O medíocre Corbyn


Pedro Correia,

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De um líder político esperam-se posições claras sobre os assuntos mais relevantes. Tudo quanto Jeremy Corbyn não revelou na recente campanha referendária no Reino Unido. Refugindo-se no silêncio, sem participar nos debates, enquanto todos no seu partido iam manifestando posições desassombradas (na grande maioria favoráveis à permanência do país na Europa), o dirigente trabalhista só se pronunciou enfim após o trágico desaparecimento da sua deputada Jo Cox, activista pró-União Europeia, assassinada por um fanático “nacionalista”.

E fê-lo mesmo assim com uma ambígua e relutante declaração, que semeou mais dúvidas do que certezas quanto à sua verdadeira posição nesta matéria. Sabendo-se que no referendo de 1975 votara contra a permanência do Reino Unido no espaço comunitário.

 

Não por acaso, alguns dos maiores nichos eleitorais do Brexit situaram-se em regiões de tradicional influência trabalhista, como Birmingham, onde os membros da outrora orgulhosa classe operária inglesa não hesitaram em transferir directamente o voto para alimentar as teses do UKIP, que lhes acenou com o medo aos estrangeiros ao vincar que o Reino Unido não pode continuar a receber um milhão de imigrantes por década e divulgando um miserável cartaz de campanha com uma foto de dezenas de refugiados sírios procurando entrar na Eslovénia. Nenhum deles, ao contrário do que a propaganda xenófoba insinuava, chegará a terras britânicas. Aliás o Reino Unido manteve-se à margem da rede de solidariedade europeia de acolhimento de refugiados.

Corbyn foi assistindo à derrapagem britânica para fora do euro com uma chocante indiferença, bem reveladora da sua mediocridade. Depois do descalabro sofrido nas eleições locais, onde o Partido Trabalhista foi varrido do mapa eleitoral da Escócia, onde conseguia sempre bons resultados, e após ter assistido a uma rebelião do seu próprio grupo parlamentar na questão da solidariedade ao povo sírio, a sua falta de liderança deixou de ser caricata para se tornar chocante.

 

Jeremy Corbyn está há décadas na política. Nunca desempenhou uma função executiva. Nunca se distinguiu em nada excepto na teimosa manutenção de um lugar em Westminster: é deputado desde 1983, eleito sempre pela mesma circunscrição da área metropolitana londrina. Eterno parlamentar de segunda linha, tornou-se líder do partido em 2015 impulsionando pelas “redes sociais”, declarando a intenção de “defender causas e promover debates”, o que diz tudo sobre a retórica balofa deste homem que militou contra o “imperalismo britânico”, detesta o Estado de Israel, admira o Syriza e considera Karl Marx uma “fascinante figura”.

Aliado dos republicanos irlandeses que durante décadas pegaram em armas contra os britânicos no Ulster, indignou os próprios correligionários ao convidar dois membros do IRA a discursar em Londres escassos dias após o atentado bombista promovido em Outubro de 1984 pela organização separatista no congresso do Partido Conservador em Brighton. Um atentado que matou cinco pessoas, incluindo um deputado, e do qual a primeira-ministra Margaret Thatcher só escapou ilesa por um triz.

Corbyn encolheu os ombros.

 

Com ele ao leme, o Labour está mais forte?

Não: está dividido como nunca. Logo após o Brexit, mais de três quartos dos 229 parlamentares trabalhistas votaram uma moção de rejeição do líder. Registou-se uma  debandada do Governo-sombra, com dois terços dos seus membros – incluindo o prestigiado Hilary Benn, responsável pelos negócios estrangeiros – recusando colaborar com o eurocéptico Corbyn, que parece manter-se congelado desde a década de 70, época em que desfilava nas ruas em defesa do “desarmamento unilateral” da Europa ameaçada pelos mísseis soviéticos e da renacionalização em larga escala da falida indústria britânica. 

O seu antecessor, Ed Miliband, é o primeiro a pedir que se demita. O mesmo fizeram muitas outras personalidades oriundas das fileiras trabalhistas – dos ex-primeiros-ministros Tony Blair e Gordon Brown ao economista Thomas Piketty. Mas Corbyn, apegado ao que lhe resta do poder interno, não hesita em fragmentar ainda mais o partido, agora mergulhado numa acesa campanha interna até ao próximo dia 24 em que o ainda líder enfrenta o deputado Owen Smith, um dos muitos que o foram abandonando. Entre os apoiantes de Smith figura o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, popular político de origem paquistanesa, primeiro muçulmano a ocupar este cargo.

 

A deriva trabalhista para a esquerda radical já causou profundos estragos ao partido num passado não muito longínquo, com a traumática ruptura de 1981 que levou à criação do Partido Social-Democrata, conduzida por quatro ex-ministros dos executivos de Harold Wilson e James Callaghan: Roy Jenkins, David Owen, William Rodgers e Shirley Williams.

O medíocre Corbyn, indiferente ao naufrágio iminente da maior força da oposição no Reino Unido, continua a pedalar furiosamente rumo a lugar nenhum.

 

0 comentários em “O medíocre Corbyn”

  1. medíocres são todos…excepto grande líder cristão libanês, General Aoun!! O silêncio de Inglaterra, França, NATO, Portugal, Estados Unidos, Alemanha face ao que está a acontecer no Líbano é algo de terrorismo puro !!! Os Daesh estão a ganhar terreno aonde não deviam depois de anunciada a GRANDE COLIGAÇÃO INTERNACIONAL CONTRA OS DAESH…depois do que aconteceu no Iraque e Síria à Cristandade, eis que os ventos daesh estão a chegar ao Libano…
    .
    (…)Maronite Patriarch Beshara al-Rahi received on Thursday several Christian officials where talks focused on the latest developments in Lebanon mainly the “marginalization of the Christians,” the state-run National News Agency said.(…)
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    http://www.naharnet.com/stories/en/216073-christian-figures-meet-patriarch-excluding-the-christians-unbearable

      1. Caro Pedro:
        O grande intelectual Umberto Eco, recentemente falecido, como sabe, referindo-se à Internet e às Redes Sociais, disse: «As redes sociais deram o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que, antes destas plataformas, apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade. Aí [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel. O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade».
        Neste caso não se trata de imbecilidade, nem sequer de insultos, como é frequentemente habitual nas redes sociais.
        Trata-se de uma espécie de «dissonância cognitiva» entre o que se discute e o que se responde: está-se a falar de batatas e responde-se a falar de tijolos.
        (Manuel Silva)

  2. “um dos maiores nichos eleitorais do Brexit situou-se em regiões de tradicional infuência trabalhista”

    Mas a ideia que tenho (confesso que com base em um ou dois comentários lidos na internet…) é que esses votos “leave” vieram sobretudo dos tradicionais abstencionistas vizinhos dos eleitores trabalhistas, não dos trabalhistas propriemente ditos, não?

    1. Birmingham – exemplo concreto que refiro aqui, da segunda maior cidade britânica – é um tradicional feudo trabalhista que se inclinou maioritariamente para o Brexit,

      1. Caro Pedro:
        É uma repetição do que já conhecemos nos anos 20 e 30, na Itália, Alemanha e França, com o voto operário a migrar para o populismo da Extrema-Direita.
        Nada de novo, portanto.
        (Manuel Silva)

        1. Em França já acontece isso há mais de uma década, com os votos vermelhos dos velhos bastiões operários a transitarem para a Frente Nacional. O desemprego, o temor da globalização, o espectro da chegada maciça de imigrantes que fazem baixar muito o valor da mão-de-obra, o colapso de várias ramificações do chamado ‘estado social’ – tudo isto funciona como combustível eleitoral, dinamitando as tradicionais fronteiras políticas que explicam cada vez menos a realidade dos nossos dias.

        2. Não que isso tenha grande relevância hoje em dia, mas creio que na Alemanha dos anos 30, foi sobretudo a classe média laica que transitou dos liberais para os nazis; o voto operários transitou dos sociais-democratas para os comunistas (até se dizia que se um operário perdia o emprego tornava-se comunista; se alguém da classe média perdia o emprego tornava-se nazi), e só nos partidos conservadores ou religiosos não houve grandes perdas de votos.

          1. Nunca é de mais, nos tempos que vivemos, lançar um olhar atento aos anos 30 – os anos do descalabro na Europa que depois viria a incendiar o mundo. São lições permanentes que a história dessa triste década nos dá. Para evitarmos repetir hoje os monumentais erros então cometidos. Na Alemanha e não só.

  3. Caro Pedro:
    O mais parecido com este cromo é o Pedro Sanchez.
    Parece que não anda de bicicleta, por isso não pedala para lado nenhum … mesmo assim marcha inexoravelmente para o abismo.

    1. O paralelo tem razão de ser, caro Manuel. Entre os dois, com franqueza, não consigo perceber ainda qual é o que tem maior pulsão suicida. Cada um tem levado os respectivos partidos para mínimos históricos – o que é mais evidente no caso do PSOE, com duas derrotas copiosas consecutivas, em Dezembro e Junho, sem que o secretário-geral extraia a conclusão que se impunha: a demissão, dando lugar a outro.
      Corbyn arrisca pagar um preço ainda mais elevado, partindo o mais que centenário Partido Trabalhista em dois. De forma ainda mais estrondosa do que sucedeu em 1981, quando o líder era o ultra-esquerdista Michael Foot: não venceu uma só eleição e permitiu 16 anos de poder indiscutível dos conservadores a nível nacional.
      Se houver nova cisão, terá efeitos ainda mais devastadores do que a anterior.

  4. Pedro,

    Este cavalheiro segue, quiçá, a cartilha do comunista Santiago Carrillo, que conseguiu destruir mais o seu próprio partido que o General Franco.

    Há tipos que só têm olhos para o seu umbigo. É pena!

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