O filme que nunca existiu


Pedro Correia,

Nem o segundo homem mais poderoso do planeta impôs a sua vontade à Mafia nos estúdios de Hollywood. A história aconteceu em 1962, quando Robert Kennedy – irmão do presidente John F. Kennedy e procurador-geral dos EUA – quis levar ao cinema o seu livro The Enemy Within, lançado dois anos antes, em que relatou o combate que empreendeu no Senado contra o crime organizado e a forma como a Mafia se infiltrava na sociedade americana.
Robert contactou o produtor Jerry Wald, um dos nomes mais influentes nos estúdios cinematográficos, responsável por grandes sucessos de bilheteira como Paixões em Fúria (1948) e Até à Eternidade (1953). Entusiasmado com o projecto, a 2 de Julho Wald informou-o que conseguira o melhor argumentista para o filme: Budd Schulberg, galardoado em 1955 com o Óscar pelo argumento de Há Lodo no Cais. Schulberg lera The Enemy Within e ficara com a noção de que “algo no âmago da sociedade americana começava a apodrecer”: o cinema era sem dúvida o melhor veículo dessa denúncia.
Paul Newman chegou a ser sondado para o papel de Robert Kennedy no filme. Mas, 11 dias após ter contactado o procurador-geral, Wald morreu subitamente, aos 49 anos, na sua casa de Beverly Hills. E Robert Kennedy nunca conseguiu levar por diante o seu projecto. As pressões da Mafia sobre os estúdios cinematográficos eram enormes, revela David Talbot no livro Irmãos – A História Oculta dos Anos Kennedy.
Schulberg ainda tentou assumir a produção, obtendo para o efeito o acordo da 20th Century Fox. Mas os responsáveis deste estúdio “receberam ameaças de morte”, revela Talbot, um jornalista de investigação. Newman também se desinteressou do projecto: The Enemy Within abortou quase à nascença.
“Shulberg era um príncipe de Hollywood, filho do gigante do cinema B. P. Schulberg. Bobby Kennedy era o segundo homem mais poderoso do país. Mas os dois juntos não conseguiram que se fizesse o filme devido à oposição descarada do crime organizado. Foi uma espantosa lição sobre os mecanismos obscuros do poder americano”, conclui o autor.

Já passou meio século. Mas esta história ainda dá que pensar.

 

4 comentários em “O filme que nunca existiu”

  1. Esta história ainda dá que pensar porque, apesar de já ter passado meio século, as coisas não mudaram tanto como se possa pensar. A Mafia evoluiu, mas continua a existir. Nos Estados Unidos e no resto do mundo. Aliás, em Portugal até me parece que é onde ela está mais refinada. A generalização da corrupção, a ineficácia da justiça e a permissividade das pessoas fazem com que os mafiosos nacionais não tenham sequer necessidade de impor as suas regras através da violência.

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