Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite a uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: a Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ela responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari por que fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.
O livro
cronicasnofeminino,

Não subscrevo integralmente, Leonor, mas vejo aqui uma reflexão muito adequada e, sobretudo, muito serena. Gostei de ler.
Certo, João, eu já sabia que dificilmente concordaremos neste campo. Obrigada
Mas é sempre um gosto. Sinceramente.
Ele tem o direito de não interpretar…
Também.
Muito bem Leonor. Por mim agradeço-lhe esta reflexão serena e lucida.
De nada, Ariel. É um prazer partilhar convosco as minhas cogitações.
Saramago tem todo o direito a interpretar a Bíblia como quiser e a falar dos ‘judeus’ como falou, com aquele misto de sobranceria e desdém que lhe fica tão mal. E os seus críticos têm todo o direito a contestá-lo. Não há delitos de lesa-majestade quando estão opiniões envolvidas. Mesmo quando os criticados já receberam o Nobel. Ou precisamente quando o receberam.
Obviamente que sim, mas aquilo que perpassa dos comentários e do que tenho lido sobre o assunto é que, de facto, Saramago cometeu um delito de opinião. Pode ter uma opinião estapafúrdia mas tem direito a ela. Sobranceria e desdém não ficam bem a ninguém, com ou sem Nobel, e Saramago não é a mais simpática e afável das criaturas.
Saramago não é, de facto, a mais simpática e afável das criaturas, Leonor. Não gostei, particularmente, da forma como mencionou ‘os judeus’ nas declarações já prestadas. Escuto sempre uma espécie de campainha de alarme quando ouço alguém referir-se com manifesto desdém aos ‘judeus’.
..eu também as ouço, Pedro. Ainda bem que confirmo a “teoria” em audições alheias.
Não ouvi essas declarações, Pedro, mas confio em ti, claro. Embora possa parecer o contrário, nada me move em defesa de Saramgo, só porque é Saramago, mas tudo me move quando são as opiniões e a liberdade que está em causa. Neste caso estão.
O Nobel não traz aos galardoados bom senso e parcimónia se já não a tiverem antes. Só a título de exemplo, Wangari Maathai também disse que o HIV tinha sido criado em laboratório para erradicar a raça negra. Posteriormente retratou-se .
A liberdade de expressão não pode ter tabus. Criticar um livro, não me parece que seja crime, nem causa de reacções inflamadas como as de Sousa Lara e Mário David. Qualquer dia ainda haverá quem proponha que se queimem os livros de Saramago e se condene o homem ao degredo.
Muito bom o teu post, Leonor.
Nem mais, Carlos.
Leonor, concordo que a Bíblia tem uma interpretação diferente de pessoa para pessoa, como todos os livros aliás, mas acho que há maneiras e maneiras de interpretarmos . Para mim, e já o disse, o Saramago está a fazer uma excelente campanha de marketing para o livro…
Claro, aliás, ele consegue-o sempre, porque vai anunciando a “bomba” que vai ser lançada com cada livro seu. Já comecei a ler Caim e parece-me que não está no seu melhor, embora esteja a gostar.
O desdém com que Saramago fala dos judeus.
A sobranceria e desdém pelos outros povos do seu tempo: samaritanos, filisteus, etc. era uma característica dos príncipes religiosos da Judeia e do próprio Cristo. Leiam-se os Evangelhos , especialmente o de João.