O grande mistério


José Maria Gui Pimentel,

A postura do Bloco de Esquerda nos últimos meses é para mim de difícil compreensão. Estas eleições deveriam oferecer ao partido uma margem de progressão nunca antes obtida. Nunca poderia prever que o Bloco estivesse em risco de ficar abaixo do resultado obtido em 2009.

O cenário pré-eleitoral era o seguinte: de um lado o PCP, com uma massa de votantes absolutamente rígida e, em muitos casos, com um ódio visceral ao BE (como antes ao PCTP-MRPP); de outro um PS, que, depois de seis anos no governo (particularmente depois deste último ano), mais do que nunca, havia perdido a sua imagem de partido “socialista”. Estavam, por conseguinte, em campo todas as condições para que o BE se sentisse seguro para fazer uma incursão na área socialista, sem medo de ver o seu espaço à esquerda roubado pelo PCP.

Todavia, Louçã, noutras alturas tão arguto, optou pela estratégia oposta: acantonou-se na extrema-esquerda, quase sobrepondo-se ao PCP (ainda gostava de saber porque é que ninguém perguntou ainda a Louçã o que diferencia o BE do PCP – sim, a Louçã, pois o PCP está, para o bem e para o mal, quieto há 37 anos). Esta conduta é incompreensível, pois impossibilita o crescimento do partido. Louçã deveria saber que os votantes de extrema-esquerda em Portugal são em número limitado (embora até seja de admitir que possam ter crescido um pouco com a crise), e o facto de, até agora, terem chegado para dividir com o PCP em fatias de tamanho razoável já é, por si só, algo sem comparação a nível europeu.

Esta conduta permitiu a Sócrates – sempre atento a estas coisas – explorar o espaço deixado livre à sua esquerda, ao mesmo tempo que mantinha o PSD colado à direita, acusando-o de radicalismo.

Para esta estratégia infrutífera do BE encontro apenas três explicações possíveis. A mais provável prende-se com o trauma Manuel Alegre, que ainda deve fazer Louçã acordar durante a noite com suores frios. A colagem ao PS foi aqui, de facto, prejudicial ao BE. Todavia, a situação actual é diferente. Não se trata de uma aliança ao PS, mas antes de seduzir a sua ala esquerda, deixando o discurso radical, que transmite uma ideia fatal em que muitos portugueses de esquerda ainda se recusam a embarcar: irresponsabilidade.

O ponto de inflexão na conduta do BE terá sido talvez a recusa em negociar com a troika. Louçã poderia perfeitamente ter-se encontrado com os negociadores, isso não o obrigaria a aceitar o memorando. Porventura dar-lhe-ia, agora, até mais autoridade para o criticar, ao mesmo tempo que permitia traçar algumas diferenças em relação ao PCP. Carvalho da Silva, por exemplo, reuniu com a troika. E não me parece que tenha perdido com isso reputação.

Uma explicação alternativa prende-se com aquela fobia inveterada à governação que muitos identificam ao BE e o consequente medo de poder ser visto pelos eleitores como fazendo parte do chamado “arco da governação”. Com efeito, não traria apenas vantagens ao BE sair da sua actual posição confortável de partido de protesto.

A última explicação que encontro é bem mais lisonjeira para Louçã, porém menos provável. Terá Louçã, na verdade, percebido o potencial de uma aproximação ao centro, apenas tendo decidido não a fazer porque o seu núcleo duro não está disposto a afastar-se do radicalismo que defende apenas com objectivos eleitorais? Talvez, mas nesse caso regressamos à ideia inicial: o que distingue o BE do PCP?

12 comentários em “O grande mistério”

  1. Boa estreia, com um tema que justifica reflexão atenta. Também para mim a recente evolução do Bloco de Esquerda constitui um mistério. Como é que um partido que deu provas de tanta inteligência estratégica durante tanto tempo vem dispersando os trunfos acumulados a uma velocidade vertiginosa para se tornar afinal uma espécie de ‘clone’ do PCP?
    Abraço, José Maria. Muitos e bons ‘posts’!

    1. Obrigado, Pedro, e – agora publicamente – muito obrigado pela confiança.

      Só gostava de saber porque ninguém pergunta ao Louçã o que diferencia o BE do PCP. É que se antes existia um certo europeismo, a recente postura, nomeadamente em relação à Troika, provou que essa diferença desapareceu.

        1. No actual discurso do BE e do PCP vê alguma diferença no que diz respeito ao internacionalismo? E a oposição a esses regimes também não é algo que transpareça muito. Nunca vi o Louçã perguntar isso ao Jerónimo em nenhum dos vários debates que já tiveram. Num espectro político limitado a 5 partidos e em que faltam tantas ideologias, não deixa de ser caricato haver dois partidos praticamente iguais.

  2. Parabéns pelo interessante post sobre um tema que me tem interessado bastante. Se me permite uma opinião, penso que é incompleto analisar a atitude do BE numa perspectiva meramente táctica em função das próximas eleições e que quando o BE fala na construção de uma “grande esquerda” não é mera retórica mas o enunciar de um objectivo estratégico.

