O figurão


Pedro Correia,

berardo.jpg

Anda agora muita gente indignada com as baboseiras de Berardo, que vai gozando à brava com o pagode – desde os tribunos de São Bento aos meretíssimos dos tribunais, passando pela banca que lhe foi prestando vassalagem sem cuidar da idoneidade financeira do figurão.

Mas convém avivar memórias: quando o indivíduo foi duas vezes condecorado por diferentes Presidentes da República ninguém soltou sequer uma palavra de perplexidade – começando por alguns patrões da imprensa, que andavam com ele ao colo. Quando perseguiu jornalistas que ousavam enfrentá-lo com histórias incómodas (e um deles chegou a ser destituído das relevantes funções que desempenhava num importante periódico português devido às pressões exercidas pela criatura junto da estrutura accionista), nem o mais remoto brado de indignação se ergueu. Quando fez um acordo leonino com o Estado para exposição pública dos quadros que acumulara, não faltaram basbaques em fila a elogiar-lhe o “gosto artístico”. Quando se vangloriava de vinhateiro, logo surgia gente de cálice em riste a brindar com moscatel, entre mil hossanas em letra impressa ao putativo “mérito empresarial” do cavalheiro.

Tantos anos depois, ei-lo enfim sujeito às indignações da turba. Chegam tarde. E, em certos casos, tresandam a hipocrisia.

0 comentários em “O figurão”

  1. “Quando perseguiu jornalistas que ousavam enfrentá-lo com histórias incómodas (e um deles chegou a ser destituído das relevantes funções que desempenhava num importante periódico português devido às pressões exercidas pela criatura junto da estrutura accionista)”

    Pedro, como não vejo praticamente tv, e vou-me mantendo actualizado pelo DO ,qual o jornal a que se refere?

    Berardo é semelhante a Zeinal Bava, Valentim Loureiro, Bataglia, também eles condecorados. Aliás deixo aqui a lista:

    https://www.sabado.pt/portugal/politica/detalhe/foram-condecorados-no-10-de-junho-e-cairam-em-desgraca

        1. Obrigado pela sugestão. Infelizmente perde-se um pouco em mim, pois não bebo álcool, mas estou seguro de que fará as delícias de um familiar próximo que é grande experimentador na área.

    1. São o retrato de toda uma era, Pedro!
      Vamos ver os novos mitos que lhes sucederão, entretanto! (O Zeinal, por exemplo, antes de o ser já era. Foi-nos apresentado como a genialidade em pessoa. Outros foram adiantados como os grandes mecenas da cultura e do desporto. Os grandes filantropos e quejandos! Grandes encómios foram escritos sobre eles)
      São também o retrato da media de referencia e das suas referencias!
      É pena!

    1. “que Berardo nada fez de ilegal e vai sair-se com a sua”
      A coisa é muito difícil de entender para quem não tenha conhecimentos especiais. Do que ouvi na TV a juristas e outros, começo a estar convencido de que é como diz: ele não fez nada de ilegal.
      E até me parece que quem fez o que não devia foram os que aprovaram os empréstimos de que ele beneficiou. Mas destes não se fala. Não terão eles responsabilidades? Ficam impunes?
      Quanto às condecorações, discordo de que se retire uma condecoração que num momento datado foi considerada merecida. Discordo de que se tente alterar o passado. Além de que dois presidentes que o condecoraram não podia adivinhar o que ele iria fazer no futuro.

      1. Aquilo que Berardo fez é aquilo que milhares de empresários portugueses, grandes e pequenos, a todos os níveis, fazem: ficou com dívidas que não pode pagar, transferiu todos os seus bens para outro sítio qualquer, e a Justiça assim não lhe pode arrestar nada.
        Não sei se é legal se é ilegal, mas sei, sem sombra de dúvida, que é uma prática correntíssima em Portugal. Por exemplo, contrai-se dívidas em nome de uma empresa, depois transfere-se todos os bens dessa empresa para uma nova empresa que se dedica a exatamente a mesma atividade que a anterior (e tem os mesmos donos), depois não se paga a dívida e, quando o tribunal vai a ver, conclui que a empresa que a contraiu não a pode pagar porque nada tem em seu nome. O banco fica a arder e o empresário continua a sua vida como se nada fosse.
        Conheço (de ouvir falar) montes de casos destes. É a coisa mais corrente que há em Portugal.

