O Natal é o sorriso de Deus


Pedro Correia,

 

Quem tem fé acredita que não somos fruto de um acaso cósmico, de um acidente de percurso na eterna voragem dos dias e das noites desde que surgiram os primeiros clarões da alvorada à superfície da terra. Acredita que fazemos parte de um desígnio que nos transcende. Somos, não estamos. Vamos, sem nunca parar — numa espécie de viagem iniciática que nos devolve a insondáveis recomeços. Em busca permanente de nós próprios, reflectidos na face dos outros. Daí o significado mais profundo da palavra irmão, tantas vezes mencionada no Novo Testamento. Cristo nasceu pobre, despojado, sem bens materiais, na humilde gruta que lhe serviu de berço. Quem acredita, encontra aqui o mais exemplar dos símbolos: todos os filhos de Deus nascem iguais. É impossível uma fé autêntica sem esta nítida consciência ontológica da igualdade perante o olhar divino.

Regresso, por estes dias, às palavras de um pensador desaparecido demasiado cedo e que nos faz falta pelas suas lúcidas e por vezes desconcertantes cogitações. Victor Cunha Rego — é dele que falo — escreveu assim n’ Os Dias de Amanhã: “O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em egoísmos aterradores. Sem esse sorriso, a vida humana seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável, a opressão seria tolerável e tolerada.”

Reflexão para o Natal de hoje. Reflexão para o Natal de sempre.

Reedição

8 comentários em “O Natal é o sorriso de Deus”

  1. Não tinha lido a primeira edição, e foi com gosto que li. Muita coisa dita em poucas palavras. Parabéns.

  2. Gostei muito de reler-te nesta reflexão. Está aí a essência do Natal: esse olhar capaz de fazer desaparecer todas as diferenças ou, melhor ainda, de aceitá-las como naturais e igualmente valiosas. E gostei muito também da imagem que escolheste, porque não só sublinha essas diferenças com ternura, como torna irrelevante a discussão em volta da legitimidade do burro e da vaca no presépio. Nos Andes, quem aquece o Menino recém-nascido são lamas e vicunhas. E é assim que faz sentido. O Natal é, sobretudo, simbolismo.

  3. um texto sobre o natal sem aparecer o nome “jesus” é obra…um dos poucos nomes comuns em inglês, português, francês, castelhano…
    também se “isto” é tudo o que retiro do texto, está visto o que para mim é o natal…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *