O mau exemplo de Martine Aubry


Pedro Correia,

 

Vi há dias a líder dos socialistas franceses, Martine Aubry, numa manifestação de protesto em Paris contra a decisão do Governo de aumentar a idade de reforma dos 60 para os 62 anos. E ouvi-a proferir declarações indignadas contra esta medida, que se destina a viabilizar o sistema público de pensões em França, país que tem sérios problemas de natalidade e índices crescentes de esperança de vida: segundo as estimativas oficiais, daqui a duas décadas 31% da população terá pelo menos 60 anos, o que altera drasticamente a tradicional proporção entre trabalhadores activos e trabalhadores aposentados, base essencial do sistema.

Numa altura em que toda a Europa faz imensos sacrifícios em nome das gerações futuras, esta posição da dirigente máxima do PSF pareceu-me profundamente demagógica, irresponsável e até indigna de alguém que tem sérias ambições políticas. Interrogo-me o que faria Martine Aubry se estivesse no Governo. Certamente nada muito diferente do que o seu camarada Zapatero, presidente do Governo de Madrid, que em Maio anunciou a subida de 65 para 67 anos da idade da reforma em Espanha. E daquilo que o primeiro-ministro Giorgio Papandreou – também socialista – se viu obrigado a pôr em prática na Grécia, aliás de acordo com as receitadas preconizadas pelo FMI, cujo presidente é o socialista francês Dominique Strauss-Kahn. Já para não falar nas restrições que José Sócrates – igualmente parceiro de Aubry na Internacional Socialista – impôs este ano, por duas vezes, em Portugal.

A diferença entre um demagogo e um estadista é que o demagogo pensa na eleição seguinte e o segundo pensa na geração seguinte. Martine Aubry merece, sem dúvida, o primeiro dos qualificativos e está muito longe de justificar o segundo. Nem por isso lhe auguro sucesso nas próximas eleições francesas.

20 comentários em “O mau exemplo de Martine Aubry”

  1. O último estadista francês que recordo, chamou-se DeGaulle. Isto é rebotalho da pior espécie !!

  2. Pela mudança da idade da reforma dos 60 para os 62 anos, a França viu milhares de jovens na idade do ensino secundário a protestar durante dias seguidos nas ruas de modo manifestamente violento.

    Não teria sido a única, mas cheira-me que Martine Aubry também esteve na orquestração vergonhosa dessa juventude imberbe que contesta a idade da reforma sem fazer ideia do que isso é.

    1. Estes adolescentes que ainda não iniciaram a vida activa e já estão tão preocupados com a idade da reforma(!) deviam ser os primeiros a defender a mudança do actual sistema. Caso contrário as aposentações públicas entrarão em colapso muito antes de qualquer deles poder reformar-se.

  3. Entre 1970 e 2010 em França a produtividade quadruplicou, mais coisa menos coisa. Ou seja, cada francês produz em média 4x mais. Para onde foram os ganhos de produtividade? Em parte foram transformados em tempo de lazer (reforma mais cedo, horários curtos). O que está agora em causa é que lhes querem roubar isso, a troco de nada.

    Para em ultima análise uma oligarquia financeira capturar o máximo de riqueza, tal como fez nos paises que mais cedo foram atrás do mito dos “mercados livres” e do “governo magro”.

    Não sei o que move a senhora em questão, mas acho que há a terceira possibilidade de simplesmente estar certa, e essa não está contemplada no post.

    1. Não concebo uma Europa “unida” com diferentes catálogos de direitos e deveres para os seus membros. Numa altura em que a idade da aposentação sobe em todos os países (Alemanha, Reino Unido, Espanha…), em função da esperança de vida e como condição indispensável para manter viável o actual sistema público, só por irremediável demagogia a líder socialista francesa pode conceber que tudo permaneça na mesma. Precisamente quando os outros socialistas (poucos, bem sei) em funções governativas na Europa agem em sentido contrário.

      1. Caro Pedro Correia,
        A história da sustentabilidade da segurança social está mal contada. O argumento da demografia seria rapidamente posto de lado, se considerar que os ganhos de produtividade ultrapassam largamente a pressão colocada pelo envelhecimento a população.

        POr outro lado o envelhecimento da população tem uma importante componente conjuntural potenciada pela redução das natalidades. A prazo será reencontrado outro equilibrio, com outras proporçoes entre população activa e reformados.

        Finalmente as projecções que apontam para a falencia do modelo são normalmente para prazos de décadas, por economistas que não souberam ver com um espaço de semanas a crise financeira que se avizinhava. Credibilidade no minimo questionável.

        Parece-me antes que esta pressão sobre o estado social é antes resultado de politicos sem espinha e imaginação, apanhados num exemplo clássico de “disaster capitalism”.