  2. Enquanto a turba se zanga com Berardo não olha para os amnésicos que passaram pela Comissão de Inquérito e que lhe puseram o dinheiro nas mãos. O azar de Berardo é não falar como um Doutor, que os portugueses a esses baixam sempre a cabeça.

          1. Não acho menor insulto às instituições a falta de memória de quem foi regiamente pago para gerir o dinheiro público. Houve alguma onda de indignação? Não.

          2. Pois. Por isso é que eu escrevi o que escrevi. Só agora é que a turba se lembrou de questionar as moscambilhas entre o estado e o “comendador” duas vezes distinguido pelos mais altos representantes da nação.

          3. Não creio que só agora se tenham lembrado, caro Pedro! Agora, sim, lembraram-se de tentar reescrever a história!
            À época só os maledicentes ousavam questionar estas jogadas políticas protagonizadas, na sombra, por quem sabemos!
            Verdadeiramente nem as virgens se fingem surpresas, e todos o sabem e todos o sabiam! O Berardo foi usado como ponta de lança! Daí o inefável riso!! O risco, as garantias e a autonomização do património garantia falam por si! Um negócio com aquelas condições só se concretizaria, como aconteceu, com instruções do Governo à Administração da Caixa!
            Agora indignam-se com o riso do Berardo! No fundo é como se o problema fosse a falta de uma lágrima de arrependimento e expiação para regozijo de toda a nação!! Como o lacaio se riu, não cumprindo o seu papel redentor de mea culpa, e arrependimento genuíno, dando as costas à largura da vergasta, aqui del rei que urge sangrá-lo para redenção da Pátria!!
            Esta gente, Júdice à cabeça, faz-nos de tontos!!
            E se dançarmos a música destes tratantes só mereceremos farelo e lavagens, a meia ração!!

  3. Condecora-se muito em Portugal. Condecora-se a torto e a direito. Um destes dias, serei o único português que não tem uma condecoração – nem uma selfie com Marcelo.

    A sua referência à hipocrisia da “corte” portuguesa recordou-me isto: Ascenso Simões ainda quererá, como em 2014, que José Sócrates seja condecorado? É que eu lembro-me de ele escrever que o então presidente Cavaco Silva “não podia promover o abastardamento das mais altas condecorações da Nação, nem podia fazer relevar opções ou simpatias pessoais obliterando os deveres de Estado”. E a respeito do mesmo assunto, Manuel Alegre continuará a pensar, como em 2014, que Cavaco Silva só não condecorou Sócrates “por questões pessoais”?

  4. Pois eu que não mando nada mas gosto um imenso daquela colecção que considero de valor, sim – e temo pelo futuro que temos nós todos com ela que Berardo, segundo li, fará o que bem entenda – pois, apesar disto tudo, digo-lhe que sempre detestei o sujeito. Que comeu as papas na cabeça a muita gente, comeu. Que eles deixaram, pois foi. Mas isso não faz do indivíduo em causa um bom sujeito. E não discuto mais sobre quem não merece.

    1. Eis uma figura do regime. Idolatrado em editoriais, anos a fio. Apontado como ‘self made man’ cheio de “espírito empreendedor”. Temido, reverenciado. Condecorado por dois Presidentes, que o fizeram “comendador”.

  5. perseguiu jornalistas que ousavam enfrentá-lo com histórias incómodas (e um deles chegou a ser destituído das relevantes funções que desempenhava num importante periódico português devido às pressões exercidas pela criatura junto da estrutura accionista)

    Não sei a que episódio se refere.

    O Pedro poderia justificar devidamente esta acusação? Que jornalistas incomodaram Berardo? Que histórias incómodas publicaram? Que jornalista foi despedido? Que “importante periódico” o despediu? Como sabe o Pedro que o despedimento (ou outra qualquer sanção) foi devido a pressões de Berardo?

    1. “Que jornalistas incomodaram Berardo?” Então não sabe que foi Pedro Correia? Que topou a coisa a tempo!

