Quando passam cem anos sobre o ensaio Totem e Tabu, que dá uma contextualização antropológica ao complexo de édipo, umas das mais conhecidas teses da teoria psicanalítica, lembro-me de como os meus filhos contribuíram para a discussão sobre a actualidade do pensamento do Segismundo, hoje tão desprezado.
Aos quatro e cinco anos parecia que tinham lido o mestre de Viena, tão estereotipados eram os seus comportamentos. De todas as cenas edipianas que guardo na memória destaca-se a que foi protagonizada pela minha filha, aos quatro anos, quando já na cama se preparava para o meu beijo de boa-noite. Disse-lhe “boa-noite, princesa”. Ela sorriu e respondeu, provocadora: “Eu sou a princesa, o pai é o príncipe e tu… és a bruxa má”. Depois desatou a rir, enquanto eu, pasmada e divertida a ameaçava com a minha imaginária varinha de bruxa.
Como dizia João dos Santos, o pai da psicanálise em Portugal, “Freud é a árvore do topo da qual se pode ver a floresta”. Quem se recusa obstinadamente a reconhecer-lhe o génio e de caminho demoniza todos os psis e as diversas abordagens psicoterapêuticas revela no mínimo preconceito, no máximo aversão à ideia de se expor. Nada que não se trate… no divã.


A tua última frase põe o dedo na ferida. A psicanálise é auto-suficiente e totalitária, ouso afirmar, porque assimila a crítica, ou seja, se alguém diz que Freud é um impostor ele responderá que essa pessoa precisa de ser psicanalisada. É o velho problema das crenças: se eu acredito que os raios são provocados pelo deus Thor, cada vez que vejo um raio comprovo a existência de Thor.
Zé, diz-me só: se a psicanálise é uma questão de fé, como explicas que tenha um enorme sucesso também no tratamento das perturbações emocionais das crianças?
É interessante ler a crítica que a dupla Deleuze/Guatari faz das investigações de Madeleine Klein. Ela punha os meninos a brincar com comboios e dizia “voilá ton papá”. Quando o comboio entrava no túnel: “voilá ta maman.” Claro que a psicanálise resultava, era ela que media os seus próprios resultados! Basta ler alguns textos mais escabrosos (sorry, é a palavra que me ocorre) de Freud sobre os sonhos (puro esoterismo), sobre a doença do Presidente Schreber (pura especulação diletante), ou, o pior, sobre a senhora que sangrava da vagina e que Freud diagnosticou como uma histérica em processo de transferência.
Nota que não confundo psicologia e psiquiatria, muito menos neurologia, com psicanálise, e dentro desta não meto Freud no mesmo saco que Jung ou Adler. E sempre tive um fraquinho por Cooper e Laing.
Sim, Teresa a psi resulta tanto como uma ida a Fátima – e pelas mesmas razões.
Ainda há muitos preconceitos em relação a psis e a pessoas que utilizam os seus serviços. E todos sabemos que o medo é a base dos preconceitos.
Escreves textos bonitos, Teresa, beijinhos 🙂
Exacto, do medo da devassa à crítica feroz e gratuita é um saltinho. Obrigada, Cristina
Teresa, nunca foi fácil aceitar que a Sexualidade é uma das bases primárias para a individualização e para o desenvolvimento da psique humana. Talvez a culpa esteja nas más interpretações que tantas vezes ocorrem, atribuindo um papel único ao Sexo –propriamente dito– quando ele, na verdade e apesar de ser bastante representativo, é simplesmente um elo a mais de um complexo de variantes que definimos como “Sexualidade”.
Concordo, CeC. A interpretação redutora do papel da sexualidade humana é um dos factores que inquina a discussão sobre a validade das teorias freudianas.
Já o preconceito generalizado relativamente aos psis radica, a meu ver, em atitudes fóbicas por parte de quem encara a abordagem psicoterapêutica como uma devassa intolerável.
Cá por casa há a 1ª edição francesa, de 1927.
Aproveito a efeméride para pôr no OLx?
Nabokov! Nabokov! Nabokov!