
Parte da longevidade da organização terrorista ETA deve-se ao êxito de uma estratégia tripartida que Gaizka Fernández Soldevilla e Raúl López Romo sintetizaram de forma certeira na frase “sangre, votos, manifestaciones”. À estrutura terrorista a ETA juntou uma constelação de partidos, organizações e associações que, entre outros objectivos, tinham como missão a ocupação efectiva do espaço público basco. A viabilidade da “causa nacionalista” e da organização que dizia protegê-la dependiam da disseminação do ideário radical que, por sua vez, exigia acosso sobre quem pensava de forma diferente. Com manifestações de rua e grafitis, com propaganda partidária, e com atentados e assassinatos selectivos, o cerco a quem não subscrevia o radicalismo basco era total. Nem as campas das vítimas se livraram de vandalismo.
Mesmo após o anúncio do cese definitivo por parte da ETA em 2011, a cultura sectária perdurou, sendo visível em casos como o da agressão a dois militares da Guardia Civil em 2016. A namorada de um destes militares, também agredida, descreveu o clima de opressão que ainda paira no País Basco ao relatar o isolamento a que foi votada e as represálias que sofreu pelo simples facto de ter uma relação pessoal com um membro da Guardia Civil. Não foi, evidentemente, um atentado terrorista, mas sim a continuação de uma prática de acosso com décadas de existência e com origem no aparelho político da ETA. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Não ser basco em terras da Euskal Herria é estar a mais. Ser basco e não perfilhar as teses radicais é traição.
O anúncio da dissolução da organização terrorista basca, previsto para o primeiro fim-de-semana de Maio, é a etapa que falta para finalmente se decretar o óbito da ETA. Porém, nem todos na esquerda abertzale estão convencidos dos méritos do fim da violência. Mais grave, muitos querem aproveitar os anseios de paz para, a um só tempo, indultar o passado e legitimar os argumentos que sustentaram o terror. A decadência da ETA iniciou a luta pela memória, pelo relato de um passado dolente, uma batalha travada com brilhantismo por Fernando Aramburo em Patria. A batalha pelo passado é porventura a chave da pacificação do País Basco. Por isso, a declaração de hoje, onde a ETA pede “perdão pelo dano causado”, pelo “sofrimento desmedido” no qual tem “responsabilidade directa”, é tão ou mais importante do que o anúncio de dissolução para iniciar a recuperação da convivência social e a normalização política da Euskal Herria.

Alsasua ( entre outros casos menos publicitados) põe em causa o discurso “oficial”…
O caldo de cultura continua ali.
JSP
A violência acabou, mas as ideias e as práticas quotidianas que a ampararam continuam vivas. Em decadência absoluta, mas ainda vivas.
Estas práticas no País Vasco (acosso, grafitis, agressões seletivas, etc) tiveram análogos muito próximos na Irlanda do Norte, da parte tanto de republicanos como de unionistas.
“Porém, nem todos na esquerda abertzale estão convencidos dos méritos do fim da violência.”
https://www.quetzaleditores.pt/produtos/f icha/tolos-impostores-e-incendiarios/191 97753
SINOPSE
Os pensadores e as obras mais influentes nas atitudes da Nova Esquerda são submetidos a uma rigorosa análise neste estudo cheio de erudição e de ironia.
Jürgen Habermas, Lukács, Slavoj Žižek, Miliband, Sartre e Hobsbawm, por exemplo, são estudados pormenorizadamente – com detalhes biográficos e bibliográficos.
Scruton analisa as mudanças do pensamento da Nova Esquerda desde 1989.
O resultado é uma crítica devastadora ao pensamento dominante nos média e no jornalismo atuais.
com este livro, Scruton desconstrói alguns dos mitos do pensamento politicamente correto dos nossos dias.
O Zizek é tão de esquerda quanto a Coreia do Norte é democrática. O Zizek é na verdade um apoiante de Donald Trump que ainda não saiu do armário (isto é, do armário da extrema-direita).
Dizes isso como se fosse uma coisa má
Um assunto e acontecimento que veio oportunamente na semana a seguir a ter acabado de ler Pátria de Aramburo, o que me fez compreender com grande profundidade tudo o que é dito neste excelente post.
Obrigado. Quanto ao “Patria”, é um livro magnífico. Se gostou, recomendo-lhe “Los peces de la amargura” e “Años lentos”.
Um pedido de desculpa é um assumir público do erro e da responsabilidade.
É um passo de gigante.
Mas lembro-me dos vários cessar-fogos, passos gigantescos os primeiros, quase irrelevantes os que se lhes seguiram, e pergunto-me se é a ETA quem pede desculpa ou apenas os actuais cabecilhas. Desejo o melhor, mas não o espero para já.
Sarar as chagas profundas causadas pela ETA demorará anos. E exigirá que se observem padrões mínimos de justiça. O caminho é longo, mas já estivemos pior.
Muito piores, sim.
Mas o ódio existe ainda, e ainda que quem pede perdão o faça profunda e sentidamente, aqueles a quem o dirigem podem não estar preparados para o aceitar.
Feridas do terrorismo doméstico são mais profundas do que as da guerra, mesmo que civil.
Diálogo e Paz. É o que espero consigam alcançar nos próximos anos.
Não simpatizo de forma alguma com a ETA. No entanto, tenho a aplaudir o facto de, no dia 20 de Dezembro de 1973, terem colocado em órbita o primeiro astronauta espanhol, Luis Carrero Blanco.
Concordo plenamente. Foi um feito histórico. O homem saiu disparado que nem um foguetão.
(Não assino este comentário porque sei que poderia ser processado pela justiça espanhola.)
Excelente texto, Diogo. Melhor do que qualquer editorial da imprensa de hoje.
Muito obrigado, camarada.
Deve ter acabado, tal como aconteceu com o IRA e outros grupos ligados a redes comunistas, o financiamento através de redes terroristas e da produção de ópio da Coreia do Norte.
De qualquer modo o posicionamento do governo espanhol como “vitória” sobre a ETA não indicia à partida que a coisa termine por aqui. Dar pontapés em quem resigna nunca foi uma boa ideia. Cheira mais a uma interrupção.