O fim do Bloco de Esquerda


Pedro Correia,

 

É difícil perceber por que motivo o Bloco de Esquerda continua a ostentar este nome tão cheio de presunção. Porque, como hoje é evidente aos olhos de todos, o BE é tudo menos um bloco. Com dissidências contínuas, pela esquerda e pela direita, este movimento que chegou há 15 anos à política portuguesa com a pretensão de unir a esquerda está a atingir resultados opostos. Em vez de unir, divide. Em vez de congregar, separa.

Dir-se-á: isto só começou a suceder agora.

Nada mais errado. Os sinais de desagregação do pseudo-bloco já vinham de longe. E tinham tudo a ver com a sua desorientação estratégica. O BE está para a política portuguesa como a selecção brasileira comandada por Scolari esteve neste Mundial de futebol. Sem unidade, sem coesão, sem prioridades definidas, transformando cada malogro táctico numa nova oportunidade desperdiçada para congregar o que resta das hostes, numa reafirmação dos velhos princípios da esquerda mais sectária: somos poucos mas bons, só faz falta quem está.

 

Sai agora Ana Drago, que foi uma das melhores deputadas da Assembleia da República nascidas após o 25 de Abril. Como anteriormente saíram fundadores, militantes, aderentes ou notáveis simpatizantes como Miguel Vale de Almeida, José Sá Fernandes, Joana Amaral Dias, Rui Tavares, Gil Garcia, Daniel Oliveira e tantos outros.

Estarão todos eles errados ou, pelo contrário, o erro reside na prática política cada vez mais intolerante e cada vez mais fechada do antigo Bloco?

 

Acompanhei, como jornalista, os primeiros passos do BE. Percebi, logo em 1999, que estava ali um movimento importante a que convinha dar a devida atenção. Escrevi muitos artigos sobre o proto-partido fundado por Francisco Louçã, Miguel Portas, Fernando Rosas e Luís Fazenda. Não tive dúvida de que faria movimentar a esquerda portuguesa situada à esquerda do PS numa altura em que, em matéria de costumes, o PCP ainda vogava no período do paleolítico.

Por tudo isto, a minha desilusão foi ainda maior ao perceber, antes da maior parte dos observadores, que o BE estava a ser canibalizado pelos comunistas, que pretendem transformá-lo numa segunda versão dos ridículos ‘Verdes’, revista e aumentada. Várias vezes alertei, aqui e noutros locais, contra o clamoroso erro estratégico dos bloquistas ao transformarem-se numa cópia do PCP, esgotando-se numa força de protesto inconsequente e transformando o PS no inimigo principal. Esquecendo que, entre o original e a cópia, a comparação é sempre desfavorável a esta.

 

Permitam-me que relembre aqui alguns textos que fui publicando no DELITO sobre o agora impropriamente chamado Bloco de Esquerda:

20 de Fevereiro de 2009: «Assumirão PCP e BE o ónus do regresso da direita ao poder? Será para isso que um número crescente de portugueses manifesta a intenção de votar nestes dois partidos?»

27 de Abril de 2011: «A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista, apenas um pouco mais citadino e com vestuário de marca.»

22 de Junho de 2011: «O Bloco não pode cometer o erro dos partidos tradicionais, que se fecham sobre si mesmos nos momentos do desaire. O aparelho bloquista, numa reacção instintiva, recusa debater com a profundidade que a situação exige a derrocada eleitoral do dia 5. Mas há um problema de fundo que o BE tem de resolver: ou se contenta em ser uma cópia do PCP, o que o condena à extinção a curto prazo, ou se assume como parceiro de soluções governativas à esquerda, o que implica fatalmente um diálogo com o PS.»

8 de Outubro de 2013: «O BE só revelará utilidade, à esquerda, se tiver ambições de governo. Ou seja, se estiver receptivo a uma futura coligação com o PS, único partido português com hipótese de constituir alternativa à actual maioria governamental. Se imitam os Verdes alemães na liderança bicéfala, por maioria de razão também devem imitá-los nesta matéria: os ecologistas atingiram a maioridade política em Berlim ao aceitarem coligar-se em 1998 com o chanceler social-democrata Gerhard Schroeder.»

 

Reitero tudo quanto escrevi. Não satisfeito, devo confessar, pelo facto de o tempo me ter dado razão. Porque considero hoje, como sempre considerei, que o sistema político português sofre de uma grave assimetria: só é possível formar maiorias governativas à direita. A esquerda, que tem o PS como partido maioritário, continua a viver neste dilema: ou se alia à direita ou jamais voltará a ser governo.

