O futuro


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(Sob o mote “culpa e castigo” foi agora publicado o nº 5 da revista “Mordaz”, o fanzine digital iniciado durante o período do confinamento. Traz textos de Francisco Segurado Silva, Pedro Baptista-Bastos,Ricardo Silveirinha, Afonso de Melo, José Pimentel Teixeira, Artur Guilherme, Carvalho, Jorge Arriaga, Luis Soares de Oliveira, Sara Sampaio Simões, Olga Delgado Ortega, Philmore Stevens, Elsa Bettencourt. Quem tiver interesse em ler a revista bastar-lhe-á “clicar” na ligação ao documento (em pdf) e “folheá-lo” ou gravá-lo.

Eu escrevi sobre racismo. Ecoando uma pequena memória minha. Em si mesmo pouco relevante. Apenas forma de me demarcar do obscurantismo demagógico dos “bem-pensantes” deste Portugal.)

*****

 

Sexta-feira, são para aí 2 de manhã, subo a Guerra Popular vindo do Kampfumo, viro à direita, e sigo já na 25 de Setembro, e toca-me o telefone, surpreende-me a esta hora, até em quase susto, mas vejo que é um camarada, encosto para atender mas já (sub)entendi pois acabei de cruzar o África-Bar de esplanada apinhada e decerto que alguém ali me terá visto passar neste meu vetusto e rejubilante Ssangyong, o rino Musso. E assim é, ele, até parente, num “mais-velho, estamos aqui, e à tua espera …”. E logo salto do arção, avanço para esse tal ali, tanta gente que o gang da antropologia se refugiara no átrio do Cine-África, tudo de 2M na mão, eu vindo dos uísques lá dos CFM e assim um pouco desarmado mas algum mais-novo logo me traz companhia, durante as risadas do “onde andavas tu, mais-velho?” enquanto eu junto a boca ao gargalo recém-chegado, e a vida é assim, corre, afinal sou o único quarentão no círculo, onde abundam ex-alunos agora, e até desde há já muito, colegas.

Festiva a noite continua entre conversas flanantes, festa ombreada. E alguém chega, de todos eles conhecido, jovem trintão, um palmo maior do que eu, para cima e de ombros, que não de barriga, e ali colhe grande e geral agrado, rodada de abraços, daqueles das palmadas nas costas. Diante de mim aperta-me a mão olhando para o quem do lado, e eu, o tal mais-velho, na noctívaga variante bem-disposta, digo-lhe em sorriso jocoso “pá, olha para mim quando me apertas a mão!“. O que fui eu dizer!, o tipo investe “que é que tu queres branco de merda!” e por aí em diante, sempre para pior … Estanco, de tão surpreso, deste modo nunca vira isto nesta terra! Racismo aqui? Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos “tugas” como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada, mas assim nunca … E tranco, enquanto ele é logo afastado, rodeado num “então, calma, é o Teixeira, o nosso mais-velho!“. 

Tiram-no do átrio, esse que em tempos anteriores foi vivido como foyer, e planta-se ele no passeio ainda desabrido. A mim não só me amornou como azedou a 2M, e pergunto(-me) “que é isto? quem é este gajo?“, e um dos meus mais-novos esclarece, “é nosso colega, de Economia, fez o mestrado em Portugal e diz que lá sofreu muita merda“, e eu disparo, “e o que é eu tenho a ver com isso, caralho?!“, filhodaputa, professor universitário ainda por cima …

Mas o tipo não se cala, sonoro nas invectivas, e forçam-no a recuar até ao separador das vias, apinhado de carros pois tantos os clientes que enchem a rua. Ali encontra pedras e paus, que brande em gritaria, ameaçando-me, que já estou na breve escadaria da entrada. E nisso, sem que eu o esperasse, algo se me quebra, perco a cabeça como nunca me acontecera, pois uma merda destas eu não aceito, não posso aceitar … E avanço para ele, a passo cruzo o passeio e a rua, só depois imaginarei o que toda aquela multidão terá pensado do maluco daquele “branco” ou “tuga”, nestas condições assim ali quase-único, ou mesmo “velho”, que já estou encanecido, a avançar para um louco aos gritos com pedras na mão num “atira lá, meu cabrão!“. A meu lado, logo, C., que é, sempre eu o disse, como se um príncipe, e o mais influente da sua geração, num “calma, Teixeira, calma, mais-velho“, e o sacaninha, cobarde, nos gritos a atirar as pedras e paus, às minhas nove horas e às três horas, e depois às sete e às cinco, e eu avanço-me, no passo a passo descerebral, e é ele rodeado, enfiam-no num carro e lá segue à vida.

