Há pouco mais de uma semana foi Armando Vara que passou à frente dos utentes de um Centro de Saúde. Agora é a segurança do Ministro da Justiça que viola normas elementares de respeito por uma situação de vida ou de morte. No caso de Vara, o juízo de condenação é pessoal e intransmissível. No caso de Alberto Martins, quero crer que o Ministro não terá responsabilidade directa na ordem dada no sentido de afastar uma ambulância em serviço. Todavia, mesmo que assim seja, estas situações são sinais dos tempos. Os que detêm o poder não estão ao serviço dos cidadãos. Servem-se do poder contra tudo e contra todos. O ambiente que dá origem a estes desmandos é o do arrivismo e da prepotência. O salto à Vara, sem respeito pelas mais elementares regras de civilidade, é uma actividade tão condenável quanto recorrente. Para praticá-lo não são mecessárias especiais aptidões físicas ou intelectuais. É, todavia, necessário apresentar uma acentuada fraqueza de carácter. A vara que permite ascender a cargos para os quais não existem competências adequadas é a mesma que permite saltar sobre os cidadãos no dia-a-dia. A segurá-la está sempre a mão de um boy. Chame-se ele Armando, Alberto ou Videirinho.
O Ministro da Justiça também pratica o salto à vara?
Rui Rocha,

Muito bem.
Caro Rui, a situação em si é condenável mas esta ocorrência leva-me a deixar a seguinte questão: Não estará na altura de rever o modo como são conduzidas as viaturas de emergência médica?
Neste caso foi o carro do ministro que não passava por causa da ambulância, mas imaginemos que fosse outra ambulância que não pudesse passar!
Trabalho em Coimbra e todos os dias vejo o modo como as ambulâncias passam pelo trânsito a assinalar marcha! Muitas vezes obrigam os condutores que estão parados no sinal vermelho a colocarem-se em perigo e muitas vezes elas próprias passam os sinais vermelhos, e por estranho que pareça para pouparem alguns segundos.
Ou seja, poderá uma equipa de emergência médica deixar a viatura de qualquer modo? Poderá uma equipa deixar a viatura ligada com o motor a trabalhar ficando sujeita a ser roubada? Que tipo de preparação e treino têm as pessoas que conduzem estes veículos? Segundo sei são enfermeiros ou técnicos de emergência com algumas horas de treino que conduzem estes veículos.
Talvez fosse bom pensar nisto, até porque segundo li na noticia o socorro à vitima nunca esteve em causa mas poderias estar em causa o socorro a outra vitima se outra ambulância não pudesse passar!
Abraço.
Sim, Nuno. As suas questões são pertinentes. É fundamental assegurar a formação dos condutores dos veículos de emergência. E estes devem ter caracterísiticas especiais que permitam gerir situações de stress intenso. No limite, teremos sempre que confiar no seu bom-senso. E isso foi o que manifestamente faltou na situação em causa. Um abraço.
É que não há paciência para esta gente, João.
Confesso que o que conheço da obra de Charles Dickens resulta de alguns filmes de animação que vi a preto e branco na televisão da minha infância. Nunca li nenhum livro dele. __ _
Ainda assim guardo na memória várias imagens que associo à sua obra.
A vida miserável dos que nada têm, lado a lado, com a ostentação fútil dos ricos e poderosos.
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Na rua correm esgotos a céu aberto, pisados por crianças que apesar da subnutrição insistem em brincar. Mais ao fundo, uma porta fecha-se escondendo atrás dela uma mulher que se deitará com um desconhecido a troco de umas moedas que lhe permitirão assegurar a sobrevivência dos filhos por mais uns dias.
De repente tudo fica em alvoroço. Um pássaro mirrado pelo frio e pela falta de alimento foi o primeiro a movimentar-se esvoaçando dali para fora. Depois foi um cão com três patas que, saltitando, desviou-se das rodas da carruagem puxada por duas parelhas de luzidios cavalos negros. No seu interior seguia um desconhecido, mas ninguém hesitou em desviar-se da sua passagem. Até um paralítico sem nome rebolou sobre si mesmo fugindo assim da morte certa por esmagamento.
Reagindo a um ligeiro movimento de mãos do condutor a carruagem imobilizou-se à frente do centro de saúde. Do interior saiu um ex-administrador do maior banco privado. Vestia um caríssimo e confortável sobretudo negro. Para que não sujasse os sapatos, certamente importados, uma criança afastou o lixo enlameado que separava a porta da carruagem da entrada do centro de saúde, ficando de mão estendida à espera de uma esmola caridosa que não chegou. O desconhecido seguiu a passos largos para o edifício.
Entrou e, como gostava que acontecesse, a sua presença interrompeu as conversas banais dos presentes. Tinha consciência que não era uma figura de proa do regime, mas sabia ser altivo para com os que nunca tinha ousado pisar as alcatifas do poder.
Dirigiu-se ao guichet. Ao contrário do que era habitual a funcionária interrompeu a troca de receitas com a colega. Ela sabia que o primeiro contacto verbal com o utente era um momento nobre da humilhação que lhe podia impor, mas o súbito silêncio da sala de espera alertou-a e algo no seu íntimo fez com que reduzisse os agudos.
– Posso ajudar? – perguntou, sentindo o sangue a ferver-lhe na cara.
– Preciso de um atestado médico que me isente de taxas moderadoras.
– Com certeza. Vou já pedir à doutora. – engoliu em seco e correu dali para fora respirando de alívio por ter conseguido dominar o musculo detrusor.
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Qualquer parecença com a realidade é pura coincidência, pois a realidade ultrapassa a ficção.
Bom fim de semana.
Tem razão, Paulo. A realidade ultrapassa a ficção. Nem por isso o seu texto é menos pertinente e adequado.
Posso garantir que cenas do género são frequentes na Rua da Quintinha, onde moro e, desde há alguns anos, mora também esse senhor. Recentemente, tive de esperar no meu carro largos minutos até que Sua Exª descesse e tomasse lugar no veículo do Estado que, à frente, me bloqueava a passagem. Dois “gorilas” com ar ameaçador encarregaram-se de me “dizer” que o melhor era estar quieto e esperar o tempo que fosse preciso… Uma vergonha!
Má vizinhança, portanto, Francisco.
Péssima. Quando vejo o sujeito aqui na rua, sempre importantíssimo e eternamente pendurado no telemóvel, revolvem-se-me as entranhas. Sobretudo por me lembrar de que o único feito da sua carreira política foi, pouco mais que adolescente, ter dirigido publicamente um pedido ao então Presidente da República…
A toda a vara a confraria de peleiros contrabandistas. Trás-os-Montes, Vinhais, Mogadouro ou Carviçais até podem de quando em vez soltar o seu cheirinho tipo trac , ou mesmo envergonhado tisnete tipo selo de cueca , mas coitados ao pé de um geral pivete. Cheira mal, cheira mal o País despejado á vara larga na capital. Há labregos por Lisboa e cheiram a naftalina.
Deve ser o cheiro de um certo apodrecimento, Amarques.