Por culpa de quem?

Dela própria. Do seu vazio estratégico. Dos monumentais egos dos seus próceres. Do seu incurável sectarismo.

18 comentários em “O fim do Bloco de Esquerda”

  1. Caro Pedro, o último parágrafo do seu post , resume em tudo o que é Esquerda: o seu incurável sectarismo, melhor dizendo e parafraseando alguém, quem não é por mim é contra mim.

    1. A esquerda não é sectária. Os partidos de esquerda, ao contrário da direita, têm dificuldade em convergir e unir-se porque não pretende abdicar dos seus ideias para se aliar a partidos que agem em total desacordo com a sua linha de pensamento social e político. Já a direita é capaz de se coligar com quem bem lhe aprazer já que as pessoas são o que menos lhe interessa… E Pedro, não me parece que será o fim do bloco de esquerda. A sua existência é fundamental para assegurar a defesa dos cidadãos em inúmeros aspectos e denunciar situações de injustiça e desigualdade. As pessoas que o constituem acredito fracamente que se organizarão e continuarão a lutar pelas suas causas, por uma sociedade mais democrática e justa.

      1. »» denunciar situações de injustiça e desigualdade

        Para além do PCP, até a DECO faz isso.

        Há um erro claro na miopia à esquerda.
        É claro que fazem falta denúncias de situações injustas.
        Porém, essas denúncias são pouco diferentes da do taxista, do pensionista, do funcionário público.

        Um partido não se resume a um conjunto de vozes de protesto.

        É difícil perceber isso?
        Qual é o plano de governação subjacente?
        Qual a primeira medida do BE quando for governo?
        Como vai promover a criação de riqueza no país, sem ser por ir sacar aos ricos – que, e é esse o problema, são menos ricos do que fazem crer.
        Os ricos roubam aos pobres. Muito bem dito.
        Vamos roubar aos ricos. Muito bem pensado.

        A esquerda tem-se resumido a esta lógica Robin do Bosques.

        Sai uma oposição bicéfala a uma liderança bicéfala.
        Porquê?
        Porque há meninos de tertúlias que ganharam um protagonismo no vazio, e querem mantê-lo.
        Qualquer menino que saiba fazer uma composição sobre os males dos fortes contra os fracos, é um intelectual de esquerda… e no caso do empregado do tio Balsemão, Daniel Oliveira, pode até dar um erro ortográfico por frase.

        Sou favorável a todos os que denunciem injustiças, mas vejo como problema psicológico mal curado, acreditarem que isso os torna Robin dos Bosques armados de setas escritas com arcos de escárnio e mal dizer.

        A esquerda tem-se resumido aos que alinham com a organização comunista, e aos que são naturalmente contra qualquer organização que não os valorize.
        O PS pós-muro-de-Berlim entrou num discurso de 3ª via próximo do CDS de Freitas do Amaral, e de facto não foi Freitas que mudou quando alinhou com o PS.

        Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria. Porém, como a estrutura do BE tem o núcleo duro da UDP, qualquer discurso sério serve apenas para fait-divers do Processo Revolucionário em Curso por toda a eternidade.
        A esquerda está polvilhada de jovens revolucionários que têm hoje 60 ou 70 anos, e que como cassetes perdidas no tempo, continuam a debitar o mesmo discurso, com todo o anacronismo de falarem nos “camponeses e operários” dos anos 70, como se eles ainda existissem na mesma forma.

        A maior desgraça portuguesa é uma direita oligárquica baseada nos favores do Estado à sua negociata privada, e uma esquerda de políticos profissionais que vê o Estado como uma Santa Casa da Misericórdia, e os portugueses como um conjunto de pedintes.

        1. É um prazer lê-lo caro da Maia !

          Gostei especialmente disto :

          “Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria”

          1. Faço minhas as palavras do leitor WW, reiterando e ampliando a citação:
            «Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria. Porém, como a estrutura do BE tem o núcleo duro da UDP, qualquer discurso sério serve apenas para fait-divers do Processo Revolucionário em Curso por toda a eternidade.»

          2. Obrigado W.W. e Pedro.
            De qualquer forma, concordar comigo neste caso não me parece muito bom…
            Abraços.

