O lado da liberdade


Paulo Sousa,

Radicais Livres é um dos podcasts que oiço regularmente. Depois da partida de Rúben de Carvalho, podemos ouvir Pedro Tadeu no braço esquerdo do debate em oposição a Jaime Nogueira Pinto.

Ao ouvi-los aprende-se imenso, e é especialmente interessante o modo intelectualmente honesto como os dois falam com espessura sobre os mais variados acontecimentos históricos e da actualidade, em que, e entremeando com algumas gargalhadas, esgrimem as suas visões diferentes do mundo.

Num dos episódios mais recentes, e quando falavam sobre o policiamento da linguagem em curso, Pedro Tadeu reconheceu que a esquerda poderá a estar a cair na armadilha de ser ela a que impede as pessoas e de ser ela a que limita as liberdades. Acrescenta que na sua juventude, era a direita que proibia e limitava, e assume que é de esquerda por oposição a isso mesmo.

Este reconhecimento será mais uma prova dos movimentos pendulares da história, e não desligo isto do detalhe do nosso, sempre histriónico, Presidente da Assembleia da República ter empurrado o deputado único da IL para a direita do hemiciclo. Na mesma linha podemos também lembrar o slogan da surpreendente vencedora das eleições regionais madrilenas, Isabel Díaz Ayuso – Libertad.

Este é o tempo que nos é dado a viver. A esquerda é hoje limitadora, restringe, impõe, proíbe, quer policiar as palavras e, entretanto, os pensamentos. E eu sei de que lado não quero estar.

 

PS: Pedro, esta senhora merece o destaque de um postal num destes viernes. 

8 comentários em “O lado da liberdade”

  1. Esta Senhora cortou, metaforica , e também literalmente, a coleta ao Moñas…
    Foi a primeira espada , com Monasterio e Garcia como peões de confiança…
    JSP

  2. Paulo Sousa, ouvi hoje, pela primeira vez, o “Radicais Livres” e sim, até gostei mas lá está, eu sou daqueles que gostam de qualquer “programa” em que, de facto e raramente isso até acontece nos mídia marxistas-culturais, se confrontam posições ideológicas opostas (nada, por exemplo, do “Prós e Contras”, com a cara recauchutada da Fátima Campos Ferreira , ou mesmo do “Conversas de Última Página”, onde o Rui Tavares se prontifica a, semanalmente, fazer o papel da barata tonta da Esquerda, que os outros 2 lhe destinaram).
    Pedro Tadeu é um Senhor, um cidadão excepcional, em todos os aspectos das suas intervenções públicas e, mesmo quando se sente pressionado a “justificar” o seu partido, acaba por o fazer de um modo surpreendente – só escrevo isto porque, aparentemente, no seu texto, a “anormalidade” é o Pedro Tadeu ou seja, a “normalidade” é o Jaime Nogueira Pinto.
    Não faço ideia em que episódio do tal programa é que V. descobriu que o «Pedro Tadeu reconheceu que a esquerda poderá a estar a cair na armadilha de ser ela a que impede as pessoas e de ser ela a que limita as liberdades» mas até, se isso é verdade, nem me surpreenderia de todo porque, para o seu partido, o PCP, todos estes novos fenómenos “esquerdistas” são sempre encarados como um produto da influência capitalista: o individualismo, o “liberalismo” ou seja, as “causas fracturantes” contra a clássica luta de classes… para o PCP, um negro em Portugal deve submeter-se à luta de classes que trará o milagre de uma sociedade não racista. Claro, o “partido” não tem necessidade de explicar o que fará aos seus que vêem “escurinhos” entre os negros que alinham com os racistas!
    Dito isto tudo apenas tenho a acrescentar que enquanto não ouvir, pessoalmente, o PT a dizer isso, apenas considero que o que V. “ouviu” foi apenas uma interpretação sua do que lhe ouviu. Não estou a duvidar do que entendeu do que lhe ouviu mas apenas a dizer-lhe que o percurso entre o ouvido e o cérebro é muito traiçoeiro…
    Sobre a Isabel Díaz Ayuso (e nem me estou a referir ao seu apelo ao PC!), não me surpreendeu nada nela: nem o tal “Comunismo o libertad”… diria apenas que é típico da actual Direita europeia que, depois de mais de 3 décadas a cantar hossanas ao enterro dos comunistas, ultimamente deu-lhes para os desenterrar e apresentá-los como ameaçadores mortos-vivos.

    1. Sim pois,
      O que eu ouvi foi apenas uma interpretação minha – ou seja, não acredita que ele o tenha dito – mas em qualquer caso, se ele o disse, não fica surpreendido até porque o PCP diz que…
      Então se quiser oiça aqui: https://www.rtp.pt/play/p5994/e544180/radicais-livres-2a-serie
      Minutos 33 e seguintes.
      PS: Não se deixe atraiçoar pelo longo percurso entre o ouvido e o cérebro…

      1. Caro PS, ao fim da noite daqui, lá fui ouvir o PT no episódio que mencionou e apenas o ouvi, por duas vezes, a usar a condição “se” em frases que abordam condições hipotéticas («se a esquerda se deixa cair na armadilha (…)» – ) e SE só a partir do seu segundo “se” (aos 34:53) ele consegue desenvolver porque usou a expressão “armadilha”, que como é evidente tem a ver com a situação específica da vitória da direita em Madrid e que ele admite que, de algum modo conseguiu usar «a questão da gestão da pandemia» pelo governo central (de esquerda), para explorar eleitoralmente, com sucesso, a ideia de que «ela é limitadora da liberdade» (se se lembra, eu ontem até mencionei o fantasmagórico trauliteiro lema da Ayuso, de “Comunismo o libertad”…), isso apenas se deve ao extraordinário ambiente criado no “podcast”.
        Bem entendidas para mim as suas afirmações, o que ele disse é que “reconhece” que o eleitorado madrileno, aparentemente, se deixou convencer que a esquerda no governo «é limitadora da liberdade» na sua «gestão da pandemia» – o que até nem é de todo surpreendente: esta pandemia tem conseguido demonstrar o quanto rupestres são os que se julgam como o fruto do expoente máximo da “civilização”! Mas daí, a abordagem do PT, mesmo que enviesada, da questão da vitória da direita em Madrid à generalização dogmática de que ele «reconheceu que a esquerda poderá a estar a cair na armadilha de ser ela a que impede as pessoas e de ser ela a que limita as liberdades» vai toda uma liberdade de interpretação que nem lhe pretendo recusar: nem me admiraria nada que V., numa troca de impressões sobre esta matéria, com o PT insistisse que ele admitiu (“reconheceu”) «que a esquerda poderá a estar a cair na armadilha de ser ela a que impede as pessoas e de ser ela a que limita as liberdades» mesmo que ele o negasse.
        Resumindo: sim, o que ouviu «foi apenas uma interpretação» sua e não, não ficaria surpreendido se ele alinhasse nas habituais interpretações leninistas do PCP mas sim, ficaria desiludido se, pelas razões subadjacentes no meu elogio ao que descubro nele, ele o fizesse.
        PS. Não, PS, eu nunca me deixo «atraiçoar pelo longo percurso entre o ouvido e o cérebro» porque nesse percurso, para mim que sou um “radical da esquerda”, nem me deixo enrolar com a lengalenga anti-“liberal”, do Jaime Nogueira Pinto.

        1. Entendi bem o que quis dizer. Estava a ler o seu comentário e parecia que estava a ouvir o camarada Jerónimo a celebrar mais uma vitória eleitoral.
          Cumprimentos

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