É difícil perceber por que motivo o Bloco de Esquerda continua a ostentar este nome tão cheio de presunção. Porque, como hoje é evidente aos olhos de todos, o BE é tudo menos um bloco. Com dissidências contínuas, pela esquerda e pela direita, este movimento que chegou há 15 anos à política portuguesa com a pretensão de unir a esquerda está a atingir resultados opostos. Em vez de unir, divide. Em vez de congregar, separa.
Dir-se-á: isto só começou a suceder agora.
Nada mais errado. Os sinais de desagregação do pseudo-bloco já vinham de longe. E tinham tudo a ver com a sua desorientação estratégica. O BE está para a política portuguesa como a selecção brasileira comandada por Scolari esteve neste Mundial de futebol. Sem unidade, sem coesão, sem prioridades definidas, transformando cada malogro táctico numa nova oportunidade desperdiçada para congregar o que resta das hostes, numa reafirmação dos velhos princípios da esquerda mais sectária: somos poucos mas bons, só faz falta quem está.
Sai agora Ana Drago, que foi uma das melhores deputadas da Assembleia da República nascidas após o 25 de Abril. Como anteriormente saíram fundadores, militantes, aderentes ou notáveis simpatizantes como Miguel Vale de Almeida, José Sá Fernandes, Joana Amaral Dias, Rui Tavares, Gil Garcia, Daniel Oliveira e tantos outros.
Estarão todos eles errados ou, pelo contrário, o erro reside na prática política cada vez mais intolerante e cada vez mais fechada do antigo Bloco?
Acompanhei, como jornalista, os primeiros passos do BE. Percebi, logo em 1999, que estava ali um movimento importante a que convinha dar a devida atenção. Escrevi muitos artigos sobre o proto-partido fundado por Francisco Louçã, Miguel Portas, Fernando Rosas e Luís Fazenda. Não tive dúvida de que faria movimentar a esquerda portuguesa situada à esquerda do PS numa altura em que, em matéria de costumes, o PCP ainda vogava no período do paleolítico.
Por tudo isto, a minha desilusão foi ainda maior ao perceber, antes da maior parte dos observadores, que o BE estava a ser canibalizado pelos comunistas, que pretendem transformá-lo numa segunda versão dos ridículos ‘Verdes’, revista e aumentada. Várias vezes alertei, aqui e noutros locais, contra o clamoroso erro estratégico dos bloquistas ao transformarem-se numa cópia do PCP, esgotando-se numa força de protesto inconsequente e transformando o PS no inimigo principal. Esquecendo que, entre o original e a cópia, a comparação é sempre desfavorável a esta.
Permitam-me que relembre aqui alguns textos que fui publicando no DELITO sobre o agora impropriamente chamado Bloco de Esquerda:
20 de Fevereiro de 2009: «Assumirão PCP e BE o ónus do regresso da direita ao poder? Será para isso que um número crescente de portugueses manifesta a intenção de votar nestes dois partidos?»
27 de Abril de 2011: «A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista, apenas um pouco mais citadino e com vestuário de marca.»
22 de Junho de 2011: «O Bloco não pode cometer o erro dos partidos tradicionais, que se fecham sobre si mesmos nos momentos do desaire. O aparelho bloquista, numa reacção instintiva, recusa debater com a profundidade que a situação exige a derrocada eleitoral do dia 5. Mas há um problema de fundo que o BE tem de resolver: ou se contenta em ser uma cópia do PCP, o que o condena à extinção a curto prazo, ou se assume como parceiro de soluções governativas à esquerda, o que implica fatalmente um diálogo com o PS.»
8 de Outubro de 2013: «O BE só revelará utilidade, à esquerda, se tiver ambições de governo. Ou seja, se estiver receptivo a uma futura coligação com o PS, único partido português com hipótese de constituir alternativa à actual maioria governamental. Se imitam os Verdes alemães na liderança bicéfala, por maioria de razão também devem imitá-los nesta matéria: os ecologistas atingiram a maioridade política em Berlim ao aceitarem coligar-se em 1998 com o chanceler social-democrata Gerhard Schroeder.»
Reitero tudo quanto escrevi. Não satisfeito, devo confessar, pelo facto de o tempo me ter dado razão. Porque considero hoje, como sempre considerei, que o sistema político português sofre de uma grave assimetria: só é possível formar maiorias governativas à direita. A esquerda, que tem o PS como partido maioritário, continua a viver neste dilema: ou se alia à direita ou jamais voltará a ser governo.
Por culpa de quem?
