O maior no Portugal do Twitter


Pedro Correia,

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O Livre é um fenómeno. Partido recordista de menções nas redes sociais e nas arengas dos chamados opinion makers lisboetas, conseguiu mobilizar muitas caras conhecidas da pantalha em torno de um “projecto político” que se resumia à seguinte intenção: chegar ao Governo à boleia do PS.

Embalado neste nobre desígnio e na avassaladora onda de apoio que durante a campanha obteve no Twitter e no Facebook, o líder do Livre apressou-se na noite eleitoral a ser o primeiro dirigente a falar em directo ao País, imaginando-se já eleito. “Nós somos a novidade na política portuguesa e a candidatura do Livre/Tempo de Avançar será a novidade na próxima Assembleia da República”, proclamou Rui Tavares, visivelmente empolgado com a sua própria oratória. Sempre com um generoso tempo de antena proporcionado pelas mesmíssimas televisões que ignoraram por completo o PAN, único dos pequenos partidos que conseguiu eleger um deputado.

Alguém deveria tê-lo advertido em tempo útil que existe uma regra de elementar prudência nestas ocasiões: os deputados só chegam a São Bento depois de contabilizados os votos.

O Portugal do Twitter nada tem a ver com o Portugal real.

 

Cheguei a pensar que este escrutínio que rendeu ao Livre a magnífica soma de 39 mil votos e uma percentagem de 0,72% a nível nacional funcionasse como um banho de humildade para Rui Tavares, o mais desconhecido dos políticos portugueses fora do eixo Chiado-Príncipe Real.

Mas não. Quatro dias após o escrutínio, ei-lo de novo embalado pelas ondas mediáticas, desta vez em entrevista ao diário i, mostrando não ter recolhido lição alguma daquele duche de água gelada que o levou a ser o quase-deputado de duração mais efémera da história das noites eleitorais portuguesas.

“Fomos vítimas do sucesso das nossas ideias”, revelou nesta entrevista o dirigente máximo do minimalista Livre. Uma frase com ressonâncias churchillianas, digna de ombrear com o “sangue, suor e lágrimas”.

 

Rendido ao magnetismo desta frase, corri em demanda do programa eleitoral do Livre, esse manancial de ideias que tanto despertam a cobiça alheia.

Fiquei logo a saber que resultou do “trabalho desenvolvido nos últimos seis meses por dez grupos temáticos, com cerca de 500 subscritores e os contributos on-line de muitos outros”. Senti-me esmagado.

 

E o que li lá?

Estas originalíssimas dez ideias-chave, que faço questão em partilhar convosco, lamentando apenas fazê-lo num momento tão tardio:

– Devolver a política aos cidadãos, garantir direitos fundamentais [duas ideias numa frase só]

– Libertar o Estado da Captura Privada [mantenho as maiúsculas originais]

– Renegociar a dívida pública para recuperar [falta especificar o quê]

– Resgatar as pessoas e as empresas [falta especificar de quê]

– Acabar com a precariedade, dignificar o trabalho, proteger o emprego, garantir as pensões [quatro ideias numa frase só]

– Cumprir a Constituição no sistema fiscal: “uma repartição justa dos rendimentos e da riqueza” [falta especificar se o resto da Constituição se cumpre]

– Redistribuir para combater as desigualdades sociais [falta especificar o que se redistribui]

– Melhorar os serviços públicos criando emprego [tudo a funcionar com funcionários]

– Apoiar o investimento e a criação de emprego nas micro, pequenas e médias empresas [discriminando as grandes]

– Apostar nos territórios e na economia local [“apostar nos territórios” será jogo limpo?]

 

Enfim rendido ao poder mobilizador de tão excelso ideário, não pude conter a minha indignação perante a injustiça de quem negou a Rui Tavares o ingresso na sala das sessões plenárias do Palácio de São Bento.

Ingratos eleitores, todos eles.

Incluindo eu.

0 comentários em “O maior no Portugal do Twitter”

    1. “Investimento privado?” Horror! Anátema (e já uso termos religiosos; o que me devia valer – e sabe-se lá… – uma sessão de auto-crítica pública, um tempo num campo de reeducação; ou mesmo um revolucionário tirozito na nuca, com bala paga pela família)!

      Costa

    2. Arrancou-me uma pequena gargalhada.

      Quanto ao Post , penso que o Pedro Correia não devia perder tempo com minudências.

      O “líder” do livre depois de ter feito um manguito ao BE , agora que está sem tacho contínua a pensar em grande e a querer ser a pop-star da esquerda recorrendo ao fiel apoio da imprensa social e socializada.

      Acho que a mescla de papoilas precisa de mais tabaco.

  1. Dizia-me um velho anarquista que em tempos este Tavares o importunava amiúde com como levar a cabo a revolução. — Compreende-se-lhe a Isabel do Carmo…
    Tudo devaneios pueris, diz também. Trabalhar é que nada.
    Mais um inútil. Ainda bem.

    1. Faltou ao quase-deputado quase-revolucionário ler Saint-Just: «Ceux qui font des révolutions à moitié n’ont fait que se creuser un tombeau.»
      Vai mesmo assim, em franciú. Soa melhor.

  2. Caro Pedro Correia, permita-me. Há uma canção dos idos de 80 do século passado – Still ill, the smiths- que serve de irónica ilustração a tudo isto. Aos mais e menos livres e a todas as fantasias mais ou menos frustradas pelo odioso peso do real.

  3. Ele não era historiador? Já não haverá trabalho para fazer em História?
    Dá trabalho pois dá.É mais fácil alinhar umas frases feitas e tentar um partido,
    a ver se pega.

  4. Caro Pedro,
    o Livre foi um Partido que inchou nas Europeias porque serviu de toca aos estrategas do PS que pretendiam uma vitória poucochinha proporcionadora de fundamentação para derrube de Seguro.
    Essa gravidez esvaziou-se, como todas as outras, com o nascimento da criança.
    Só que Tavares, a quem Costa veio a agradecer ter acolhido alguns dos seus apoiantes (quase todos “simpatizantes”), nunca pensou que a hemorragia do parto lhe iria ser fatal.
    Foi preciso a realidade.
    Abraço
    Luís

    1. E nunca como agora ficou tão evidente o abismo que separa a opinião dos portugueses da opinião publicada pelo amiguismo dominante que levou o irrelevante Livre ao colo.
      Mas há mais marés que marinheiros, Luís. Em absoluto contraste com tanto anão fala-barato armado em gigante, por estes dias, destaco o silêncio digno do António José Seguro.
      Um abraço.

  5. Bom, “correu em demanda do programa eleitoral”, foi ao site do Tempo de Avançar e… carregou no link que estava ao lado de “Programa Eleitoral” e espetou aqui os títulos dos capítulos de um documento, aprovado bem antes da campanha eleitoral, a Agenda Inadiável.

    Pra não lhe faltar nada, aqui tem o Programa Eleitoral: http://tempodeavancar.net/?page_id=16739

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