O comunismo começou a cair há exactamente 50 anos, quando Moscovo mandou erguer em Berlim o Muro da Vergonha, com mais de 140km de extensão, destinado a evitar a sangria contínua de alemães do Leste para a então cidade sitiada no Ocidente, ilha capitalista num mar ‘socialista’: três milhões e meio haviam já passado a fronteira, número correspondente a 20 por cento do total de habitantes da República ‘Democrática’ Alemã. Mas nem mesmo o Muro evitaria por completo que os berlinenses orientais continuassem a fugir de uma sociedade concentracionária, tão bem retratada no filme A Vida dos Outros. Muitos pagaram com a própria vida a ousadia de procurarem a liberdade – por vezes com um tiro traiçoeiro disparado pelas costas. O Muro deu origem a muitas tragédias que jamais se apagarão da memória colectiva.
O mais demolidor retrato do comunismo soviético imposto pela força bruta em Berlim durante 44 anos é o daquele soldado que também participava na construção do Muro e que no último instante escapa à barreira – e ao possível disparo das armas dos camaradas – para escapar ele próprio rumo ao Ocidente, imortalizado pela objectiva de Peter Leibing. Eis um daqueles casos em que uma imagem falou mais e melhor que mil palavras.
Um sistema que precisava de construir uma barreira de betão rodeada de arame farpado electrificado e guardado por militares armados até aos dentes para evitar que os seus próprios habitantes fugissem em direcção ao sistema ‘inimigo’, com risco da própria vida, estava antecipadamente condenado ao fracasso. Foi esta lição de história que tão eloquentemente o Muro da Vergonha nos deixou.
ADENDA. Não esquecer: há dois anos, o PCP esteve contra um voto de congratulação pela queda do Muro. Com estes argumentos, expressos na altura por Bernardino Soares na Assembleia da República.


Caro Pedro Correia:
Não temos nós hoje na Europa um muro burocrático da vergonha, que impede a sangria de potenciais imigrantes africanos, ansiosos de fugir (dissidentes!) à pobreza opressora de suas terras? Acaso não fogem os cérebros desses países pobres para terras onde são bem remunerados, mas que impedem o desenvolvimento da sua terra natal? Que diferenças existe entre isto e a situação opressora do socialismo real?
Você compara o incomparável, confundindo a Estrada da Beira com a beira da estrada. Cinquenta anos depois, o Muro permanece como o símbolo mais sinistro do chamado ‘socialismo real’. O momento em que o povo alemão o derrubou, em Novembro de 1989, foi um dos mais empolgantes e memoráveis que pudemos testemunhar na História contemporânea.
E pensar que nos dias de hoje ainda existem pessoas a sonhar com aquele “paraíso” de leste. É assustador, terrificante.
Não falta ainda hoje quem pense que por detrás daquele muro, bem aconchegadinhas, ‘orgulhosamente sós’, com o Estado totalitário a velar por elas, viviam milhões de pessoas muito contentinhas.
Uma das coisas que mais me surpreendeu quando morei numa cidade da antiga RDA foi ouvir pessoas dizer que a vida naquele tempo não era tão má. Que se a gente não se pusesse com politiquices até vivia bem…
Outra coisa que me incomoda é a chamada “Ostalgie”, nostalgia do Leste. A memória é um filtro assombroso.
Nem mais, Helena. Um pouco à semelhança do que se vai ouvindo por cá, que «no tempo do Salazar é que se vivia bem». Ou em Espanha, em relação ao Franco.
Mas é claro que a um nível pessoal, além do regime, as pessoas eram felizes ou infelizes de acordo com as suas situações muito particulares. Recuso-me a apagar as memórias felizes de infância que tenho ‘apenas’ porque aconteceram durante o fascismo e julgo que o mesmo possa ser válido noutras ditaduras.
Eu sabia que já tinha escrito sobre o que acabei de dizer aí em baixo. Olha aqui, Pedro: http://o-meu-pai-e-eu.blogspot.com/2 009/11/o-direito-memoria.html
Será que a humanidade aprendeu alguma coisa com essa lição? Duvido, Pedro. Haverá sempre quem acredite que um muro resolve os problemas, pelo menos os de curto prazo. Porque haverá sempre quem não consiga ver para além desse curto prazo.
Alguns comentadores de blogues são assim, Ana. Mas do lado de cá, claro. Do lado de lá, do lado dos que sofreram, ninguém pensa isso. Estes saudosistas do que não experimentaram na carne talvez gostassem de ver um muro electrificado com soldados armados até aos dentes a dividir metade da cidade de Lisboa, como sucedeu em Berlim entre 1961 e 1989. Em nome do ‘socialismo’ e da ‘libertação dos povos’…
Sim, é fácil falar quando se está do lado confortável.
Muitos crimes se fazem em nome de causas nobres. E muito se prende em nome da liberdade…
Nem mais, Ana.
A Leste devia ser muito bom…estranho a malta de Berlim ocidental não ter saltado para lá aos magotes…
As fugas eram todas de Leste para Oeste. Insólito, não? É como em relação a Cuba: todos quantos podem, fogem; mas quase ninguém emigra para lá.