Semanas passam, surge o jantar final do ano lectivo, em casa de colega, um tipo porreiro. Connosco alguns dos finalistas, agora novos doutores também. E de súbito entra o tipo, com a mulher, afinal é ali família. Fico estupefacto, numa amálgama de sentimentos, é certo não poder desatinar pois sou convidado e a anfitriã está presente, e dever-me-ei retirar, ofendido?, mas não deixo de pensar, “oops, agora, sem aquela adrenalina toda, o sacaninha parte-me todo”, e até penso que ele virá dizer-me, mentindo claro, “professor ou teixeira, desculpe lá, havia bebido demais”. Mas nada disso, ele apenas me fita, com sarcasmo, em injúria altaneira, supremacista … 

Janto, converso, rio, pois é festa e também minha. Entretanto o casalinho sairá. Nisto fui fumando na varanda, olhando a Drenagem. Sem deixar de pensar, entre outras coisas, que aqueles meus queridos amigos não sentem nem percebem o quão inadmissível é juntarem-me com aquilo. E, pior, o conviverem eles com aquilo. Porque isto não é apenas o passado. É o futuro, compõe-no.

Não tenho culpa. Nem aceito castigo. E, aqui, agora, para o negar podem chamar os demagogos, letrados, atrevidos. Esta pobreza da gente da “petty-corruption”.  Que eu avançarei, na mesma. Passo a passo. Desde que, claro, perca a cabeça.

9 comentários em “O futuro”

  1. Também eu fico lixado com as atitudes racistas de um gajo ou gaja que se aproveite para passar à frente numa fila de supermercado ou até mesmo quando se pretende adquirir um bilhete para ver uma excelente tourada ou até mesmo para se ter acesso a deputado, porteiro de um ministério ou de uma instituição xpto, quotizações feministas, ministro, primeiro-ministro, senador, para se aceder a uma universidade – que agora discrimina asiáticos e caucasianos (brancos) – https://www.youtube.com/watch?v=M4BMofoX5SM -, secretário-de-estado, administrador numa companhia xpto, cacique ao serviço de um qualquer director… e até mesmo para se ser presidente da república.
    Que mania esta de ninguém querer ser igual a todo o mundo, e tudo fazer para que todo mundo não seja igual a estes e estas, e de se promover a existência de uma sociedade de castas e tudo se fazer para promover o uso de máscaras para se fingir que todos são iguais num mundo que de há muito vive mascarado!

    Há um racismo estrutural nas sociedades que me deixam puto da vida. E este racismo estrutural tem as cores do arco-íris, isto é: tem todas as cores.
    Também fico puto da vida quando pretendendo ser igual a todo o mundo e todo o mundo faz coisas que me obrigam a ser diferente do que sou, igualizando-me.
    É muito difícil um gajo procurar ser bom rapaz num mundo de bons rapazes e boas raparigas.
    Quando me vêm com conversas, como hoje se assiste um pouco por todo o mundo, sobre racismo, a minha primeira reacção é mandá-lo(a)s pró caralho.

    Por isto, jpt, estou de acordo com a mensagem que pretende passar.

    1. já agora, e relativamente á parte inicial do comentario, conto uma raridade : na loja pingo doce, estava ja com as compras em cima do balcao da Caixa, e fui parado, “ultrapassado” por 3 diferentes clientes prioritarios, que por estranhissima coincidencia acabaram a convergir para ali, quando havia mais caixas a funcionar.
      Como ainda existem pessoas que nao sabem, ja nao existem caixas especificas para prioritarios, mesmo que o letreiro ainda la esteja.