    1. JP Santos, eu concordo que é incompleto analisar a atitude do BE numa perspectiva meramente táctica, a terceira hipótese de que falo prende-se exactamente com isso. Admito que Louçã não tenha querido ceder à táctica. Mas, nesse caso, essa “grande esquerda” não se poderia circunscrever a um partido só?

      1. Para que não fique qualquer equívoco não sou bloquista, mas parece-me óbvio que não daí a aproximação ao PCP e o constante “piscar de olhos” às esquerdas do PS. Nada conviria mais ao BE do que um bloco central ou uma ruptura do PS.

  3. Bem-vindo, Zé Maria! Bela entrada. Não tenho explicação para esse aparente erro estratégico do BE, a não ser talvez um facto simples: o BE é um partido elitista, composto dos mais cultos e sofisticados cérebros do país (em alguns casos o auto-rótulo até é justo, admito), ou seja, por definição um partido de diletantes. Não me parece que queiram o poder – a oposição crítica é muito mais interessante – e talvez não queiram mesmo alargar fileiras ao comum dos mortais, sob pena de perderem essa aura de superioridade intelectual de que se acham imbuídos. Estou errada? É bem possível, eu não percebo nada de política. 🙂

    1. Muito obrigado, Ana!

      Concordo que essa é uma explicação com alguma lógica. O problema é que o BE está numa encruzilhada, e se decide não evoluir também perde um bocado da “graça” que lhe tem permitido ter tanto apoio.

  4. Sem ter a ousadia de discordar da arguta análise, tenho um ponto de vista alternativo: ainda não é a hora do BE.
    A posição do BE definiu-se ao recusar a ajuda externa, tendo ocorrido uma colagem entre o BE e a CDU. Questão de princípio (a recusa da ajuda externa). O “contra-argumento” usado pelo BE é o da reestruturação da dívida. Não sei se é um bom argumento, mas estou convencido de que é um certeiro vaticínio. Ou seja, é uma espécie de argumento “à la longue”: agora não parece fazer sentido, mas há uma forte probabilidade de, num futuro não muito longínquo, se tornar verdadeiro (infelizmente!). Aliás, o tema da reestruturação da dívida até já começa a ser abordado pelo PSD e por alguns membros do próprio PS… Embora não justifique a recusa de participar na negociação com a “troika”, como muito bem foi assinalado. Essa recusa visou conferir maior credibilidade à posição da recusa da ajuda externa, mas não era necessária, embora evite o argumento demagógico de assinalar contradição entre este postulado e aquela conduta.
    Há a hipótese de o BE ter apostado na derrota do PS para o PSD. Nesse cenário, o BE continuará a ser um partido de oposição (e não um partido do “arco da governação”), mas tendo como principal alvo o PSD (e, muito provavelmente, o CDS). Como tal, não adiantaria ao BE usar a estratégia do CDS e fazer o Francisco Louçã apresentar-se como candidato a PM. O BE poderá estar já a antecipar a jogada seguinte, que é a de ir ocupando o lugar do PS, não através do confronto directo (como sucederia agora) mas sim pelo protagonismo como oposição (ao PSD, que previsivelmente ganhará as eleições – e tb ao CDS).
    O combate entre o BE e o PS é sempre desigual, devido às enormes diferenças de dimensão. Mas será mais fácil de ser travado estando ambos na oposição. Nesse circunstancialismo, será mais fácil ao BE fazer oposição ao PSD e simultaneamente atacar o PS, metendo-os “no mesmo saco”, por ambos fazerem uma política de “direita”, demonstrando ao eleitorado, durante a oposição ao PSD, que o PS não constitui verdadeira alternativa (designadamente recordando a infeliz governação do PS na era Sócrates). Nesse condicionalismo, o BE poderá crescer quer à custa do PSD (que agora beneficiará de muitos socialistas descontentes) e do PS.
    Esta hipótese de estratégia é, aliás, a que melhor poderá explicar o facto de o BE ter escolhido desde já o PSD como seu principal adversário, como já alguém aqui assinalou (suponho que a propósito do debate PPC-Louçã). Assim, senão agora, pelo menos no futuro o BE poderá capitalizar dividendos qd a questão da reestruturação da dívida se colocar (e estou convencido que se irá colocar), “roubando” eleitorado quer ao PS quer ao próprio PSD. De resto, o BE tem de saber que é ao PSD que tem de conseguir conquistar eleitorado, uma vez que não é suficiente o eleitorado que possa conquistar ao PS e à CDU, tendo em conta a base eleitoral “fixa” destes dois. Ou seja, o arco da governação tem sido feito no eleitorado móvel que oscila entre o PS e o PSD. De modo que só se o BE conseguir concorrer com aqueles partidos na partilha do eleitorado móvel é que poderá algum dia entrar no chamado “arco da governação”. E esta é (ou será), aliás, a principal diferença entre o BE e a CDU…

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