A propósito do debate que por aqui vai sobre as cidades, lembrei-me deste post, que escrevi em 2007, n’O Anónimo. Talvez ajude a perceber melhor a "tese".

O meu lado da cidade tem casas velhas e lojas fechadas, ruas estreitas, irregulares, passeios descuidados e fiscais da Câmara acoitados nas esquinas, perversos, à espera que transborde o tempo do parquímetro, dois minutos ou três, e já está!, mais um grampo e um reboque e umas dezenas de euros que voam, não que eu tenha razão de queixa, que já sei que sou de azares e, por isso, a moeda sempre a tempo nos dias, que são poucos, em que não ponho na garagem do Bonjardim. O meu lado da cidade tem cafés razoáveis e outros que são maus, eu prefiro os que são maus, não só porque estão mais perto, mas porque a gente habitua-se a ir onde é mais perto, onde as empregadas nos tratam por meninos e por meninas, quando não é Olá môr, o que vai ser?, e um sorriso, e até podemos ficar a dever, coisa que me acontece muito porque ando sempre sem dinheiro e depois vai lá a Dulce pagar. E entram os empregados das mercearias vizinhas, e as vizinhas das lojas do lado, e somos todos conhecidos e trocamos os jornais do dia e uma conversa ligeira, que eu estou sempre a acelerar, não porque tenha menos tempo que os outros, mas porque trato pior o tempo, coisa que nem sempre se percebe, mas é mesmo assim. Trato-o pior. E não me peçam para explicar, porque então isto deixava de ser um post e passava a ser uma dissertação, coisa que, como já perceberam, não joga muito comigo, sobretudo quando me ancoro no meu lado da cidade. Neste lado onde vejo vendedoras esporádicas de hortaliças, de peixe, de meias e do que calha, olho na banca e outro na polícia, gente de ar cansado, dia mau no Bolhão (penso sempre), quase da idade dos prédios devolutos, e também há o pedinte, que vem pouco, que não fala, mas que faz um silvo que honestamente me irrita, até porque o ouço mesmo quando estou no escritório e ele se planta na entrada. Há muito menos pessoas na rua do que há uns anos, garante o Sr. Fernando, e ele sabe, porque a coisa reflecte-se no que avia o café, e as prostitutas de rua do Bonjardim, logo ao lado, também sabem, o que as faz mais afoitas, imaginem lá que em tantos anos nunca me abordaram e são sempre tão simpáticas e educadas, nunca foram além de me pedirem um cigarro e um dia destes uma novata disse-me Então, querido, vamos p’ra pensão? e eu olhei-a e ri-me com um riso que não era sobranceiro era apenas de distância e ela percebeu e ofereci-lhe um cigarro que ela aceitou e acendi-lho e fui andando, a pasta castanha bamboleante, os passos firmes até ao carro, o cabelo que não abunda a agitar-se. E eu a amainar. O telemóvel ligado ao auricular, os telefonemas para a família e para os amigos, o trânsito que já está menos porque saio tarde. Atravesso a cidade para o outro lado. Para o lado onde os anúncios são mais neon e as ruas mais bem tratadas e os doutores usam fatos mais formais e onde os prédios são mais vistosos e espelhados e onde as prostitutas são menos visíveis e parece que são mais caras e não se plantam nas ruas, é coisa mais sofisticada e de recato, coisas que nem sequer se imaginam, é o que me dizem, que eu não sei, porque elas são menos visíveis e eu sou um bocado distraído e não me meto na vida dos outros. Quando ando mais descontraído e o dia é de rotinas, faço o trajecto da rotunda Boavista normalmente, rumo à Ponte da Arrábida, direitinho, o que não é assim tão simples quando ando em stress, porque aí, é sagrado que dou duas ou três voltas à rotunda até que desperto e sei que o caminho é aquele para o meu subúrbio de Gaia-mesmo-na-ponta-da-Afurada, que a outra nem conheço, mas devia, eu sei que devia, por todas as razões entre as quais porque a nossa terra é também aquela que nos acolhe, como me acolheu o Porto adolescente e depois Coimbra e depois o Porto e depois a Póvoa de Varzim e depois Gaia, como se eu fosse um cigano-oriundo-do-Marco-com-um-pé-no-Marco, porque um gajo como eu não se esquece de onde é. E não se deslumbra, é como é – assim.

