O Natal deverá ser o momento apropriado


Sérgio de Almeida Correia,

Quem demonstra genuína preocupação com a pobreza e ganhou esta massa toda com a valorização das acções da SLN e do BPN, graças aos bons ofícios dos homens que sem o cavaquismo nunca seriam alguém, pelas declarações que vai fazendo deve querer agora entregar a quem precisa o que ganhou num mercado desregulado. Ao Banco Alimentar ou a qualquer outra congénere que não consegue donativos em quantidade suficiente para dispor de uma parte para jogar na bolsa.

A hipocrisia devia ter limites.

 

7 comentários em “O Natal deverá ser o momento apropriado”

  1. Não costumo comentar posts político-partidários mas não posso deixar de comentar este, Sérgio. O raciocínio de que te serves para criticar Cavaco Siva é perigoso e está contaminado, na minha opinião, por aquele populismo fácil que frequentemente deita por terra as melhores argumentações. Cavaco disse uma verdade incontestável: todos nós, como povo, devemos envergonhar-nos de que haja fome em Portugal (um país que faz parte da união europeia e se considera “civilizado”). Disse-o como presidente da república, e nesse papel tem toda a legitimidade para o fazer. Por outro lado, também como cidadão a teria. A sua fortuna pessoal é conhecida – ou seja, é sabido que não é rico – e esse é o seu ponto forte, desde sempre. Não se lhe conhece nenhuma desonestidade ou aproveitamento pessoal decorrente dos vários cargos políticos que ocupou, e mesmo essa compra de acções foi perfeitamente lícita, ao que se sabe. Podes criticá-lo pela falta de originalidade no discurso, pelo facto de ser desastrado e pouco dado a subtilezas diplomáticas, por rigidez e por falta de sensibilidade política, sei lá, por mil outras razões. Mas a hipocrisia de que falas aqui não tem cabimento, sobretudo pela razão que apontas. Por essa ordem de ideias, ninguém que tenha fortuna pessoal – por mínima que seja – e não a dê a instituições de apoio aos pobres, tem direito a pronunciar-se sobre problemas sociais. Este “ninguém” aplica-se a todos nós – eu e tu incluídos – e deixaria não mais do que os seguidores da Madre Teresa de Calcutá com direito a falar de pobreza e de fome. Entendes o que quero dizer?
    É fácil de mais, faccioso de mais, e eu sei que vales muito mais do que este argumento tão pobre.

    1. Subscrevo o que dizes. E não posso estar mais de acordo com o último ponto: a nobreza do Sérgio é muito mais. Acrescento apenas um ponto, Ana (e Sérgio): ninguém sabe (nem era suposto saber) o que cada um dá, quando dá e quanto dá aos que mais precisam.

    2. Não é esse o ponto, Ana.
      É evidente que ele tem toda a legitimidade para se preocupar com assunto. E é evidente que deverá fazê-lo. E em causa também não está qualquer desonestidade para se aproveitar da situação.
      Daí que eu também considere a sua preocupação genuína (não ficou entre aspas).
      Só que ela confunde-se com algumas atitudes que toma. E isso é mais do que ser apenas desastrado porque revela uma certa maneira de estar e alguma complacência com pessoas e atitudes que se vieram a revelar perniciosas e que em muito contribuíram para o estado a que isto chegou.
      E pelo que ouvi, durante o dia de ontem, parece-me que não fui o único a indignar-se com a forma como ele o fez.

      1. Numa coisa estamos inteiramente de acordo: Cavaco não soube rodear-se bem, como ficou largamente comprovado nos escândalos a que temos assistido. Mas – e sem que isso o isente da responsabilidade na péssima escolha de alguns dos seus homens de confiança quando era primeiro-ministro – a verdade é que a mancha da desonestidade nunca o atingiu pessoalmente, em muitos anos de governação. Era isto sobretudo o que eu queria dizer, e só porque o teu texto deixava em aberto essa interpretação.
        De resto, em termos de “boys” e da sua nobreza de carácter, nos governos socialistas também temos assistido a escolhas edificantes, como sabes. O próprio sistema político está contaminado, e isso é que é dramático.

        1. Ana,

          1 – Nunca esteve no meu espírito qualquer outro tipo de desonestidade. Que fique bem claro. O juízo que eu fiz, e continuo a fazer, tem a ver com as atitudes e declarações que Cavaco Silva faz enquanto Presidente da República e actor político. E aí sou livre e responsável. Eu tenho o meu padrão ético e político. Cavaco Silva terá o dele.

          2 – Em termos de boys “, como já te terás certamente apercebido por aquilo que aqui vou deixando, estou plenamente de acordo contigo, não distinguindo os boys ” do PP ou do PSD dos boys ” do PS ou de qualquer outro partido. Sobre eles me debruço, aliás, ainda que lateralmente, numa tese de mestrado. Merecem-me todos, enquanto boys “, igual asco. E nunca o escondi.

          3 – De acordo quanto ao que dizes sobre a contaminação do sistema político. A promulgação de hoje é a prova de que o Presidente da República não foge a ela e esta a todos contamina por igual.

          De qualquer modo, agradeço-te a opinião, pois que ela também me permitiu clarificar eventuais dúvidas, tuas e dos leitores, quanto à forma como entendo e vejo a política. Há já pelo menos três décadas.

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