      1. Vem a propósito o seu comentário. No sentido de manter as funções cognitivas e motoras operacionais, entre outros exercícios, costumava (agora, para protecção, é mais difícil face à pandemia) levar uma familiar muito idosa ao supermercado. Deixando-a estabelecer a relação do preço por Kg indicado com a unidade do produto, pois por vezes quando vê o preço por kg, por exemplo: laranjas, pensa que o preço se refere à unidade.
        E este passeio também é um excelente exercício para aferir sobre sua capacidade de orientação em espaços de relativa dimensão, fazendo com que não se habitue a um só espaço e a um só ambiente, e a questão espacial seja deste modo trabalhada.
        Vai daí, quando chega o momento para pagar e estar na fila, pergunto-lhe sempre se deseja passar à frente. A resposta que sempre me deu foi: nem pensar. As filas são para se respeitar.
        Mas tem prioridade, digo eu. – Não importa, as filas são para respeitar, insiste.
        Óbvio que este exercício é feito em momentos de pouco movimento, mas determina o carácter da pessoa. E eu respeito sua decisão.

        Por isto mesmo surpreende-me situações como as que refere, que constato, e em particular em horas de maior movimento. Penso que por vezes alguém usa as pessoas prioritárias para se fazer prioritário. E isto chateia.

  2. pronto. Um caso do dia. Duas pessoas nervosas e ou enervadas.

    Verdadeiramente, aparte o sentir de cada um dos principais intervenientes, insolito só mesmo o outro ter recorrido a pedras e paus. Nao bate certo. Mas se foi assim, foi. Pronto.

  3. Cada macaco no seu galho, e de facto as misturas muitas vezes dão maus resultados.
    A imbecilidade e falta de bom senso existe em todo lado em todas as culturas, em brancos, em negros, amarelos, vermelhos, verdes….etc….

    Agora não é admissível que uma deputada ou partidos, ou organizações , façam manifestações de racismo daqui nada quase semana sim semana não, por interesses muito próprios.

    Para esta gente a pandemia não existe!Pela simples razão de eles serem o vírus da imbecilidade e da falta de bom senso.

    No principio da década de 90 tive na faculdade dois colegas negros da guiné, e sempre falamos todos sem problemas nenhuns,mas lembro-me de um episódio em que ia com eles no metro de Lisboa, e reparo num grupo de de 5 ou 6 rapazes de cor negra a olharem para mim com ar de reprovação, é quando o meu colega Intalte me diz que há mais racismo entre os negros ou seja o negro é mais racista entre eles próprios e em relação ao branco, do que o branco em relação ao negro.

    Pedro Silva

  4. Da fanzine, caro jpt, tiro como ilustração o texto de uma tal delgado ortega. Balda-se, ali, dos estribilhos vomitados pela media, com os mesmos juízos vertidos pela media, concluindo em uníssono com a media mas censurando a media por não ter ainda publicado a sentença transitada em julgado que leva, a delgado, debaixo da língua ou no regaço. Uma coisa indigente. Indistinta de um qualquer texto de opinião arrotado por colunistas da media de referencia. Esperava-se muito mais de uma fanzine. Noutro tempo liam-se fanzines, precisamente, para se não ler o que vomitava a media de referencia. Hoje, já nem isso. Louvem-se os Tribunais que o conseguirem ser, apesar dos latidos destas turbas!!

  5. Este pedaço, e a síntese histórica que encerra, é louvável “Sentira-o, muitíssimo, nos tempos em que aportara, mas cuspido por moçambicanos brancos, invectivando-nos “tugas” como se peçonhentos, algo execrável mas contextualizável, daquela tribo sentida como desamada“, mas encerra alguma confusão. Trata-se de ressentimento, bem ou mal dirigido, ou confrangimento de embaraço dos deserdados das proclamações socialistas ahistoricas que entendiam ressalvadas as suas posições de plena cidadania e que tarde ou cedo se aperceberam da sua condição apátrida ou de cidadão de terceira. E tribo será o meta conceito da nova meta linguagem, caro jpt, conheça bem a sua, o seu reduto!!
    Quanto ao episódio que relata. Estranho-lhe a singularidade e a surpresa!!

  6. Ou mais descarado ou mais envergonhado, o racismo existe sempre.
    Mas, por incrível que pareça, pior do que o racismo é a maneira como alguns “lutam” contra o mesmo:

    https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/frente-unitaria-antifascista-diz-que-fez-de-tudo-para-agregar-esquerda

    Cada um que tire as devidas ilações…

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