Deixara o computador ligado e quando cliquei no rato para voltar ao trabalho, o cursor, que ficara, calculo, acima da ligação do Delito de Opinião, trouxe-me até este texto… E li-o, contido o alento do princípio ao final (alguma coisa teria a ver com isso a ausência de pontos, com certeza, he !), reconhecendo o Porto, nem sei porquê (mas o J.M . Coutinho Ribeiro deve saber) e ficando doravante (sempre adorei esta palavra) fiel leitora até…, pronto, mais não digo, que não de juramentos eternos, e por isso só até e por enquanto…
A ausência de pontos é mesmo para ser lido assim 🙂
E é bom que tenha ficado freguesa 🙂
Um excelênte apontamento de um ‘bocadinho’ da Cidade do Porto.
O lindo painel da ilustração é da Capela das Almas, na Rua de Santa Catarina, visto do lado da Rua Fernandes Tomás… se a memória não me atraiçoa…
O painel é precisamente aí.
Obrigado.
J.M.Coutinuo Ribeiro, um belíssimo post . Retenho a frase “não porque tenha menos tempo que os outros, mas porque trato pior o tempo, coisa que nem sempre se percebe, mas é mesmo assim. Trato-o pior”. Gostei.
Aparentemente nada tem a ver com o debate sobre as cidades, mas para isso, digo eu que não percebo nada nem de requalificação urbana, para além de constatar o obvio da falta dela, e do transito caótico e acabrunhante que empobrece diariamente a vida de quem tem se submete a ele, já existem experts de sobra. é esse o nosso problema, Muitos experts e pouca obra.
Todos tratamos mal o tempo. Uns pior do que outros. 🙂
E o exto tem a ver com o tema, ainda que romanceado, porque fala de un lado da cidade que se abandona.
Belíssima, esta aguarela que aqui nos traz sobre o nosso querido Porto. Não o sabia com talento (também) para a pintura. Parabéns.
Obrigado, Luís 🙂
E mate-me a curiosidade: vive ou viveu nas Antas?
Venham mais, originais ou recicladas como esta. Gostei muito.
Obrigado, Teresa. És muito amável 🙂
Pouco ou nada a ver com o tema dos automóveis na cidade, mas não deixa de ser agradável de ler. Aliás, isso torna o post ainda mais agradável de ler. Continue ou recicle, a mim tanto me faz, que o prazer não se perde por a escrita ser reciclada.
Obrigado, João André.
Meu caro, partes da tua visão e experiência pessoal para afirmar a tese, que percebo mas acho um pouco estrambólica, de que temos de ter garagens na baixa das cidades para lá meter os carros e não os utilizar. Se fosse só isso a resolver o problema dos centros históricos…
A baixa precisa de ter alicerces: comércio de qualidade, serviços, habitação para famílias e estudantes, indústrias do conhecimento, centros de investigação, universidades, galerias e centros de exposição, livrarias. Em suma, hábitos de vida. Os automóveis são meros acessórios, caso haja uma boa rede de transportes públicos que leve as pessoas à baixa. Quase sempre vou à baixa do Porto de metro – é mais tranquilo, rápido e fácil.
É evidente que os moradores têm de ter aparcamento para os seus carros e o aproveitamento dos interiores dos quarteirões seria muito positivo, mas não é o toque de Midas capaz de tudo solucionar.
Pois, parto da minha experiência pessoal e é assim que tem que ser. As cidades têm que ajustar-se às pessoas e não o contrário. E o que tem acontecido é o contrário, com os maus resultados conhecidos.
Numa coisa estamos de acordo: a Baixa precisa de ter mais residentes. Eu dou uma solução: criar condições para que seja confortável viver na Baixa. E isso implica pensar que as pessoas têm carros e não querem deixá-los na rua. E também não querem andar com as compras e os carrinhos de bebé centenas de metros.
A Baixa tem pessoas durante o dia. Mas não tem durante a noite. E é esse o problema: só poderá haver comércio de qualidade se houver residentes. De outro modo, as pessoas preferem ir ao centro comercial.
Vens à baixa de Metro? Sim, eu tamb+ém já fui de Metro para o Dragão. Mas não me consta que vás de Metro para o trabalho e, no entanto, era quase porta-a-porta. Vais ce carro, com as filas que apanhas. E não tem a Olga um carro para ir buscar o ZP e ir às cdompras? Não poderia ir de Metro?
Não, meu caro, o caro não é um mero acessório. Para o bem e para o mal, faz parte do nosso dia-a-dia.
Se meteres portagens às portas da cidades, que vais conseguir? Que haja mais quem fuja para a periferia – para viver e trabalhar. E aí, sim, será a morte das cidades.