        1. Caro LR,

          As suas dúvidas talvez tenham fundamento. Mas – e se não tiverem? E se daqui a 25 ou 30 anos se concluir que o estado social é inviável pois não tem base financeira que o sustente? Diz você que “a prazo será reencontrado outro equilibrio, com outras proporções entre população activa e reformados”. Isso é muito vago. Enquanto não se atingir esse “outro equilíbrio”, há que encontrar soluções concretas. Sendo a esperança de vida o que é nos dias de hoje, nada mais razoável do que aumentar a idade da reforma dos 60 para os 62 anos. E note que mesmo assim um francês continuará a aposentar-se mais cedo do que a esmagadora maioria dos seus concidadãos europeus.

          1. Podem os velhos trabalhar mais uns anos no fim, ou os jovens serem mais bem pagos ao principio. (em vez de atirados para a precariedade durante anos)… Tudo escolhas.

  4. O Pedro ontem fez um post a elogiar os políticos que no passado construíram o Estado Social e a vituperar os políticos que atualmente o estão a destruir. Hoje faz um post a castigar uma política que pretende preservar o Estado Social. Em que ficamos?

    1. Preservar o estado social passa por actualizar a idade da reforma em função da esperança de vida. Questão de aritmética elementar. Sem alterações ao actual sistema a actual proporção de 100 pessoas no activo a financiar 86 aposentadas mudará daqui a 25 anos para uma proporção de 100 pessoas no activo a financiar 114 aposentadas.

    2. “uma política que pretende preservar o Estado Social”

      V. consegue ser patusco todos os dias.
      Procure em qualquer dicionário e verá que preservar não é sinónimo de enterrar.
      A menos que o acordo pornográfico do socretinismo tenha decidido que é, claro.

  5. Há qq coisa de podre no reino da França.
    O caso, idade da reforma, devia ter merecido um ampla campanha de informação e esclarecimento da população.
    Que os ocupadíssimos governantes que temos, lá e cá, não se lembram: não têm tempo para pensar.
    Depois, defrontam-se com reacções como esta.
    Quanto à mandatária do PSF, custa a crer.
    A habitual cegueira dos instalados no sistema.
    Mas não temos tido aqui no rectângulo, a ignorância e a inconsciência a dominar as mentes brilhantes que chegam ao topo?
    Do 1º pelotão cavacal…à dinâmica estradal socrática?
    Está à vista o resultado.
    Como em 1892,
    nada de novo no regime, afinal.

  6. Foi essa demagogia de suportar causas de um modo economicamente insustentável que colocou Portugal à beira do precipício…
    Tal não impede de se concordar com um princípio em si, mas há sempre que ter em atenção a viabilidade do que se pretende, mas muitas vezes a demagogia vence o bom-senso e a médio prazo já se sabe onde se irá cair.

    1. Gostava de saber o que os outros líderes socialistas europeus, designadamente os que têm responsabilidades governativas, pensam da posição irresponsável desta senhora.

  7. Na minha natural ignorância, não vejo os políticos do ocidente preocuparem-se a sério e seriamente das razões que levaram á actual situação. Toda a gente diz que foi por culpa da especulação, leia-se aldrabice, financeira, mas a m continua na mesma.
    Também discordo da atitude populista da socialista francesa.
    Quanto aos jovens, as preocupações por eles demonstradas são, que quanto mais tarde as pessoas se reformarem, mais tarde eles entram no mercado de trabalho. E o dinheiro colocado pelos diferentes estados nas instituições bancárias, leia-se gatunos, dá perfeitamente para colmatar as hipotéticas falhas do Estado Social. A longevidade é cada vez maior em termos médios, é verdade, mas vejam também em que condições de vida essa longevidade é possível. Entrem por esses lares de Norte a Sul do País e apercebam-se dessa realidade. Valerá a pena ser reformado aos 65 anos e ir directamente para um lar de idosos, leia-se armazém de lixo humano, á espera da morte?
    O lobby da industria farmaceutica muito agradece.
    As pessoas deveriam reforma-se aos 60 anos, lógicamente com os devidos descontos em dia, para poderem usufruir do resta da sua vida dignamente, e por vezes participar e contribuir activamente na sociiedade mas de outras formas.

    1. O que defende estaria certo numa sociedade ideal. Infelizmente, essa sociedade está muito longínqua de nós – no espaço e no tempo – nesta Europa em que existem milhões de desempregados. Só em Espanha são 4,7 milhões. E não é mandando cada vez mais gente cada vez mais cedo para «a reforma» que este problema se resolve. Isso só fará implodir ainda mais cedo o sistema público de aposentações.

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