  2. Continuo a pensar que o facto de se querer insistir num modelo de formações politicas que já demonstrou criar uma click dirigente corporativa e com tempo enquistada nos seus previlegios não tras soluções e até repete o beco do estado novo do Salazar, acaba por ter o resultado que o Bloco agora apresenta.
    Para o cidadão anonimo não acantonado em partidos faz falat uma agremiação que acabe com as benesses implicitas na vida politica e se centre na resolução dos problemas sem dogmas – no fim o cancro das organizações humanas (politicas ou religiosas) que como tempo criam dogmas desajustados aos tempos que se vivem.
    Quem tem duvidas que o não comer carne de porco ou sacralidade dos pastores é uma cretinice que prejudica as propias relogioes e afasra os cidadãos pela cretinice de manter dogmas que tinham razão mas há seculos atras.
    Que apareçam movimentos novos é só uma questão de tempo e sabedoria/eficiencia que infelizmente tarda, apesar da tentaiva de Marinho Pinto tão escrutinada/deturpada(ou talvez nem tanto.

    1. O próprio aparecimento de Marinho Pinto, que sem dinheiro nem meios obteve um resultado assinalável nas eleições europeias, comprova a falência do Bloco de Esquerda.
      Um partido existe para apresentar soluções aos cidadãos e alcançar os meios para que essas soluções passem à prática. Não precisamos de um partido que se esgote na reivindicação: para isso já existem as centrais sindicais. Precisamos ainda menos de um partido que se esgote na “análise política”. Para isso já bastam os quatrocentos e cinquenta e sete “analistas políticos” que enxameiam os canais de televisão.

      1. Para isso já bastam os quatrocentos e cinquenta e sete “analistas políticos” que enxameiam os canais de televisão.

        Off tópic

        A informação ou o entretenimento de qualidade custam dinheiro e os comentadores que enxameiam as TVs ficam bem mais baratos além de que alguns são o que são exactamente por isso (serem analistas/ comentadores/ tudologos ) e o pior é que não têm vergonha nenhuma pelas responsabilidades directas no estado do País alvitrando-se agora de verdadeiros milagreiros que têm sempre solução para tudo.

        Quanto ao BE já disse em baixo no post que o RR colocou o que penso e por isso discordo do Pedro Correia quando afirma que o BE quis ser igual ao PC, o BE quis ser um PS de esquerda e no inicio conseguiu-o mas habilmente o PS esvaziou-o não só apoderando-se de algumas “causas” como colocando-o entre a espada e parede da governação como aconteceu na CML.

        1. Temos pontos de vista diferentes sobre o BE, o que não tem problema algum: é salutar este confronto de posições contrárias.
          Quanto às televisões, dou-lhe toda a razão: ter um comentador a palrar em estúdio (ou dois ou três) é a forma mais barata de preencher tempo de antena. O pior é que as opiniões inteligentes e bem fundamentadas – que também existem – perdem-se muitas vezes no meio da permanente algaraviada em que se transformaram os canais de notícias na TV por cabo.

          1. O comentário que entrou acima como anónimo é meu.

            Obviamente que não qualifico todos os comentadores pela mesma bitola, consigo obviamente escutar alguns e lê-los sem qualquer tipo de preconceito, pelo facto de serem coerentes ao longo do tempo em atitudes, actos e ideias ou não terem muitas responsabilidades no estado a que o Portugal chegou.

            A grande dificuldade nos dias de hoje é saber destrinçar o bom do mau face á enorme “quantidade” de informação a que podemos aceder, isso aprendi no trabalho que exerci durante bastantes anos, saber discernir do que é valido intrinsecamente do que é apenas marketing ou é veiculado para defender interesses não claros e com propósitos mais negros.

            O grande problema actual da comunicação e do jornalismo em particular é que muitas vezes é feito com base em interesses e na defesa de determinados grupos tendo-se perdido a honestidade intelectual e choca-me (CHOCA-ME MESMO) ver muitas pessoas com formação superior e carreiras profissionais distintas prescindirem da liberdade de serem honestos e aderirem a uma certa clubite de pensamento e acção uma vezes por ignorância e algum fanatismo mas infelizmente Na MAIOR PARTE delas porque lhes convém a nível pessoal, profissional ou social fazê-lo.

  3. Eu gostava era que o Pedro (como outros comentadores e bloggers da praça) em vez de mandar bocas para o ar me indicasse quais foram – em concreto – as políticas de esquerda que o PS quis aplicar e que não conseguiu porque lhe faltaram os votos à esquerda?

    Diga lá, em concreto, uma ou duas à qual faltou o voto do PCP ou BE?

    Esta converseta calimérica de que os partidos à esquerda não querem ajudar o coitadinho do PS já chateia.