Dela própria. Do seu vazio estratégico. Dos monumentais egos dos seus próceres. Do seu incurável sectarismo.


Caro Pedro, o último parágrafo do seu post , resume em tudo o que é Esquerda: o seu incurável sectarismo, melhor dizendo e parafraseando alguém, quem não é por mim é contra mim.
A esquerda não é sectária. Os partidos de esquerda, ao contrário da direita, têm dificuldade em convergir e unir-se porque não pretende abdicar dos seus ideias para se aliar a partidos que agem em total desacordo com a sua linha de pensamento social e político. Já a direita é capaz de se coligar com quem bem lhe aprazer já que as pessoas são o que menos lhe interessa… E Pedro, não me parece que será o fim do bloco de esquerda. A sua existência é fundamental para assegurar a defesa dos cidadãos em inúmeros aspectos e denunciar situações de injustiça e desigualdade. As pessoas que o constituem acredito fracamente que se organizarão e continuarão a lutar pelas suas causas, por uma sociedade mais democrática e justa.
»» denunciar situações de injustiça e desigualdade
Para além do PCP, até a DECO faz isso.
Há um erro claro na miopia à esquerda.
É claro que fazem falta denúncias de situações injustas.
Porém, essas denúncias são pouco diferentes da do taxista, do pensionista, do funcionário público.
Um partido não se resume a um conjunto de vozes de protesto.
É difícil perceber isso?
Qual é o plano de governação subjacente?
Qual a primeira medida do BE quando for governo?
Como vai promover a criação de riqueza no país, sem ser por ir sacar aos ricos – que, e é esse o problema, são menos ricos do que fazem crer.
Os ricos roubam aos pobres. Muito bem dito.
Vamos roubar aos ricos. Muito bem pensado.
A esquerda tem-se resumido a esta lógica Robin do Bosques.
Sai uma oposição bicéfala a uma liderança bicéfala.
Porquê?
Porque há meninos de tertúlias que ganharam um protagonismo no vazio, e querem mantê-lo.
Qualquer menino que saiba fazer uma composição sobre os males dos fortes contra os fracos, é um intelectual de esquerda… e no caso do empregado do tio Balsemão, Daniel Oliveira, pode até dar um erro ortográfico por frase.
Sou favorável a todos os que denunciem injustiças, mas vejo como problema psicológico mal curado, acreditarem que isso os torna Robin dos Bosques armados de setas escritas com arcos de escárnio e mal dizer.
A esquerda tem-se resumido aos que alinham com a organização comunista, e aos que são naturalmente contra qualquer organização que não os valorize.
O PS pós-muro-de-Berlim entrou num discurso de 3ª via próximo do CDS de Freitas do Amaral, e de facto não foi Freitas que mudou quando alinhou com o PS.
Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria. Porém, como a estrutura do BE tem o núcleo duro da UDP, qualquer discurso sério serve apenas para fait-divers do Processo Revolucionário em Curso por toda a eternidade.
A esquerda está polvilhada de jovens revolucionários que têm hoje 60 ou 70 anos, e que como cassetes perdidas no tempo, continuam a debitar o mesmo discurso, com todo o anacronismo de falarem nos “camponeses e operários” dos anos 70, como se eles ainda existissem na mesma forma.
A maior desgraça portuguesa é uma direita oligárquica baseada nos favores do Estado à sua negociata privada, e uma esquerda de políticos profissionais que vê o Estado como uma Santa Casa da Misericórdia, e os portugueses como um conjunto de pedintes.
É um prazer lê-lo caro da Maia !
Gostei especialmente disto :
“Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria”
Faço minhas as palavras do leitor WW, reiterando e ampliando a citação:
«Ao BE quase que basta pegar nos discursos do PPD de Sá Carneiro, para ser hoje uma esquerda séria. Porém, como a estrutura do BE tem o núcleo duro da UDP, qualquer discurso sério serve apenas para fait-divers do Processo Revolucionário em Curso por toda a eternidade.»
Obrigado W.W. e Pedro.
De qualquer forma, concordar comigo neste caso não me parece muito bom…
Abraços.
Não há maiorias à direita. O PSD e CDS já não são de direita.
Tese similar à dos comunistas que dizem que o PS não é de esquerda.
Continuo a pensar que o facto de se querer insistir num modelo de formações politicas que já demonstrou criar uma click dirigente corporativa e com tempo enquistada nos seus previlegios não tras soluções e até repete o beco do estado novo do Salazar, acaba por ter o resultado que o Bloco agora apresenta.
