet de flores para a Assunção (e uma caixinha de chocolates).
É como diz: “O simbolismo dos pequenos gestos positivos engrandece quem os pratica ou ordena.”
Como estamos carecas de saber, compadre, este tipo de mau gosto vem sempre dos lados menos razoáveis, mas não menos esperados: são os que mostram que nem sabem o que vestir em cada caso, mas até por isso são alarves (como bem dizes).
É verdade, compadre. O que mais me chocou foi precisamente a alarvidade machista vinda de sectores que tanto gostam de proclamar a “igualdade de género” a propósito de tudo e de nada.
A típica hipocrisia nacional. Quer por discordarem de uma medida cujo sentido contrário jamais defenderiam. Quer por tentarem ridicularizá-la fazendo-a passar pelo que nunca quis ser (uma medida de fundo).
Isso mesmo, Laura. Uma síntese perfeita.
este assunto está a ser discutido de forma incorrecta.
A “poupança energética” está garantida com a imposição que foi feita para a temperatura ambiente no local de trabalho: 25º.
A dispensa (obrigatória) da gravata visa garantir o conforto dos funcionários neste ambiente.
A carta da ministra está no site do MAMOT , e tem até designação própria : “Ar Cool”.
http://portal.min-agricultura.pt/portal/p age/portal/MADRP/PT/servicos/Imprensa/xi x_imp/ficheiros/ar_cool.pdf
Diz isto, entre outras coisas:
“De acordo com o Despacho que assinei neste sentido, entre os dias 1 de Junho e 30 de Setembro de cada ano, os serviços deverão moderar a temperatura dos aparelhos de ar condicionado, estabilizando a temperatura de referência em 25º C. Em consequência, fica dispensada a utilização de gravata no dia-a-dia,
É uma decisão que visa dar resposta a preocupações de carácter ambiental, na sequência de estudos científicos que associam a não utilização de gravata à subida da temperatura do ar condicionado em 2 a 3 graus, sem que daí resulte qualquer prejuízo para o conforto dos funcionários.
Pediria, assim, aos Senhores Dirigentes do nosso Ministério que explicassem esta decisão aos funcionários dos seus serviços e departamentos, sublinhando o seu alcance real e simbólico, e sensibilizando-os para que a prática seja seguida por todos, já a partir de amanhã, dia 15 de Julho.”
Em vez de se estar a discutir o que é relevante neste despacho, ou seja:
– a imposição da temperatura de 25º nos locais de trabalho,
– a dispensa (obrigatória) do uso de gravata, significando que era obrigatório o seu uso,
prefere-se falar na louvável “recomendação” da ministra para os funcionários não usarem gravata.
De certeza que com a temperatura ambiente em 25º , a “sugestão” vai ser seguida.
Chegado o inverno cá vamos ter mais uma imposição de temperatura ambiente, para aí 19º, e a “recomendação” para todos usarem gravata, ou cachecóis, um echarpes, ou por aí.
O meu ponto, recordo uma vez mais, é que ninguém inventou nada por cá: em Espanha faz-se o mesmo há três anos, Verão após Verão. Nem precisamos de ir ao Japão para arranjar precedentes: basta olhar para o que se passa aqui ao lado.
Nada disto justifica os comentários boçais e alarves dirigidos à ministra. Foi essencialmente contra isso que me insurgi.
Re-apoiado!
O país está a arder; os bolsos dos portugueses estão cheios de cotão; o custo de vida está pela hora da morte; o futuro não se nos afigura nada risonho (só se for de riso amarelo…); boas notícias é coisa que o executivo teima em não dar aos portugueses (sabemos que é cedo… pressupondo que algum diaa cheguem boas novas), mas o Pedro chama à ribalta (e tem todo o direito de o fazer, claro) um tema menor e que já está morto e enterrado há pelo menos três semanas.
É óbvio que o ressuscitar deste assunto não é inocente, e só os mais distraídos escorregam na casca de banana.
Claro que nesta vida não há almoços grátis…E há seis meses, apesar de tudo, viviamos melhor e esta é uma dor que custa a combater. Cumprimentos
O país “a arder”, os bolsos “cheios de cotão”, o custo de vida “pela hora da morte”… Você só agora reparou nisso, «anónimo»? Chega tarde. Há muito que por aqui havia quem reparasse nisso.
Boas férias. Sem gravata, claro.
Dizia a rainha: «O quê? O povo tem fome e não tem pão? Coma brioche»! Claro que «por aqui» já tinham dado por isso. A gente sabe que sim.
Boas férias, também.
Obrigado.
Eu é que agradeço a gentileza, incluindo a citação atribuída a Maria Antonieta, que é sempre útil recordar. Hoje, felizmente, os políticos são afastados pelo voto e não pela guilhotina. De resto, como diria Alexandre O’ Neill, brioche é bom.
Claro que brioche é bom, nem era preciso recordar o O’Neil, embora o que o poeta tenha dito – na sua qualidade de criativo publicitário – foi «Bosh é Brom».
Claro que a gracinha saiu-lhe cara, com a fuga da conta da Bosh.
Cumprimentos de um leitor que o segue desde o primeiro post do CF.
Obrigado, de novo. Concordemos ou não uns com os outros, estes (como é o seu caso) são os leitores que eu mais estimo.
Só mesmo o Pedro para me levar a dar uma volta por 3 lixeiras…
Lamento, Carlos Alberto. Foi uma vez sem exemplo, prometo.