    O que os partidos da esquerda não querem fazer (e eu como seu eleitor exijo que eles não façam) é pegar no meu voto e prometendo-me uma coisa traiam a minha confiança e avalizem as mesmas políticas que o PSD ou o CDS (cortes de salários e pensões, privatizações em barda, recuo do estado em sectores chave da economia, PEC’s sucessivos, benesses para os bancos e grandes empresas, recusa em discutir incompatibilidades de deputados, submissão acrítica à UE, etc…).

    Porque não nos iludamos:
    Quem aprovou TODOS os orçamentos de TODOS os governos PS minoritários? Resposta: PSD e CDS…

    Cumps
    JP

    PS: E também gostava que concretizasse a apreciação relativamente ao posicionamento “paleolítico” do PCP em matéria de costumes. Não foi o PCP o primeiro (e durante muitos anos o único) partido a bater-se pela descriminalização do aborto em Portugal?

    1. Meu caro, a sua linha de raciocínio ilustra muito daquilo que eu referi. “Aplicar políticas de esquerda” é um jargão que na prática significa isto: as forças minoritárias deverão impor o seu programa à força maioritária, o PS, sem fazerem a menor concessão.
      Por outras palavras: o entendimento exige credenciais prévias “de esquerda” e quem se arroga na posição de emitir essas credenciais é o PCP.
      Esta posição inaceitável tem inviabilizado maiorias parlamentares à esquerda desde a fundação do actual regime constitucional (já lá vão 38 anos, a caminho de três gerações). Uma espécie de nó cego que apenas possibilita dois tipos de maiorias:
      – De direita (PSD+CDS)
      – De centro (PS com apoio do PSD e/ou do CDS)
      Isto decorre fundamentalmente do sectarismo do PCP, que apenas sabe relacionar-se com as restantes forças de esquerda a partir de posições hegemónicas. Acontece que o PS não é o Partido Ecologista os Verdes, apêndice do PCP. Não faz o menor sentido que um partido que nunca conseguiu vencer uma eleição legislativa em Portugal condicione qualquer entendimento políticos a uma condição impossível: que o PS, três vezes mais importante em termos eleitorais, se submeta às teses minoritárias.
      O Bloco de Esquerda podia e devia ter desfeito este nó cego. No entanto, ao mimetizar as posições do PCP tornou-se inútil para o nosso sistema político em geral e para a esquerda em particular. Portugal não precisa de um segundo Partido Comunista. Já existe um. E a cópia é sempre inferior ao original.

      1. O Pedro desculpe-me mas continua a bater no ceguinho sem concretizar aquilo que diz.

        Vamos lá, se não gosta do “políticas de esquerda” chame-lhe outra coisa qualquer mas o PS teve ou não teve os votos do PCP e do BE quando foi preciso reconstruir o país e torná-lo melhor (segurança social, SNS, justiça, poder local, interrupção da IVG, rendimento mínimo, etc…)?

        Diga lá – EM CONCRETO – quando é que o PS precisou do PCP e do BE e eles lhe falharam?

        Então na UE alguma coisa distingue PS e PSD/CDS? Quer os votos do PCP e do BE a engrossar essa posição? O tratado orçamental é que é de esquerda?
        E onde anda o referendo à moeda única que o PS prometeu?

        E cá em PT, quem é que aprova sistematicamente os orçamentos dos governos minoritários PS? Alguma coisa objectiva distingue o PS do PSD na economia? Não estão de acordo nas privatizações? Não estão de acordo nas benesses à banca? Não estão de acordo na liberalização do mercado de trabalho? Não existe em ambos a mesma promiscuidade entre política e negócios? Não são ambos contra a exclusividade dos deputados?

        E quem é que negociou com a troika o plano de austeridade com os resultados que estão à vista (e que em boa hora foram alertados por PCP e BE)?

        Em verdade lhe digo, após 40 anos disto já só acredita quem quer…

        1. O PS nunca – repito: NUNCA – contou com um orçamento de estado apoiado pelo PCP ou pelo Bloco de Esquerda enquanto PCP-bis.
          Trata-se do principal e decisivo instrumento de acção governativa. Quer algo ainda mais concreto? Olhe que não é fácil.
          O resto é folclore verbal esquerdista para escamotear um dado de facto essencial: sempre que os eleitores deram o voto maioritário ao PS, este partido teve de governar sozinho ou então apenas contou com o apoio do PSD e/ou do CDS.
          Porque o PCP esteve sempre na trincheira oposta, alegadamente em nome da “verdadeira esquerda”. A que nunca pretende ser governo: só está bem na oposição. E a única “coligação” a que dá aval é com um partido-fantasma chamado Verdes.

          P. S. – Meu caro, estou familiarizado com siglas. Mas PT (sem ser Portugal Telecom) é algo que não consigo descodificar…

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