Para o cidadão anonimo não acantonado em partidos faz falat uma agremiação que acabe com as benesses implicitas na vida politica e se centre na resolução dos problemas sem dogmas – no fim o cancro das organizações humanas (politicas ou religiosas) que como tempo criam dogmas desajustados aos tempos que se vivem.
Quem tem duvidas que o não comer carne de porco ou sacralidade dos pastores é uma cretinice que prejudica as propias relogioes e afasra os cidadãos pela cretinice de manter dogmas que tinham razão mas há seculos atras.
Que apareçam movimentos novos é só uma questão de tempo e sabedoria/eficiencia que infelizmente tarda, apesar da tentaiva de Marinho Pinto tão escrutinada/deturpada(ou talvez nem tanto.
O próprio aparecimento de Marinho Pinto, que sem dinheiro nem meios obteve um resultado assinalável nas eleições europeias, comprova a falência do Bloco de Esquerda.
Um partido existe para apresentar soluções aos cidadãos e alcançar os meios para que essas soluções passem à prática. Não precisamos de um partido que se esgote na reivindicação: para isso já existem as centrais sindicais. Precisamos ainda menos de um partido que se esgote na “análise política”. Para isso já bastam os quatrocentos e cinquenta e sete “analistas políticos” que enxameiam os canais de televisão.
Para isso já bastam os quatrocentos e cinquenta e sete “analistas políticos” que enxameiam os canais de televisão.
Off tópic
A informação ou o entretenimento de qualidade custam dinheiro e os comentadores que enxameiam as TVs ficam bem mais baratos além de que alguns são o que são exactamente por isso (serem analistas/ comentadores/ tudologos ) e o pior é que não têm vergonha nenhuma pelas responsabilidades directas no estado do País alvitrando-se agora de verdadeiros milagreiros que têm sempre solução para tudo.
Quanto ao BE já disse em baixo no post que o RR colocou o que penso e por isso discordo do Pedro Correia quando afirma que o BE quis ser igual ao PC, o BE quis ser um PS de esquerda e no inicio conseguiu-o mas habilmente o PS esvaziou-o não só apoderando-se de algumas “causas” como colocando-o entre a espada e parede da governação como aconteceu na CML.
Temos pontos de vista diferentes sobre o BE, o que não tem problema algum: é salutar este confronto de posições contrárias.
Quanto às televisões, dou-lhe toda a razão: ter um comentador a palrar em estúdio (ou dois ou três) é a forma mais barata de preencher tempo de antena. O pior é que as opiniões inteligentes e bem fundamentadas – que também existem – perdem-se muitas vezes no meio da permanente algaraviada em que se transformaram os canais de notícias na TV por cabo.
O comentário que entrou acima como anónimo é meu.
Obviamente que não qualifico todos os comentadores pela mesma bitola, consigo obviamente escutar alguns e lê-los sem qualquer tipo de preconceito, pelo facto de serem coerentes ao longo do tempo em atitudes, actos e ideias ou não terem muitas responsabilidades no estado a que o Portugal chegou.
A grande dificuldade nos dias de hoje é saber destrinçar o bom do mau face á enorme “quantidade” de informação a que podemos aceder, isso aprendi no trabalho que exerci durante bastantes anos, saber discernir do que é valido intrinsecamente do que é apenas marketing ou é veiculado para defender interesses não claros e com propósitos mais negros.
O grande problema actual da comunicação e do jornalismo em particular é que muitas vezes é feito com base em interesses e na defesa de determinados grupos tendo-se perdido a honestidade intelectual e choca-me (CHOCA-ME MESMO) ver muitas pessoas com formação superior e carreiras profissionais distintas prescindirem da liberdade de serem honestos e aderirem a uma certa clubite de pensamento e acção uma vezes por ignorância e algum fanatismo mas infelizmente Na MAIOR PARTE delas porque lhes convém a nível pessoal, profissional ou social fazê-lo.
Eu gostava era que o Pedro (como outros comentadores e bloggers da praça) em vez de mandar bocas para o ar me indicasse quais foram – em concreto – as políticas de esquerda que o PS quis aplicar e que não conseguiu porque lhe faltaram os votos à esquerda?
Diga lá, em concreto, uma ou duas à qual faltou o voto do PCP ou BE?
Esta converseta calimérica de que os partidos à esquerda não querem ajudar o coitadinho do PS já chateia.
O que os partidos da esquerda não querem fazer (e eu como seu eleitor exijo que eles não façam) é pegar no meu voto e prometendo-me uma coisa traiam a minha confiança e avalizem as mesmas políticas que o PSD ou o CDS (cortes de salários e pensões, privatizações em barda, recuo do estado em sectores chave da economia, PEC’s sucessivos, benesses para os bancos e grandes empresas, recusa em discutir incompatibilidades de deputados, submissão acrítica à UE, etc…).
Porque não nos iludamos:
Quem aprovou TODOS os orçamentos de TODOS os governos PS minoritários? Resposta: PSD e CDS…
Cumps
JP
PS: E também gostava que concretizasse a apreciação relativamente ao posicionamento “paleolítico” do PCP em matéria de costumes. Não foi o PCP o primeiro (e durante muitos anos o único) partido a bater-se pela descriminalização do aborto em Portugal?
Mais uma vez fica demonstrado a vontade da esquerda controlar a vida dos outros. Puritanos.
Meu caro, a sua linha de raciocínio ilustra muito daquilo que eu referi. “Aplicar políticas de esquerda” é um jargão que na prática significa isto: as forças minoritárias deverão impor o seu programa à força maioritária, o PS, sem fazerem a menor concessão.
Por outras palavras: o entendimento exige credenciais prévias “de esquerda” e quem se arroga na posição de emitir essas credenciais é o PCP.
Esta posição inaceitável tem inviabilizado maiorias parlamentares à esquerda desde a fundação do actual regime constitucional (já lá vão 38 anos, a caminho de três gerações). Uma espécie de nó cego que apenas possibilita dois tipos de maiorias:
– De direita (PSD+CDS)
– De centro (PS com apoio do PSD e/ou do CDS)
Isto decorre fundamentalmente do sectarismo do PCP, que apenas sabe relacionar-se com as restantes forças de esquerda a partir de posições hegemónicas. Acontece que o PS não é o Partido Ecologista os Verdes, apêndice do PCP. Não faz o menor sentido que um partido que nunca conseguiu vencer uma eleição legislativa em Portugal condicione qualquer entendimento políticos a uma condição impossível: que o PS, três vezes mais importante em termos eleitorais, se submeta às teses minoritárias.
O Bloco de Esquerda podia e devia ter desfeito este nó cego. No entanto, ao mimetizar as posições do PCP tornou-se inútil para o nosso sistema político em geral e para a esquerda em particular. Portugal não precisa de um segundo Partido Comunista. Já existe um. E a cópia é sempre inferior ao original.
O Pedro desculpe-me mas continua a bater no ceguinho sem concretizar aquilo que diz.
Vamos lá, se não gosta do “políticas de esquerda” chame-lhe outra coisa qualquer mas o PS teve ou não teve os votos do PCP e do BE quando foi preciso reconstruir o país e torná-lo melhor (segurança social, SNS, justiça, poder local, interrupção da IVG, rendimento mínimo, etc…)?
Diga lá – EM CONCRETO – quando é que o PS precisou do PCP e do BE e eles lhe falharam?
Então na UE alguma coisa distingue PS e PSD/CDS? Quer os votos do PCP e do BE a engrossar essa posição? O tratado orçamental é que é de esquerda?
E onde anda o referendo à moeda única que o PS prometeu?
E cá em PT, quem é que aprova sistematicamente os orçamentos dos governos minoritários PS? Alguma coisa objectiva distingue o PS do PSD na economia? Não estão de acordo nas privatizações? Não estão de acordo nas benesses à banca? Não estão de acordo na liberalização do mercado de trabalho? Não existe em ambos a mesma promiscuidade entre política e negócios? Não são ambos contra a exclusividade dos deputados?
E quem é que negociou com a troika o plano de austeridade com os resultados que estão à vista (e que em boa hora foram alertados por PCP e BE)?
Em verdade lhe digo, após 40 anos disto já só acredita quem quer…
O PS nunca – repito: NUNCA – contou com um orçamento de estado apoiado pelo PCP ou pelo Bloco de Esquerda enquanto PCP-bis.
Trata-se do principal e decisivo instrumento de acção governativa. Quer algo ainda mais concreto? Olhe que não é fácil.
O resto é folclore verbal esquerdista para escamotear um dado de facto essencial: sempre que os eleitores deram o voto maioritário ao PS, este partido teve de governar sozinho ou então apenas contou com o apoio do PSD e/ou do CDS.
Porque o PCP esteve sempre na trincheira oposta, alegadamente em nome da “verdadeira esquerda”. A que nunca pretende ser governo: só está bem na oposição. E a única “coligação” a que dá aval é com um partido-fantasma chamado Verdes.
P. S. – Meu caro, estou familiarizado com siglas. Mas PT (sem ser Portugal Telecom) é algo que não consigo descodificar…