O humor é uma arma


joaomsandre,

O humor é uma arma poderosa. Tão poderosa que não importa se é bom ou mau, se faz rir muitos ou poucos, se é politicamente empenhado ou enternecedoramente naïf. É tão poderosa que talvez só a religião se lhe compare e, consequentemente, se lhe oponha mais fortemente que qualquer outra vertente ideológica ou política.

 

O ataque de ontem ao Charlie Hebdo não é um ataque a uma publicação, a um conjunto de cartoonistas ou, “simplesmente” à liberdade. É um ataque ao humor. É que se muitos meios podem ser usados para transmitir as imagens de Maomé que enfurece os muçulmanos, apenas o humor transmite, de forma rápida e eficaz, a mensagem que se quer fazer passar. O melhor post que li até agora sobre este assunto foi o do nosso José Navarro de Andrade. Como ele, eu não gostava dos cartoons do Charlie Hebdo, os quais me pareciam subverter o propósito de um cartoon: “rir-provocar-pensar”. Frequentemente começavam com a parte de provocar e não era claro que fizessem rir. Mas, como há uns anos num posto do Daniel Oliveira no Barnabé intitulado – creio – “Kit Páscoa”, defendo que o humor não deve conhecer fronteiras e que é quase sempre ofensivo para alguém. Desde que não promova violência – física ou outra – qualquer cartoon deve ser publicado.

 

E, num dia em que se lamenta o ataque aos cartoonistas do Charlie, convém lembrar que estes foram “apenas” os mais violentos de uma corrente frequente. Na Turquia os cartoonistas estão sob mira de Erdoğan. No passado o humor em Espanha foi suprimido aquando da publicação de cartoons sobre a Casa Real. Em Portugal, e recuando ao passado, lembro-me de houve a censura ao Humor de Perdição.

 

Sim, a liberdade é importante, mas mais ainda que a liberdade de imprensa, a liberdade de humor é para mim fundamental. É que se uma imprensa amordaçada encontra formas de se rebelar, um mundo sem humor está a caminho da morte.

0 comentários em “O humor é uma arma”

  1. Obrigado pela parte que me toca. É isto que dizes não mais nem menos, o que já é muitíssimo. Entre os cautelosos do day after, os relativistas do “cadê as outras vítimas?”, os tontos das causalidades absurdas e os – menos maus – que também são Charlie sem nunca terem dado sinal anterior de partilharem a truculência do Hebdo, há que afirmar, não uma solidariedade com os valores, a atitude e o ponto de vista do jornal – que não temos e seria hipócrita afirmar o contrário – mas uma defesa intransigente do direito dele existir publicamente. Defender a liberdade de expressão é defender a liberdade de os outros se exprimirem, não é concordar com o que eles dizem.

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