  6. Parece que a Garrafeira vai retirar os vinhos da Bacalhôa do catálogo. Acho um bocado “forçado”…. Alguém olha à etiqueta da roupa quando a compra…quantos mudaram de carro, após o escândalo dieselgate/ Wolkswagen/Audi…decerto ainda ambicionam todos ter um dia um carro alemão….e de Rede Eléctrica, quantos sairam da EDP…?

    Berardo fez o que muitos fazem e continuarão a fazer. Está na massa do sangue do Sistema, não só no económico. O importante é ganhar, tão só, ganhar.

    1. Eu saí da EDP e olhe que não foi pelos chineses a terem comprado…
      Quanto ao Joe, fez pela vida algo muito vulgar aqui no rectângulo e com aquela brilhante actuação na CPI, que hoje se fazem por tudo e por nada mais uma vez ajudou os bancos / banqueiros que lhe emprestaram o graveto para andar a servir de testa de ferro de interesses obscuros que estão e ficarão na penumbra.
      Houve um que até tinha uma ilha no Brasil e levou lá um peixe a passar férias…

      WW

  7. Honra lhe seja fita, Miguel Sousa Tavares já nos anos 90 verberava a personagem, denunciando uma série de esquemas na compra de títulos da comunicação social, que deixou afogados em dívidas, e das quais se escapou criando à pressa novas empresas que apenas tinham os créditos. Tanto os métodos como o indivíduo já eram conhecidos, mas ainda houve quem desse para quele peditório e quem tivesse grandes desvelo pelo “comendador”.

    1. Excepção à regra, João Pedro. Havia grupos editoriais inteiros (e sei bem do que falo) em que não era possível escrever nada que beliscasse Sua Excelência, o Comendador.
      Agora é diferente. Mas já tarde de mais.

    2. João, mas isso não é o pão nosso de cada dia…pelo menos vejo-o assim…desde esses esquemas que o Berardo usa, passando pelas offshores, passando o património para o nome de um testa de ferro….epá, é imoral, mas é normal. Aliás com esta ânsia do Vencer, de Ser o Primeiro, do Just Do It, é natural que um tipo se julgue autorizado a fazer tudo para vencer, penso eu de que…acho que é uma inerência do sistema politico económico e social actual

  8. Começando pelos patrões da imprensa e passando também por alguns “mangas-de-alpaca”

    Os manga-de-alpaca
    Albúm: A Ópera Mágica do Cantor Maldito – 2003
    https://youtu.be/i0hZV7j3e5E

    “pagos à pataca pela satrapia
    os “mangas-de-alpaca”
    da estética acromia
    atentos veneradores
    e obrigados servem
    e invocam
    servem o nababo
    o dinheiroso
    a manter a sua própria mordomia
    no génio e na arte da pecúnia
    pela arte do sumiço
    nasce um paraíso

    os “aparatchiks” da nova cultura
    velhos corifeus da nomenclatura
    pavoneim-se pedantes
    em meios e ademanes
    ………………………………..
    chafurdam e lambuzam na gamela
    e pela trela vão os bacorinhos
    de abrochados colarinhos
    mão pela mão
    pelo sifrão
    e são

    enfáticos na lábia da tosquia
    pedantes no coreto da desfeita
    ditadores de modas retorcidos
    escrevem torto por linhas direitas
    na assunção de seres famosos
    num futuro líquido e sólido
    hão-de ascender flatulentes
    à condição de seres gasosos”
    ………………………………….………..

  9. Em conclusão. Ele ri.
    E ri com vontade e à grande.
    E sem estar por dentro do affaire, penso umas coisas sem afirmar certezas, o que tenho de verdadeiramente certo é que em tudo quanto meta dinheiro, aquele que ri é o que se lambuza no bolo.
    Além de que, homem que ri já se salvou do afogamento.

  10. Jogada típica do Ps e do aparelho jornalístico que o defende: a questão centra-se na porcaria das medalhas. Tiram-lhe as medalhas e o país fica limpo. Reposta a justiça universal dos maçons, a dívida fica por pagar (ao contrário da usura e destruição que os socialistas fizeram desabar sobre determinados bancos privados que não controlavam). E fica por pagar porquê?

    Porque é melhor que o não-comendador não fale e não diga por onde distribuiu o dinheiro e todo o tipo de vantagens e valorizações que sacou à CGD.

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